A fase mais ousada de Roberto Carlos: quando o Rei flertou com psicodelia, soul e existencialismo

Lívia Nolla
08:53 19.04.2026
Autor

Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
Arte e cultura

A fase mais ousada de Roberto Carlos: quando o Rei flertou com psicodelia, soul e existencialismo

Muito antes de se consolidar como o maior cantor romântico do país, o Rei viveu um de seus períodos mais inventivos e menos óbvios

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- 19.04.2026 - 08:53
A fase mais ousada de Roberto Carlos: quando o Rei flertou com psicodelia, soul e existencialismo
Roberto Carlos. Foto: Divulgação

Hoje é aniversário do Rei: Roberto Carlos. Ele completa 85 anos! Para celebrá-lo de um jeito diferente, vamos relembrar uma das fases menos óbvias – e mais interessantes – da sua carreira.

Pois bem! Existe um Roberto Carlos que todo mundo conhece: o dos especiais de fim de ano, das canções de amor que atravessam gerações e da figura consolidada como o grande rei da música brasileira, principalmente romântica.

Mas existe um outro Roberto, menos lembrado pelo grande público, embora cultuado por fãs e pesquisadores, que viveu – entre o fim dos anos 60 e começo dos 70 – sua fase artisticamente mais ousada.

Foi nesse período que o cantor e compositor expandiu sua sonoridade para além da Jovem Guarda e do romantismo tradicional, incorporando elementos de soul, rock psicodélico, arranjos orquestrais mais sofisticados e letras que abordavam espiritualidade, existencialismo e questões sociais. 

A fase coincide com uma transformação importante na música popular brasileira e também com o amadurecimento artístico de Roberto Carlos como intérprete e compositor.

Entre as canções que melhor representam esse momento está “Todos Estão Surdos” – parceria com Erasmo Carlos, do álbum“Roberto Carlos”, de 1971 – que usa a figura de Jesus Cristo para propor uma reflexão sobre alienação e perda de valores humanos, em uma abordagem incomum para o artista até então.

Outro exemplo emblemático é “O Homem” (de 1975), faixa de forte caráter espiritual e filosófico, em que Roberto Carlos discute a condição humana e a transcendência com uma dramaticidade rara em sua obra.

Já em “A Montanha” – outra parceria com Erasmo Carlos, do álbum “Roberto Carlos”, de 1972 – o cantor aposta em um discurso de superação e busca interior, em mais uma composição que reforça a guinada reflexiva daquele período.

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No campo sonoro, músicas como “As Curvas da Estrada de Santos” e “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos” – também parcerias com o Erasmo, de 1969 e 1971 respectivamente – mostram um artista mais interessado em atmosferas complexas, arranjos elaborados e interpretações menos contidas.

Nesta segunda, ele ainda é mais corajoso – trazendo, junto com Tremendão – uma crítica ao período sombrio em que estávamos vivendo enquanto país: a Ditadura Militar. Entenda a história de “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, música que a dupla Roberto e Erasmo fez para Caetano Veloso, nesta matéria especial.

Hoje, essa fase é frequentemente apontada por admiradores e críticos como uma das mais criativas de Roberto Carlos: um momento em que o artista equilibrava sucesso popular com inquietação estética, experimentação e profundidade temática.

No dia de hoje, lembramos que Roberto Carlos foi também um artista disposto a correr riscos. E talvez tenha sido justamente aí que tenha criado sua obra mais transgressora e sofisticada.

Viva o rei Roberto Carlos!

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Lívia Nolla é cantora, apresentadora e pesquisadora musical

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