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48 anos sem Lupicínio Rodrigues
48 anos sem Lupicínio Rodrigues
Há exatos 48 anos, em 27 de agosto de 2022, o Brasil se despedia de Lupicínio Rodrigues, um dos maiores gênios de todos os tempos da música popular brasileira. O cantor e compositor gaúcho nos deixou aos 59 anos, vítima de uma insuficiência cardíaca. Mas o legado que Lupicínio deixou para a música é imensurável: … Continued
Há exatos 48 anos, em 27 de agosto de 2022, o Brasil se despedia de Lupicínio Rodrigues, um dos maiores gênios de todos os tempos da música popular brasileira.
O cantor e compositor gaúcho nos deixou aos 59 anos, vítima de uma insuficiência cardíaca. Mas o legado que Lupicínio deixou para a música é imensurável: uma obra atemporal, eternizada nas vozes de grandes nomes da MPB e gravada por diversos artistas até os dias atuais.

Trajetória de Lupicínio Rodrigues
Lupicínio Rodrigues foi um dos maiores representantes do gênero samba-canção e da música que traz temas sobre a dor de amor, a decepção amorosa e o abandono: a famosa dor de cotovelo (inclusive, muitos dizem que o termo foi inventado por ele, pois deu nome ao seu segundo disco, lançado em 1973). O termo faz alusão à figura de uma pessoa sentada no bar, apoiando os cotovelos em cima do balcão, enquanto toma uma bebida e lamenta a má sorte no amor. Assim, de tanto ficar com os cotovelos nessa posição, eles começam a doer, segundo o imaginário popular.
Apaixonado por música desde criança, Lupi – como era chamado desde a infância – ainda com 12 anos, chegou a ser aprendiz nas oficinas da Companhia Carres Porto-Alegrense, empresa de bondes, e na oficina Micheletto, onde carregou peso e fez parafusos e porcas, para ajudar nas despesas da casa.
Mas o que Lupicínio gostava mesmo de fazer era compor samba. Com essa idade já fazia músicas para os blocos carnavalescos de seu bairro. Conforme crescia, mostrava interesse nos encontros no bar de Seu Belarmino, na Praça Garibaldi, onde ficava bebendo e cantando até de madrugada.
Para afastá-lo da boemia, em 1931, seu pai levou o filho, como voluntário, ao Exército. A rígida disciplina entrou em choque com o espírito boêmio do jovem Lupicínio. Mesmo servindo ao Sétimo Batalhão de Caçadores de Porto Alegre, ele não desistiu da música, pois assumiu o posto de cantor do conjunto musical formado pelos soldados e continuava compondo para os blocos carnavalescos e vencendo concursos.
Com 14 anos, chegou a vencer um concurso com uma marchinha chamada Carnaval, feita para o Cordão Carnavalesco Prediletos. Dois anos depois, foi promovido a cabo e transferido para a cidade de Santa Maria. Quando deu baixa no exército, em 1935, seu pai conseguiu-lhe um emprego de bedel na Faculdade de Direito da UFRGS, onde Lupicínio trabalhou por mais de 10 anos.
Mas sua carreira musical já começava a acontecer paralelamente. Em 1935, entrou no concurso de música popular instituído pela Prefeitura para animar as comemorações do centenário da Revolução Farroupilha. A música que Lupicínio escreveu, feita em parceria com o cantor Alcides Gonçalves, e intitulada Triste História, foi a vencedora de um bom prêmio em dinheiro.
Em 1936, teve suas primeiras músicas gravadas por Alcides Gerardi: além do samba-canção Triste História, o samba Pergunte a Meus Tamancos, também parceria com Alcides Gonçalves.
Dois anos depois, em 1938, Lupicínio Rodrigues obteve seu primeiro grande sucesso nacional, com o samba Se Acaso você Chegasse, parceria com Felisberto Martins, gravado por Cyro Monteiro.
