Os 25 maiores sucessos na voz de Elza Soares

Lívia Nolla
13:15 23.06.2026
Autor

Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
Arte e cultura

Os 25 maiores sucessos na voz de Elza Soares

Considerada “A Voz do Milênio", a cantora brasileira eternizou diversos sucessos com sua forma inconfundível de cantar e interpretar magistralmente

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- 23.06.2026 - 13:15
Os 25 maiores sucessos na voz de Elza Soares
A cantora Elza Soares | Foto: Pedro Dimitrow/Divulgação

Cantora e compositora, Elza Soares teve uma trajetória inigualável na música popular brasileira e também uma história de vida marcante. Sua voz única e potente – rouca e vibrante – é sua marca registrada, além da interpretação poderosa que entregou em cada um dos sucessos que ajudou a eternizar. As letras com mensagens certeiras, presentes em tudo o que gravou, trouxeram à tona questões sociais, políticas e raciais de extrema importância, principalmente sobre racismo, desigualdade e feminismo.

Hoje, se não tivesse nos deixado em janeiro de 2022, aos 91 anos Elza completaria 96 anos no dia de hoje. Por isso, nós preparamos uma matéria especial com os 25 maiores sucessos na voz dessa eterna gigante da música popular brasileira. 

A aniversariante do dia gravou grande parte dos principais compositores brasileiros, de gêneros e épocas diferentes, colocando sua impressão digital em cada interpretação.

Mais sobre Elza Soares, a “Voz do Milênio”

Elza Soares nasceu Elza Gomes da Conceição em 23 de junho de 1930, na comunidade Moça Bonita – hoje Vila Vintém – no bairro Padre Miguel, no Rio de Janeiro. Filha de um operário e uma lavadeira, tinha nove irmãos e uma vida muito humilde. Logo mudaram-se para o bairro da Água Santa, onde foi criada.

Ela começou a cantar ainda criança, com o pai, que gostava de tocar violão nas horas vagas. Também ajudava a mãe nos serviços, levando latas d’água na cabeça (nesta nossa lista de sucessos importantes de Elza Soares, aparecem duas músicas com o nome “Lata d’Água”). 

Entre seus 12 e 13 anos, teve a infância interrompida ao ser obrigada pelo pai a abandonar os estudos para casar-se com um conhecido da família que havia tentado abusar sexualmente dela. Nesse casamento forçado, Elza era constantemente submetida à violência doméstica e sexual. 

Entre os 13 e 14 anos, deu à luz ao seu primeiro filho. Aos 15, passou por outro grande trauma: seu segundo filho morreu de fome. O marido estava com tuberculose e Elza Soares passou a trabalhar como encaixotadora e conferente em uma fábrica de sabão e também em um manicômio. Quando o marido se recuperou, impediu Elza de trabalhar.

Aos 21 anos, ela ficou viúva, com quatro filhos para criar, além de já ter perdido mais um filho recém nascido para a desnutrição. Além disso, sua filha recém-nascida havia sido sequestrada um ano antes. O casal que tomava conta da menina enquanto Elza trabalhava sumiu com a criança, que a cantora procurou por 30 anos e só reencontrou-a já adulta. A filha não sabia de nada.

Nesta época, Elza Soares trabalhava como faxineira para sustentar os filhos, mas o seu amor e aptidão pela música a acompanhavam desde que era criança. Confiante em seu talento para cantar, mesmo sem o apoio da família, inscreveu-se – em meados de 1953 –  no concurso musical do programa da Rádio Tupi, “Calouros em Desfile”, apresentado pelo compositor Ary Barroso

Para a apresentação, Elza usou uma roupa da mãe – que tinha quase vinte quilos a mais que ela – ajustada com vários alfinetes de fralda. Quando ela subiu ao palco, foi recebida pelo auditório e pelo apresentador com gargalhadas. Ary Barroso tentou ridicularizar Elza perguntando-lhe: “De que planeta você veio, minha filha?”, no que ela respondeu com firmeza: “Do mesmo planeta que você, Seu Ary. Do Planeta Fome.”

