F.o.M.O ou simplesmente dor de cotovelo: carta de uma escritora que não vai à FLIP

Jeovanna Vieira
14:12 09.10.2024
Autor

Jeovanna Vieira

Escritora
Arte e cultura

F.o.M.O ou simplesmente dor de cotovelo: carta de uma escritora que não vai à FLIP

Fear of missing out edição especial para os flâneurs tupiniquins

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- 09.10.2024 - 14:12
F.o.M.O ou simplesmente dor de cotovelo: carta de uma escritora que não vai à FLIP
Foto: Divulgação.

Ao abrir o calendário, o Instagram, o guarda-roupas, a geladeira, a janela, me dei conta de que a FLIP começou e estou longe demais dela. Como se esse fosse o meu maior problema, como se eu fosse uma adolescente barrada no baile, como se o mundo não estivesse colapsando, como se eu não tivesse filhos e não precisasse trabalhar mais e mais para pagar escola, me deixei sentir uma profunda tristeza sem medi-la, pra saber se é ou não legítima.

E o que há? Não posso sentir inveja, raiva, descontentamento, azia, aflição, F.o.M.O, saudade do que ainda vai acontecer entre os dias 9 e 13 de outubro, só porque eu cresci? Desde que foi anunciada a edição em homenagem ao pai da crônica resolvi me atracar com João do Rio, autor com quem eu não tinha contato desde os estudos em jornalismo cultural na UERJ. Eu não posso mesmo ir? Logo agora, que me sinto pronta para dar as mãos ao João do Rio e flanar e rebolar, essas coisas que chegaram a ser acusações contra o homenageado?

Gosto de pensar que essa FLIP vai ser um grande cortejo, talvez revisitando aquele do velório do Paulo Barreto, vulgo João do Rio, que juntou mais de 100 mil pessoas caminhando até o cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, no episódio do desencarne do jornalista.

A 22ᵃ edição da FLIP vai ser uma versão comemorativa e metalinguística da vida e obra de João do Rio. A alma encantadora das ruas de Paraty se amalgamará às milhares de pessoas leitoras carregando seus embornais repletos de livros recém-adquiridos. Entre os flaneurs, seus leitores, seus biógrafos e seus discípulos. A passeata, regada a licor fino de cravo e canela com indicação de procedência em Paraty, também vai sair no jornal, e além disso, se propagará em registros em tempo real nas redes sociais.

Foto: Divulgação.

Em vez da ocasião de enterrá-lo em sepulcro, como foi o caso de 1921, quando seu corpo físico sofreu um ataque fulminante no coração aos 39 anos, o vai-e-vem será de mesa em mesa, atração em atração para manter vivo o legado desse grande brasileiro. Não posso mesmo fazer pirraça das brabas?

E se eu não tirar o pijama em protesto? Se eu só voltar a me arrumar na segunda-feira, dia 14, depois de passada a Festa? Ainda tem isso, a FLIP não é só um festival, uma feira, uma Bienal, um evento de lançamento.

Não é só circular por todas as casas de olho nas novidades, não é apenas conhecer autores prediletos, assistir palestras, dar palestras, declamar poesias dentro de um barco, pegar e dar autógrafos numa roda de samba. A FLIP é toda uma festa. Isso também me pega. 

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Para ilustrar: é um Festival de Forró, emendando e alternando bailes no Bar do Centro e no Buraco do Tatu — quem já foi a Itaúnas nos anos 2000 sabe bem do que estou falando; ou para os adeptos de música eletrônica, é um tipo de Universo Paralelo. Pra quem é do carnaval, a FLIP é ensaio, barracão, concentração, desfile, arquibancada, apuração na quadra e quarta-feira de cinzas.

Ainda falando de festa e voltando ao cortejo do João do Rio, é muito maluco pensar que ano passado, na edição que homenageou Pagu, a gente meio que fez um ensaio geral sem um estandarte que dava conta de dizer “Perdidos Dentro da Noite”. Caminhei pelas ruas, rebolando por ocasião do desnível das pedras, junto a uma horda de autores, jornalistas, editores, leitores, amigas e amigos ocasionais igualados ali pelo amor aos livros, pela graça dos encontros, pelo desejo de falar e fazer literatura; todas e todos subjugados ao mesmo tiozinho com um isopor que só tinha 10 derradeiras latinhas de cerveja, buscando uma festa depois da festa, dentro da festa, o que chamamos de after.

Não sei se alguém já escreveu sobre esse episódio pressagioso, agora, eu recorreria ao registro com finalidade de checagem, porque já estava com a minha cabeça lá pelas tabelas, mas diria que éramos umas 200, talvez 300, talvez o grupo fosse muito menor, e a minha confusão esteja dilatada pelo fato da passeata estar bastante animada: o tal encantamento daquelas ruas.

Mal me recuperei da dor de cotovelo por não ter ido à Bienal de São Paulo em setembro, e tô por aqui abraçada ao sentimento desolador de perder meu evento literário preferido. A verdade é que recebi alguns convites muito bonitos pra estar na FLIP esse ano. A beleza dos convites não aplaca a angústia de não poder aceitá-los, “morando no Oriente Médio, você sabe como é…”, esse ano, meu passaporte foi Virgínia mordida, lançado pela Companhia das Letras, em abril de 2024, mas depois de vasculhar os sites de vendas de passagens buscando por um milagre, recusei os convites um por um.

Foto: Divulgação.

Em cada uma das 22 edições da FLIP o público vem se transmutando, condicionado por múltiplos fatores: a mudança do mês de realização da Festa, a escalação dos autores das mesas oficiais e da programação paralela, as atrações da Flipei ou fatores mais ordinários e implacáveis, como é o meu caso, distância, a rotina de trabalho ou limite do cartão de crédito. É excitante ver a FLIP se metamorfoseando junto com o seu público, que só cresce, sendo essa pista de dança de ritmo incessante, com personalidades atraentes, com discussões atualíssimas e calorosíssimas entre vozes com cada vez mais sotaques.

É impossível não estar ligada ao que vai acontecer na Vila, eu não vou ativar o modo “o que os olhos não veem o coração não sente”, pelo contrário. Mesmo recalcada e bebendo meus bons drinks com a Paratiana que uma amiga me trouxe de consolo, vou acompanhar nas redes sociais, no canal oficial da FLIP no youtube, desejando com todo coração, que ano que vem eu viva a FLIP novamente no modo presencial e roteando.

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Jeovanna Vieira

Jeovanna Vieira nasceu em 1985, em Vila Velha, no Espírito Santo. Formada em jornalismo, é autora do livro de poemas Deserto sozinha (Pedregulho, 2023). Virgínia mordida é seu romance de estreia, lançado pela Companhia das Letras. É mãe de Joaquim e Bento e atualmente mora nos Emirados Árabes.

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