Maria Bethânia 80 anos

Lívia Nolla
00:01 18.06.2026
Autor

Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
Arte e cultura

Maria Bethânia 80 anos

Uma das maiores vozes da história da música popular brasileira completa oito décadas de vida no ano em que completou 60 anos de carreira

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- 18.06.2026 - 00:01
Maria Bethânia 80 anos
Foto: Montagem Novabrasil.

Hoje é uma dia mais do que especial para a música popular brasileira: uma de suas maiores representantes – a cantora baiana Maria Bethânia, dona de uma das mais belas vozes e uma das maiores intérpretes da nossa história – completa 80 anos!

Oito décadas de vida e seis décadas recém completadas de carreira. Isso não é pra qualquer um! Hoje, para homenagear a nossa Abelha Rainha, preparamos uma matéria especial que traz um panorama da sua vida e obra.

Dona de uma das maiores e mais potentes vozes da nossa música, Bethânia – com sua visceralidade e poeticidade nata – também é uma das maiores intérpretes da história do país. Gravou os mais importantes compositores de nossa música, trazendo sempre a sua digital em cada interpretação.

Com mais de 26 milhões de discos vendidos ao longo de 60 anos de carreira (são quase 60 álbuns e mais de 15 DVDs lançados), foi eleita, em 2012 – pela revista Rolling Stone Brasil – como a quinta maior voz da música brasileira. Maria Bethânia foi, também, a primeira mulher a vender mais de 1 milhão de discos no Brasil.

O início na Bahia e o show “Opinião”

Maria Bethânia e o irmão Caetano Veloso | Imagem: Reprodução

Nascida em Santo Amaro da Purificação, no interior da Bahia, Bethânia é irmã mais nova de Caetano Veloso e filha de Dona Canô e Seu Zezinho. Foi Caetano – com apenas quatro anos de idade – quem escolheu o nome da irmã, inspirado em uma música do compositor Capiba, que Nelson Gonçalves lançou no mesmo ano em que ela nasceu, 1946, chamada“Maria Bethânia”.

Sempre apaixonada por música e teatro, Bethânia mudou-se para Salvador em 1960, com a intenção de terminar os estudos, e fez parte da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, passando a frequentar as exposições de artes plásticas, shows musicais e o fervilhante ambiente estudantil.

Em 1963, fez o seu primeiro trabalho profissional com a música. Seu irmão, Caetano, foi chamado para compor a trilha musical da peça “Boca de Ouro”, de Nelson Rodrigues, e a convidou para interpretar as faixas que iriam compor a trilha do espetáculo.

Nesta época,Bethânia e Caetano conheceram outros músicos baianos também iniciantes como Gilberto Gil e Gal Costa.

Juntos, Bethânia, Caetano, Gil, Gal e Tom Zé fizeram – em 1964 – o show “Nós, Por Exemplo”, para inaugurar o Teatro Vila Velha, de Salvador; com um repertório de canções da bossa nova, de Dorival Caymmi e de cada um dos compositores do elenco. O espetáculo foi um marco e influenciou muito do que veio a ser produzido no eixo Rio-São Paulo em seguida.

Em fevereiro de 1965, Bethânia foi convidada pela cantora e violonista Nara Leão para substituí-la no espetáculo “Opinião”, em cartaz no Rio de Janeiro, pois a Nara precisou se afastar por problemas vocais. A então musa da Bossa Nova tinha conhecido Bethânia no ano anterior, quando visitou a Bahia e assistiu um dos espetáculos em que a baiana atuava.

O show “Opinião”, com Bethânia, Zé Keti e João do Vale e dirigido por Augusto Boal, tornou-se um grande sucesso na época por conta de suas canções de protesto, que retratavam a problemática social do país em tempos duros de regime militar.

A interpretação poderosa de Bethânia, principalmente na canção “Carcará”, foi responsável por lançá-la ao estrelato e transformá-la, a partir daí, em uma das maiores cantoras de todos os tempos, reconhecida no Brasil inteiro.

