Morte súbita em corridas: o que pode explicar esses casos e como prevenir

Bruna Henares
18:43 27.07.2026
Autor

Bruna Henares

Cardiologista
Saúde

Morte súbita em corridas: o que pode explicar esses casos e como prevenir

Casos recentes durante provas de corrida chamam a atenção para um evento raro, mas que reforça a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do atendimento imediato

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- 27.07.2026 - 18:43
Morte súbita em corridas: o que pode explicar esses casos e como prevenir
Foto: Freepik.

A morte súbita durante uma prova de corrida sempre provoca espanto. Afinal, como alguém jovem, aparentemente saudável e acostumado a praticar atividade física pode sofrer uma parada cardíaca justamente durante um esporte que faz tão bem ao coração?

A resposta é que, infelizmente, praticar exercícios regularmente não significa estar livre de doenças cardiovasculares. Muitas delas evoluem de forma silenciosa durante anos, sem provocar qualquer sintoma, e podem se manifestar justamente em situações de maior esforço físico.

Isso não torna a corrida um esporte perigoso. Muito pelo contrário. A prática regular de atividade física continua sendo uma das medidas mais eficazes para prevenir doenças cardiovasculares, controlar a pressão arterial, reduzir o colesterol, melhorar o diabetes e aumentar a expectativa de vida. Casos como esses servem para reforçar que prevenção também faz parte do esporte.

Doenças silenciosas podem estar por trás desses casos

Após os 35 anos, a principal causa de morte súbita relacionada ao exercício é a doença arterial coronariana, caracterizada pelo acúmulo de placas de gordura nas artérias do coração. Já entre atletas mais jovens, predominam doenças hereditárias, como cardiomiopatias e alterações elétricas do coração, muitas vezes desconhecidas até a ocorrência de um evento grave.

Por isso, antes de participar de provas de longa distância ou aumentar significativamente a intensidade dos treinos, é recomendável realizar uma avaliação cardiológica individualizada. A consulta permite identificar fatores de risco, investigar antecedentes familiares e definir quando há necessidade de exames complementares, como eletrocardiograma, teste ergométrico e ecocardiograma.

O maior estudo já realizado sobre o tema

Publicado em 2025 no JAMA (Journal of the American Medical Association), o estudo “Cardiac Arrest During Long-Distance Running Races”, de Jonathan H. Kim, Austin J. Rim e colaboradores, analisou mais de 29 milhões de corredores que participaram de maratonas e meias-maratonas nos Estados Unidos entre 2000 e 2022. Trata-se da maior pesquisa já realizada sobre parada cardíaca em provas de corrida de longa distância e trouxe informações importantes sobre a incidência, as principais causas e os fatores associados à sobrevida desses atletas.

Os pesquisadores observaram que a parada cardíaca durante essas provas é um evento raro, com incidência aproximada de 0,6 caso para cada 100 mil corredores. O risco foi maior entre homens, durante maratonas completas e, principalmente, nos quilômetros finais da prova. Nos participantes com mais de 35 anos, a doença arterial coronariana foi a causa mais frequentemente identificada.

A boa notícia: mais pessoas estão sobrevivendo

Embora a incidência de parada cardíaca tenha permanecido relativamente estável ao longo dos anos, a mortalidade caiu de 43% para 24% entre 2000 e 2022.

Essa redução foi atribuída principalmente à presença de desfibriladores automáticos externos (DEA) ao longo do percurso, ao reconhecimento precoce da parada cardíaca, ao início imediato das manobras de reanimação cardiopulmonar (RCP) e ao treinamento das equipes médicas e dos voluntários presentes nas provas.

Esses resultados mostram que uma parada cardíaca não significa, necessariamente, morte. Quando o atendimento acontece rapidamente, as chances de sobrevivência aumentam de forma significativa.

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Cada minuto faz diferença

Durante uma parada cardíaca, o tempo é determinante. A cada minuto sem desfibrilação, a chance de sobrevivência diminui cerca de 10%. Após aproximadamente dez minutos sem intervenção, as chances de recuperação tornam-se extremamente baixas.

Por isso, reconhecer rapidamente a situação, iniciar compressões torácicas de qualidade e utilizar um desfibrilador o mais cedo possível pode fazer toda a diferença entre a vida e a morte.

O que diz a legislação brasileira

Após a morte do jogador Serginho, do São Caetano, durante uma partida de futebol em 2004, diversas leis passaram a exigir a presença de desfibriladores em locais com grande circulação de pessoas.

No Estado de São Paulo, a Lei Estadual nº 12.736/2007 prevê a presença desses equipamentos em academias, estádios, ginásios esportivos, aeroportos, shopping centers e eventos com grande concentração de público. O desafio, entretanto, ainda está na fiscalização da legislação e no treinamento adequado das pessoas para reconhecer uma parada cardíaca e utilizar corretamente o equipamento.

A mensagem mais importante

A corrida continua sendo uma atividade extremamente segura e traz inúmeros benefícios para a saúde cardiovascular. Casos de morte súbita são raros, mas reforçam que prevenção também faz parte do esporte.

Fazer uma avaliação cardiológica quando indicada, participar de eventos com estrutura adequada de atendimento e ampliar o conhecimento da população sobre reanimação cardiopulmonar e uso do desfibrilador são medidas que salvam vidas. Porque, diante de uma parada cardíaca, cada minuto conta

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Bruna Henares

Cardiologista pelo Instituto do Coração- InCor ( HC- FMUSP), Cardiologista do Centro de Acompanhamento da Saúde e Check up do Hospital Sírio Libanês, Médica Pesquisadora na Unidade de Lípides do Instituto do Coração- InCor ( HC- FMUSP), MBA Executivo em Gestão de Saúde da FGV ( Fundação Getúlio Vargas) e Doutoranda pela USP.

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