Acontece que, assim que Elza Soares começou a cantar o samba-canção “Lama” (de Paulo Marques e Alyce Chaves), deixou todos boquiabertos. Tirou nota máxima e Ary Barroso anunciou que ali nascia uma estrela.

Planeta Fome, virou o título de seu 34º álbum, em 2019. As roupas alfinetadas que Elza Soares usou em 1953, foram inspiração para o figurino da turnê do álbum. E é aqui, com essa música com a qual foi apresentada ao Brasil inteiro, que começamos a lista de 30 grandes sucessos na voz de Elza Soares.

1 – Lama 

Depois disso,Elza começa a cantar na Orquestra Garam de Bailes, mas, muitas vezes, não a permitiam subir no palco, por ela ser uma mulher negra. Era só o início de um tanto de preconceitos que continuaram a acompanhar Elza Soares durante toda a sua vida e carreira. Mas ela não se deixou abalar e continuou lutando por sua arte e sua vida.  

Em 1958, depois de integrar o espetáculo “É Tudo Juju-frufru”, foi convidada a participar de uma turnê por Buenos Aires com diversos músicos. Acomodada em um hotel, Elza Soares dormiu pela primeira vez na vida em um colchão (em casa, deitava-se sobre esteiras feitas com sacos de farinha de trigo).

O que era para durar alguns dias, demorou quase um ano: a cantora levou um calote e, para não voltar ao Brasil sem nenhum dinheiro e derrotada, permaneceu na Argentina fazendo pequenos shows. 

Quando voltou ao Rio de Janeiro, passou a apresentar-se em casas noturnas que eram frequentadas por importantes músicos da época, como Roberto Menescal e João Gilberto. 

Em uma dessas apresentações, a cantora Sylvinha Telles apresentou Elza Soares ao seu marido, Aloysio de Oliveira, produtor da gravadora Odeon, que a convidou para um teste e em seguida a contratou para gravar o seu primeiro álbum: “Se Acaso Você Chegasse, de 1960, que tinha a faixa-título composta por Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, um hit na voz de Elza.

2 – Se Acaso Você Chegasse

O disco teve bastante visibilidade nas rádios e logo Elza Soares tornou-se um imenso sucesso, gravando – no mesmo ano – o seu segundo disco,  “A Bossa Negra”, que tinha entre as canções, o sucesso “Beija-me” (de Roberto Martins e Mário Rossi).

3 – Beija-me

No ano seguinte, a cantora lançou o álbum “O Samba é Elza” e – em 1963 – o LP “Sambossa”, que trouxe o sucesso “Rosa Morena”, de Dorival Caymmi, em sua voz.

4 – Rosa Morena 

Também em 1963, Elza gravou em um compacto outro sucesso inesquecível em sua interpretação sem igual: a canção “Volta por Cima”, de Paulo Vanzolini, que tornou-se um ícone em sua voz e foi regravada diversas vezes pela cantora durante sua carreira: “Reconhece a queda, mas não desanima: levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

5 – Volta por Cima

Em 1964, Elza Soares gravou o disco “Na Roda do Samba” e – no ano seguinte – foi a vez do álbum “O Show de Elza”, em que interpreta a icônica canção “Dindi” (de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), além do sucesso “Vingança” (de Lupicínio Rodrigues).

6 – Dindi

7 – Vingança

Em 1967, o disco “O Máximo em Samba” trouxe clássicos de Noel Rosa, Ataulfo Alves e Ary Barroso, entre outros, e – entre 1967 e 1969, Elza Soares lançou três LPs com clássicos do samba, ao lado do cantor Miltinho. Em 68, ela também lançou um disco em parceria com Wilson das Neves, com sucessos do samba e da bossa nova.

Em 1966, a cantora ficou em segundo lugar no II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, com a canção “De Amor ou Paz” (de Adauto Santos). Na edição de 1968, Elza participou novamente e ganhou o prêmio de Melhor Intérprete Feminina.