A cantora que conquistou o país

Com o sucesso do espetáculo, em junho de 1965, a cantora foi contratada pela gravadora RCA, onde gravou o seu primeiro álbum, “Maria Bethânia”

Em 1967, teve sua carreira ainda mais impulsionada, ao lançar seu segundo álbum “Edu e Bethânia”, em parceria com Edu Lobo, que conta com sucessos que colocaram Bethânia definitivamente no rol das grandes cantoras do Brasil.

Em 1968, com o intuito de não ficar com o rótulo somente de ”cantora de protesto”, muito lhe conferido por conta do show “Opinião”, a baiana não aderiu ao movimento de contracultura Tropicalista ao lado de seus colegas e lançou-se em uma carreira também de sucesso, seguindo suas escolhas artísticas de forma pessoal.

Maria Bethânia gravou diversos compositores, lançou álbuns em parceria e se aproximou cada vez mais do Candomblé, trazendo também a religião de matriz africana para as canções que escolheu defender ao longo da vida.

Se aproximou muito também da literatura, mesclando canções e poesias declamadas de forma magistral, uma das maiores qualidades da cantora-atriz-performática, que declama – por exemplo – Fernando Pessoa e Clarice Lispector como ninguém.

Depois de passar mais de dois anos em exílio forçado em Londres, por conta da perseguição da ditadura militar, seu irmão Caetano Veloso voltou ao Brasil, em 1972, e produziu um disco de sucesso de Bethânia: “Drama – Anjo Exterminado”, que funciona como dois atos de uma peça de teatro. 

O álbum traz, além das faixas título “Anjo Exterminado” (Jards Macalé eWaly Salomão) e “Drama” (Caetano), clássicos como “Esse Cara” (Caetano Veloso). A continuação, ”Drama – 3º Ato”, foi gravada a partir de um espetáculo ao vivo da cantora, em 1973.

Os Doces Bárbaros e mais álbuns de sucesso

Os Doces Bárbaros durante show nos anos 70
Os Doces Bárbaros durante show nos anos 70. | Foto: Arquivo/Agência O Globo.

Em 1976, Bethânia juntou-se a Caetano, Gil e Gal para o espetáculo idealizado por ela, “Doces Bárbaros”, com quinze canções novas, compostas exclusivamente para a turnê, e que virou documentário e um álbum considerado uma obra-prima da MPB. 

Entre as canções, estão as clássicas “Os Mais Doces Bárbaros” e “Um Índio” (ambasde Caetano, essa segunda, um grande sucesso na voz de Bethânia) e “Esotérico” e “O Seu Amor” (ambas de Gilberto Gil).

Em 1976, a cantora lançou o LP “Pássaro Proibido”, que além da canção homônima – uma das raras músicas composta por ela (em parceria com Caetano e interpretada por ele no álbum) – conta com o super sucesso na voz da baiana: a canção “Olhos nos Olhos”, de Chico Buarque.

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Ao longo dos próximos anos, Bethânia gravou mais discos de sucesso como:

  • Pássaro da Manhã (1977, que conta com o clássico em sua voz, “Tigresa, de Caetano Veloso)
  • Álibi (1978, com o sucesso homônimo de Djavan, além de “Sonho Meu, composição de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho e “Não Dá Mais Pra Segurar – Explode Coração”, de Gonzaguinha);
  • Mel (1979, cuja canção homônima – de seu irmão Caetano com Waly Salomão – deu à Bethânia o apelido de “Abelha Rainha da MPB”); 
  • Talismã (1980, que conta com outro grande sucesso de Dona Ivone Lara na voz de Maria Bethânia: a canção “Alguém Me Avisou”, com a participação de Gilberto Gil e Caetano Veloso);
  • Dezembros (1985,  que traz “Gostoso Demais”, imenso sucesso em sua voz, composição deDominguinhose Nando Cordel).

Em 1983, Maria Bethânia gravou a canção “Brincar de Viver”, de Guilherme Arantes e Jon Lucien, para a trilha sonora do especial infantil da Rede Globo, PLUNCT PLACT ZUUUM.