Apesar da qualidade de suas músicas e composições, sempre muito premiadas, não era fácil conseguir gravá-las, pois Lupicínio Rodrigues nunca deixou de viver em Porto Alegre, e, portanto, estava longe das gravadoras e dos grandes cantores.
Um fato que fez seus sambas serem divulgados nos grandes polos culturais como São Paulo e Rio de Janeiro, mesmo nunca tendo deixado de viver em Porto Alegre foi o de sua cidade receber muitos navios. Desta forma, os marinheiros que frequentavam a boemia do centro da capital gaúcha – onde os bares tocavam muitas das músicas de Lupicínio – quando embarcavam, divulgavam aqueles sucessos ouvidos em Porto Alegre para outros centros.
Foi assim que Se Acaso Você Chegasse chegou até a gravadora RCA Victor e foi gravada por Cyro Monteiro. O imenso sucesso da canção fez Lupicínio ganhar projeção nacional e viajar para o Rio de Janeiro, em 1939, onde frequentou os bares da Lapa e o Café Nice, em companhia de Ataulfo Alves, Wilson Batista e outros grandes nomes do samba.
Se Acaso Você Chegasse foi gravada – mais tarde – por muitos grandes nomes da nossa música como Elza Soares e Jair Rodrigues.
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Em 1947, o Quarteto Quitandinha gravou outro que seria um dos maiores sucessos da carreira de Lupi e um dos clássicos mais importantes da nossa história: Felicidade: “Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda mora…”.
No mesmo ano, Lupicínio escreveu Nervos de Aço, que fez imenso sucesso quando lançada na voz de Francisco Alves. Anos depois, a música foi gravada também por nomes como Elza Soares, Jamelão (o maior intérprete de Lupicínio de todos os tempos) e por Paulinho da Viola, tendo feito muito sucesso em sua voz.
Em 1948, Lupi escreveu o samba-canção Esses Moços (Pobres Moços), onde alerta os jovens sobre as inconveniências do amor. Gravada por Francisco Alves, foi depois, em 1970, gravada pelo próprio Lupicínio, além de ter versões nas vozes de nomes como Gilberto Gil, Nelson Gonçalves, Emílio Santiago e Jamelão.
Em 1950, Francisco Alves grava outro sucesso de Lupicínio em parceria com Alcides Gonçalves: Cadeira Vazia, que depois foi gravada com êxito por Elza Soares, Elis Regina, Jair Rodrigues, entre outros.
Em 1951, foi a vez de outro grande sucesso de Lupicínio conquistar o Brasil: o samba-canção Vingança, gravado pelo Trio de Ouro e por Linda Batista, no auge de sua carreira, bateu todos os recordes de venda. Vingança depois ganhou versões nas vozes do próprio Lupicínio, de Ângela Maria, Elza Soares, Noite Ilustrada, Nora Ney, Jamelão, Cauby Peixoto, entre outros.
Mas somente em 1952, Lupicínio Rodrigues gravou seu primeiro disco solo: Roteiro de um Boêmio. Ao todo, o artista gravou dois álbuns de seis compactos de 78 rotações por minuto com suas composições.
Torcedor do Grêmio, Lupi compôs o hino do time do coração em 1953. Seu retrato está na Galeria dos Gremistas Imortais, no salão nobre do clube.
Na década de 1960, Lupicínio foi quase ao ostracismo com a chegada da Jovem Guarda, do rock, da Tropicália e da Bossa Nova. O gênero em que ele compunha ficou em segundo plano, principalmente em Porto Alegre. Ele só voltou a fazer bastante sucesso nos anos 1970, quando Caetano Veloso gravou Felicidade e Gal Costa gravou outra composição importantíssima de Lupi: Volta, de 1957.
Foi um grande marco, porque depois ele começou a ser gravado por todos esses grandes nomes que nós já citamos acima e nunca deixou de ser referência para os artistas de gerações em gerações.
Volta – por exemplo – também foi gravada por Simone, Fafá de Belém e Jamelão; e Felicidade, por Maria Bethânia, Adriana Calcanhotto e muitos outros.
Viva, Lupicínio Rodrigues!