O Scat de Elza Soares

Elza Soares começou cantando sambas, mas sempre teve – mesmo sem saber o que era na época – uma voz bastante voltada para o jazz. Neste ano de 68, Elza foi aos Estados Unidos e ao México, onde realizou vários shows bem-sucedidos. 

A cantora utilizava-se brilhantemente da técnica vocal Scat, que consiste em cantar vocalizando, criando o equivalente a um solo instrumental com a voz. É possível fazer isso, tanto sem usar palavras, quanto usando palavras sem sentido, unindo sílabas soltas.

A técnica foi criada pelo cantor e trompetista norte-americano de jazz, Louis Armstrong, e era muito usada por cantores e cantoras de jazz, mas Elza fazia isso desde que começou, sem nunca ter escutado a música norte-americana antes. Quando ela escutou Louis Armstrong pela primeira vez pensou: “Esse cara me imita!”.

Falando em Louis Armstrong, no ano de 1962, Elza Soares foi ao Chile, para cantar representando o Brasil na Copa do Mundo, e conheceu o norte-americano pessoalmente, que ficou impressionado com sua voz e a convidou para ir para os EUA cantar.

Elza Soares e Louis Armstrong quando se conheceram nos anos 60 | Imagem: Reprodução

Elza não aceitou o convite porque, nesta mesma ocasião, a cantora conheceu o jogadorda seleção de futebol brasileira Garrincha, por quem se apaixonou e com quem viveu uma forte e conturbada história de amor e também de sofrimentos.

Elza e Garrincha

Garrincha era um grande ídolo do futebol e era casado na época. Mesmo depois dele se separar da mulher para ficar com Elza, a cantora foi massacrada pelo público, que a considerava responsável por destruir um casamento sólido, com filhos. Elza se casou com Garrincha alguns anos depois, mas foi, por muito tempo, perseguida pela mídia, pelo público e sofreu muitos boicotes em sua carreira por conta disso.

A cantora chegou a ser ameaçada de morte, sofria ataques na rua e era hostilizada também pelos amigos do atleta. Mesmo assim, os dois ficaram juntos por 17 anos, Elza Soares criou as filhas do jogador, depois que a primeira mulher dele faleceu e os dois tiveram um filho juntos: o Garrinchinha

Por conta das perseguições, não só do público e mídia, mas – principalmente – da ditadura militar, Elza se exilou com sua família por um tempo em Roma, na Itália. Lá, gravou em italiano e chegou a substituir Ella Fitzgerald em uma turnê pela Europa. Em 1971, um convite para um show no Brasil serviu de estímulo para a família voltar.

Quando voltaram, Garrincha passou a sofrer com o alcoolismo e agredia Elza constantemente, tinha crises de ciúme e casos fora do casamento. Elza Soares sofreu por muito tempo calada. 

O casal Elza Soares e Garrincha | Imagem: Reprodução

Outra tragédia na vida de Elza: sua mãe morreu em um acidente de carro em que Garrincha estava dirigindo e isso também colaborou para que o jogador entrasse em depressão e bebesse cada vez mais.

Durante todos estes anos, a cantora tentou ajudar o marido a parar de beber, mas os dois acabaram se separando em 1982. Garrincha faleceu no ano seguinte, por conta de uma cirrose hepática e Elza nunca deixou de declarar o seu amor pelo companheiro de uma vida.

Em 1986, Garrinchinha, filho de Elza e Garrincha, com apenas 9 anos de idade,  faleceu em um acidente de carro. Mais um baque na vida de Elza Soares, dessa vez o maior de todos. A cantora teve depressão, tentou se matar, pensou em desistir da carreira e foi morar fora do país por alguns anos, fazendo também terapia para tentar superar a sua perda.

Elza dizia que tirava tudo de letra, mas que a perda de um filho é uma ferida aberta que não cicatriza. Estará sempre presente.