A música fez tanto sucesso, que depois entrou para o álbum “Romance“, da cantora, em 1985, e tornou-se uma das mais icônicas canções em sua voz.

Mais e mais sucessos imortalizados em sua voz

Em “Maria”, disco de 1988, Bethânia nos traz o sucesso em sua voz: “Tá Combinado”, do irmão Caetano Veloso

No ano seguinte, no álbum “Memória da Pele”, outro imenso sucesso na voz da cantora, também de Caetano: “Reconvexo”. Já contamos a história por trás da música “Reconvexo” em uma matéria especial no nosso site.

Em 1990, Bethânia comemorou 25 anos de carreira com o LP “25 anos”, com repertório que evoca a diversidade da cultura brasileira, mescla canções consagradas e pouco conhecidas, entre regravações e inéditas e conta com a participação especial de vários artistas e da bateria da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, sua escola do coração, que – em 1994 – fez uma homenagem aos Doces Bárbaros, com o enredo “Atrás Da Verde E Rosa Só Não Vai Quem Já Morreu” e em 2016 reverenciou a artista baiana com o enredo campeão “Maria Bethânia – A menina dos olhos de Oyá”.

Maria Bethânia sempre foi uma grande intérprete da obra de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Em 1992, no seu álbum“Sonho Impossível”, a cantora gravou o sucesso “Fera Ferida”, que tornou-se a música tema da novela de mesmo nome, exibida pela TV Globo em 1993. 

Em 1994, o disco “As Canções Que Você Fez Pra Mim” – com versão também em espanhol – é um tributo à parceria de Roberto e Erasmo Carlos, com 11 canções da dupla interpretadas por Bethânia, entre elas, a canção que dá título ao disco.

Em 2001, com 35 anos de carreira, Maria Bethânia lançou o álbum “Maricotinha” com a inédita “Depois de Ter Você”, composição de Adriana Calcanhotto, cantada em dueto com a cantora, em um momento inesquecível.

Parceria entre Ana Carolina e Jorge Vercillo, a canção “Eu Que Não Sei Quase Nada do Mar” foi eternizada pela voz de Maria Bethânia em 2006, no seu álbum “Pirata“. 

Um dos maiores sucessos na voz de Maria Bethânia, “Carta de Amor”, lançada pela cantora em seu álbum “Oásis de Bethânia”, de 2012, é uma composição de Paulo César Pinheiro, em que Bethânia dá seu recado:“Não mexe comigo, que eu não ando só!”.

Grammy Award e outros prêmios

Sempre mesclando texto e música, em seus discos e espetáculos, Bethânia faz isso com maestria e uma interpretação potente e envolvente. A artista também esteve na trilha de diversos filmes e novelas brasileiras e recebeu vários prêmios notáveis da música popular brasileira. Da Universidade da Bahia, recebeu o título de Doutora Honoris Causa, por sua contribuição à música brasileira.

Em 2018, Bethânia e Zeca Pagodinho se juntaram no disco “De Santo Amaro a Xerém” e, em 2019, a cantora lançou “Mangueira, A Menina dos Meus Olhos”. Em 2021, foi a vez do álbum de inéditas “Noturno”.

Em 2024, a cantora se uniu ao irmão, para a turnê de sucesso “Caetano e Bethânia”, que gerou um álbum ao vivo, vencedor do Grammy Award de Melhor Álbum de Música Global, em 2025.

Maria Bethânia, aos 79 anos, se tornou a primeira cantora de MPB a se tornar a vencedora do Grammy.

Antes disso, em 2010, a canção “Tua”, composta por Adriana Calcanhotto e que deu nome ao álbum de Maria Bethânia de 2009, ganhou o Grammy Latino de Melhor Canção em Língua Portuguesa.

No início do ano de 2026, Maria Bethânia iniciou uma turnê que celebra os seus 60 anos de carreira.

Viva, Bethânia e seus 80 anos de vida!

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colunista

Lívia Nolla

Lívia Nolla é cantora, apresentadora e pesquisadora musical

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