O problema não foi a IA. Foi a KPMG acreditar nela

Mauricio Mansur
14:42 17.06.2026
Autor

Mauricio Mansur

Diretor de mkt e inovação, conselheiro e palestrante
Colunista

O problema não foi a IA. Foi a KPMG acreditar nela

A KPMG publicou um relatório sobre IA com 45 citações. O Financial Times foi conferir e 40 eram inventadas

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- 17.06.2026 - 14:42
O problema não foi a IA. Foi a KPMG acreditar nela
Foto: IA.

Não estamos falando de um estudante fazendo um trabalho correndo na noite anterior. Estamos falando de uma das maiores consultorias do mundo. Uma empresa que audita gigantes globais, aconselha conselhos de administração e construiu uma reputação ao longo de mais de um século.

As referências citavam organizações reais. UBS. NHS. Swiss Federal Railways. Transport for London.

Só que essas empresas negaram ter dito o que aparecia no documento.

O relatório saiu do ar.

E agora muita gente vai tirar a conclusão errada.

Vão dizer que o problema é a IA.

Não é.

O problema é que estamos entrando numa fase perigosa da transformação digital: a era da confiança automática.

A IA escreve bem demais.

Organiza argumentos.

Resume pesquisas.

Produz textos com aparência de autoridade.

E justamente por isso ela se tornou perigosa para quem desliga o pensamento crítico.

Porque a máquina não precisa mentir para causar um problema.

Basta parecer convincente.

O caso da KPMG é importante porque desmonta uma narrativa confortável: a de que apenas iniciantes cometem esse tipo de erro.

Não.

Quando uma organização desse porte publica um documento com dezenas de referências inexistentes, fica claro que o desafio não está mais na tecnologia.

Está nas pessoas.

Está nos processos.

Está na crença de que algo bem escrito também é algo verdadeiro.

E se isso aconteceu em uma organização com milhares de profissionais, advogados, especialistas e revisores, vale uma pergunta incômoda:

O que está acontecendo nas empresas menores?

Quantas apresentações comerciais estão circulando com números que ninguém verificou?

Quantos relatórios citam pesquisas que nunca existiram?

Quantos conteúdos corporativos repetem dados porque “a IA trouxe”?

Estamos criando um fenômeno curioso.

A IA resolveu um problema histórico: produzir conteúdo.

E criou outro que pouca gente aprendeu a administrar:

acreditar demais no conteúdo produzido.

Veja também:

Eu uso IA todos os dias.

Para escrever.

Pesquisar.

Estruturar projetos.

Analisar mercados.

Criar conteúdo.

Mas existe uma regra simples que se tornou obrigatória:

Dados, citações e cases não passam sem validação humana.

Nunca.

Não importa quão bonito ficou o texto.

Não importa quantas referências apareceram.

Não importa o quanto a resposta parece inteligente.

Porque credibilidade não é construída pela IA.

É construída pela capacidade de verificar aquilo que a IA produziu.

Na prática, a IA não eliminou o trabalho.

Ela apenas trocou o trabalho de escrever pelo trabalho de desconfiar.

E talvez essa seja uma das competências mais importantes da próxima década.

A grande mudança de 2026 não é tecnológica.

É cultural.

As empresas que vão extrair mais valor da inteligência artificial não serão aquelas que geram mais conteúdo.

Serão aquelas que criam melhores sistemas de validação.

Porque a IA está ficando cada vez melhor em parecer certa.

O diferencial competitivo passa a ser quem continua verificando.

A KPMG vai sobreviver a esse episódio.

A maioria das empresas não teria a mesma sorte.

E basta uma única citação que não existe para transformar produtividade em constrangimento público.

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