Em 1971, a artista foi coroada Embaixatriz do Samba, pelo Museu da Imagem e do Som.

Em 1976, foi responsável por revelar Jorge Aragão ao Brasil, com a música “Malandro, de Aragão e Jotabê, que ela gravou no disco “Lição de Vida”.

8 – Malandro

Em meados dos anos 80, por conta dos acontecimentos em sua vida pessoal, Elza passou por momentos de baixa na carreira, pois não queria cantar mais apenas samba, queria cantar o que sentisse vontade. 

Se revitalizou em 1984, quando Caetano Veloso a convidou para participar do seu disco “Velô“, gravando com ele a música “Língua”. No ano seguinte, Caetano e Lobão produziram um LP de Elza, que contava, entre outras, com faixas da autoria da cantora, como “Somos Todos Iguais”, música que dá nome ao disco, e “Exagero”.

9 – Língua

Em 1986, Elza gravou com Lobão a canção “A Voz da Razão” (Lobão e Bernardo Vilhena)e, também nos anos 80, gravou com Cazuza a música“Milagres” (Cazuza, Frejat e Denise Barros), flertando mais um pouco com o rock’n roll.

Em 1988, lançou o LP “Voltei”, regressando de vez ao Brasil em 1994.

Em 1997, Elza lançou “Trajetória”, seu primeiro disco de estúdio desde 1988. O álbum traz um dueto com Zeca Pagodinho, na canção “Sinhá Mandaçaia” (de Almir Guineto e Luverci Ernesto); e também uma versão de “O Meu Guri” (de Chico Buarque), grande sucesso em sua voz. Com esse trabalho, Elza Soares ganhou o Prêmio Sharp de Melhor Cantora de Samba.

10 – O Meu Guri

Ainda em 1997, José Louzeiro lançou sua biografia: “Elza Soares: cantando para não enlouquecer“.

Em 1999, Elza lançou o disco “Carioca da Gema – Elza ao Vivo”, que conta com uma abertura maravilhosa autoral da cantora, chamada “Lata D’Água”. A canção ganhou uma nova versão em 2003, no álbum “Vivo Feliz”.

Veja também:

“Lata d’água na cabeça

É o estandarte que representa minha arte

Jogo de cena é a fome

Negra sempre foi o meu nome

Mas digo isso porque

Tenho o samba pra me defender”

11 – Lata d’Água 

Em 1999, Elza sofreu uma queda em um show no Rio de Janeiro e passou a se locomover com muita dificuldade. Em 2014 operou a coluna vertebral por conta desse acidente, em uma cirurgia que poderia ter afetado suas cordas vocais, mas que – pelo contrário – trouxe de volta uma Elza Soares de voz ainda mais potente no palco, mesmo que com mobilidade reduzida do corpo.

Em 1999, Elza foi eleita, pela Rádio BBC de Londres, como “A cantora brasileira do milênio”. Ela também ocupa a 16ª posição na lista das 100 maiores vozes brasileiras, elaborada pela Revista Rolling Stone Brasil, em 2012.

A libertação artística de Elza Soares veio em 2002, quando a cantora lançou “Do Cóccix até o Pescoço”, disco que conta com músicas que trazem à tona pautas sociais importantíssimas como o clássico “A Carne” (de Seu Jorge, Marcelo Yuka e Ulisses Cappelletti) e Haiti (de Caetano Veloso e Gilberto Gil).

12 – A Carne

Outros sucessos presentes no disco – foi indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira – são as dançantes: “Hoje é Dia de Festa” (deJorge Ben Jor); “Fadas” (de Luiz Melodia); “Dura na Queda” (de Chico Buarque) e “Eu Vou Ficar Aqui” (Arnaldo Antunes).

13 – Hoje é Dia de Festa

14 – Fadas

15 – Dura na Queda

16 – Eu Vou Ficar Aqui

Esse álbum também traz uma composição de Elza em parceria com Letícia Sabatella, chamada “A Cigarra”, e do sucesso “Façamos (Vamos Amar)”, versão de Carlos Rennó da canção de Cole Porter, Let ‘s Do It, que ela interpreta em dueto com Chico Buarque.

17 – Façamos (Vamos Amar)

Em 2003, Elza Soares gravou com muito sucesso a canção “Espumas ao Vento” (de Accioly Neto), para a trilha do filme “Lisbela e o Prisioneiro”, de Guel Arraes.

Nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro, a cantora interpretou o Hino Nacional Brasileiro, no início da cerimônia de abertura do evento, no Maracanã.

Neste mesmo ano, a cantora lançou o álbum “Beba-me – Elza Soares Ao Vivo”, em que traz mais uma canção com o nome “Lata d’Água”, algo tão significativo na sua história. Essa é uma composição de Luiz Antônio e Jota Júnior, de 1952, que conta a história de Maria, uma mulher que sobe o morro com latas d’água na cabeça, carregando o filho pela mão e batalhando pelo pão de cada dia, sonhando com um futuro melhor. 

Elza, que como tantas outras mulheres deste Brasil, viveu essa mesma história, ainda cercada por violências e abusos, fez uma alteração na letra, trazendo a história para si:

18 – Lata d’Água (outra!)

A partir de 2008, a cineasta e jornalista Elizabete Martins Campos começou a pesquisar a vida e a obra da cantora e roteirizou, dirigiu e produziu o premiado longa-metragem “My Name is Now, Elza Soares”.

Em 2010, Elza gravou a faixa “Brasil”, no disco de tributo a Cazuza: Treze parcerias com Cazuza.

Também em 2010, pela primeira vez a artista comandou e puxou um trio elétrico no circuito Barra-Ondina, em Salvador. O trio levou o nome de “A Elza Pede Passagem”, arrastando uma grande multidão. Elza também já atuou como puxadora de samba-enredo, passando pelas escolas Salgueiro e Mocidade

Em 2014, Elza estreou o show “A Voz e a Máquina”, tendo como base a música eletrônica e acompanhada no palco apenas pelos DJs Ricardo Muralha, Bruno Queiroz e Guilherme Marques.

Em 2015, no auge de seus 85 anos, veio outro sucesso arrebatador da carreira de Elza Soares: o primeiro álbum em sua carreira só com músicas inéditas, compostas especialmente para ela: “A Mulher do Fim do Mundo”. A cantora, mais uma vez, renasceu como uma fênix.

O disco traz uma mistura de gêneros musicais como samba, rock, rap e música eletrônica, em onze canções compostas por um grupo de artistas independentes da cena cultural paulistana contemporânea. Entre elas, os sucessos: Maria da Vila Matilde” (de Douglas Germano), e “Mulher do Fim do Mundo” (de Rômulo Fróes e Alice Coutinho).

19 – Maria da Vila Matilde

20 – Mulher do Fim do Mundo

Trazendo temas atuais como a violência doméstica, o sofrimento urbano, a morte, a transexualidade e a negritude, as canções têm um peso certeiro nas palavras e na batida, ao mostrarem as realidades conflitantes existentes no Brasil.

Foi neste disco, mais especificamente na faixa “Maria da Vila Matilde”, que Elza finalmente conseguiu exorcizar a dor de ter sido vítima de violência doméstica. A canção rapidamente tornou-se um hino no movimento feminista e, sempre que a interpretava em shows e programas de TV, Elza convocava as vítimas a denunciarem seus agressores. 

Aclamado pela crítica nacional e internacional, o álbum ganhou o Grammy Latino do ano seguinte, na categoria Melhor Álbum de Música Popular Brasileira.

O Pitchfork, um dos sites de música mais importantes do mundo, o elegeu como melhor novo álbum e no artigo, diz que Elza “desenvolveu uma das vozes mais distintas da MPB”.

Em 2018, Elza Soares lançou outra obra-prima: o disco “Deus É Mulher”, na mesma pegada do disco anterior, misturando música eletrônica com rap e samba e trazendo letras fortes, com destaque para as faixas: “O Que Se Cala” (de Douglas Germano); “Banho” (de Tulipa Ruiz); e “Dentro de Cada Um” (de Luciana Mello e Pedro Loureiro).

21 – O Que Se Cala

22 – Banho

23 – Dentro de Cada Um

Também em 2018 estreia o espetáculo “Elza Soares – O Musical”, que conta a história de Elza por meio de sete diferentes atrizes e cantoras que a interpretam ao longo de toda a sua vida e carreira, incluindo Larissa Luz.

Em 2019, Elza lançou o disco “Planeta Fome” e – que traz o sucesso “Libertação”, composição de Russo Passapusso, com a participação do BaianaSystem e de Virgínia Rodrigues.

24 – Libertação

No mesmo ano, a cantora ainda dividiu os vocais com Liniker no sucesso emocionante “Foi Você, Fui Eu”, composição de Guilherme e Gustavo Garbato, que entrou para a trilha sonora da série “Carcereiros“, da Globoplay.

25 – Foi Você, Fui Eu

Em 2020, Elza foi enredo da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, com Elza Deusa Soares, conquistando a terceira colocação. E, em 2021, a cantora ainda lançou um álbum em parceria com o violonista, cantor, compositor, arranjador e produtor musical João De Aquino.

Elza Soares faleceu no dia 20 de janeiro de 2022, aos 91 anos, de causas naturais, deixando o Brasil órfão de seu talento. Neste mesmo ano, foi lançado o disco póstumo “Elza ao Vivo no Municipal”, que tinha sido gravado nos dias 17 e 18 de janeiro, no Theatro Municipal de São Paulo, com os maiores sucessos da sua carreira.

No ano seguinte, outro disco póstumo: “No Tempo da Intolerância”, que havia sido adiado por conta da Pandemia de Covid. Em maio de 2021, Elza disse em suas redes sociais que o trabalho seria “um disco feminino, uma celebração à mulherada, a nós mulheres”.

O empresário Pedro Loureiro disse que a base do que se tornaria esse disco começou ainda na década de 1980, com um caderno de anotações de Elza Soares, que continha letras de músicas inéditas. A cantora tinha a ideia de produzir um álbum com mais influências negras, mas tal caderno estava desaparecido. 

O objeto só foi encontrado no apartamento da cantora em 2018. Com base nas ideias da artista, foram recrutados os compositores Jefferson Junior e Umberto Tavares para o desenvolvimento do projeto. Desta forma, o álbum foi caracterizado como o trabalho mais autoral de toda a carreira de Elza, que escreveu e co-escreveu mais da metade do repertório.

Mantendo a tendência de trabalhos anteriores, a cantora também gravou canções de vários compositores, alguns solicitados diretamente por ela. Mas, diferentemente de discos anteriores, somente mulheres foram recrutadas. Entre elas, Rita Lee, Pitty e Josyara.

Em uma de suas últimas entrevistas, Elza Soares disse que “se não fosse a música, não estaria viva até hoje. Que a música é uma anestesia natural. 

Sua vida é sinônimo de resistência, resiliência e sobrevivência. Passou por vários traumas e tragédias e fez disso tudo combustível para a sua arte e para a sua música, levando sua mensagem para outras mulheres e pessoas pretas. A cada queda, se levantava maior.

Uma potência em forma de mulher. Uma potência em forma de mulher artista. Uma potência em forma de mulher preta artista brasileira. Essa é Elza Soares. E sempre será.

A mulher do fim do mundo. Que cantou até o fim!

Escute o Acervo MPB Elza Soares, áudio-biografia exclusiva Novabrasil, que narra detalhes sobre a vida e a obra dessa gigante da nossa nossa música e também confira uma matéria especial com 10 canções que ajudam a contar a história de Elza Soares.

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Lívia Nolla é cantora, apresentadora e pesquisadora musical

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