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Vanguarda Paulista: Quem foram? Quem são? Do que se trata?
Vanguarda Paulista: Quem foram? Quem são? Do que se trata?
Encabeçada por Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, a Vanguarda Paulista foi um movimento que mudou para sempre a história da música brasileira; saiba mais

Você sabe o que foi a Vanguarda Paulista ou Vanguarda Paulistana, movimento que transformou para sempre a história da música popular brasileira e continua a ecoar até os dias atuais?
Encabeçada por nomes como Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, lá no final dos anos 70 até meados dos anos 80, a Vanguarda Paulista reuniu artistas nascidos ou residentes do estado de São Paulo, que decidiram romper com o controle das gravadoras e da indústria fonográfica sobre a produção e lançamento de novos talentos.
Esses artistas produziam e lançavam seus trabalhos independentemente das grandes gravadoras e das participações em programas televisivos da época, criavam suas próprias microempresas e gerenciavam as suas próprias carreiras.
O nome Vanguarda Paulista ou Paulistana foi dado por jornalistas e críticos musicais de São Paulo, pelo aspecto de vanguarda do movimento: uma ruptura de modelos preestabelecidos, defendendo formas anti-tradicionais de arte e o novo nas fronteiras do experimentalismo, na busca pela subversão e nas contrapropostas.
O nome também tem como referência o Teatro Lira Paulistana, situado no bairro de Pinheiros, e palco denominador comum a todos os membros da Vanguarda Paulista, que contava também – entre outros nomes – com as bandas: Grupo Rumo (que tinha, entre outros, Luiz Tatit e Ná Ozetti em sua formação); Isca de Polícia; Premê (Premeditando o Breque); Língua de Trapo; e os Pracianos; além de cantoras como Suzana Salles e Tetê Espíndola.

Apesar de trazer o título de vanguarda no nome, os próprios artistas não se viam como tal: “Não gostávamos muito da denominação porque já estava desgastada. Ao mesmo tempo, a gente assumia que estava propondo uma nova maneira de compor. As músicas eram diferentes, estranhas, esquisitas e engraçadas. Não era algo que se tocava nas rádios”, explica Luiz Tatit, cantor e compositor que fez parte do Grupo Rumo.
Pela rebeldia, ousadia e audácia, esses artistas ganharam também a alcunha de “malditos”. Mas Itamar Assumpção detestava tal rótulo e retrucava: “Se tivesse que ouvir conselho, pediria ao Hermeto Pascoal (…) Eu sou artista popular!”.
Já Arrigo Barnabé, declarou que a intenção era mesmo se tornar popular. No entanto, os obstáculos impostos pelo mercado na época acabaram por restringir o alcance daquela nova música: “De certa forma, entramos em um mainstream cult, algo mais reservado, mas não no âmbito da música popular brasileira. Fizemos um trabalho que repercutiu bastante, influenciou muita gente, mas sempre existiu uma oposição muito forte da TV e das rádios”.
Quem foi Itamar Assumpção, um dos maiores nomes da Vanguarda Paulista

Compositor, cantor, instrumentista, arranjador e produtor musical, Itamar Assumpção nasceu em Tietê, no interior de São Paulo, em 13 de setembro de 1949.
Bisneto de escravizados angolanos, cresceu ouvindo os batuques do terreiro de candomblé no quintal de sua casa. Cresceu em Arapongas, no Paraná, para onde se mudou aos 12 anos. Chegou a cursar até o segundo ano de Contabilidade, mas abandonou os estudos para fazer teatro e shows em Londrina.
Aprendeu a tocar violão sozinho e – ouvindo Jimi Hendrix e arranjos de baixo e bateria – apaixonou-se pelo baixo. Mudou-se para São Paulo em 1973, para se dedicar à música, destacando-se na cena independente e alternativa da cidade, durante os anos 1980 e 1990.
Em suas canções, Itamar misturava samba com rock e funk, entre outros ritmos estrangeiros, enquanto as letras eram cheias de sátiras e críticas sociais. Foi influenciado pelos trabalhos de músicos de variados gêneros, como Adoniran Barbosa, Cartola, Jimi Hendrix e Miles Davis, além de poetas como Paulo Leminski e Alice Ruiz.
Itamar foi casado com Elizena Brigo de Assumpção, sua companheira por 35 anos. Os dois tiveram duas filhas que tornaram-se cantoras e compositoras: Serena – que faleceu em 2016, aos 39 anos, em decorrência de um câncer de mama – e Anelis Assumpção, que segue levando o legado de seu pai e sua irmã – e também da Vanguarda Paulista – em sua arte.
Produção fonográfica de Itamar Assumpção

Itamar Assumpção teve 12 álbuns lançados ao longo de sua carreira, sendo nove em vida e três póstumos.
Os dois primeiros discos – Beleléu, Leléu, Eu (1980) e Às Próprias Custas S.A (1983), foram lançados pelo selo Lira Paulistana; o terceiro LP, Sampa Midnight (1986), foi lançado de forma independente.
O seu quarto disco, Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava… (1988), foi seu único LP produzido por uma grande gravadora, a Continental, por isso o título. Em todos esses álbuns, o artista está acompanhado da banda Isca de Polícia.
Entre suas canções mais conhecidas, estão: Fico Louco; Parece que Bebe; Beijo na Boca; Sutil; Milágrimas; Vida de Artista; Dor Elegante e Estropício.
Em 1994, Itamar lançou a série Bicho de Sete Cabeças (três LPs também na forma de dois CDs), acompanhado pela banda Orquídeas do Brasil.
Em 1995, lançou um CD com músicas de Ataulfo Alves, premiado como melhor do ano pela APCA, novamente acompanhado da banda Isca de Polícia.

Em 1998, foi a vez do álbum PretoBrás, que foi concebido como o primeiro de uma trilogia (os dois álbuns que a completariam foram lançados postumamente, com a participação de diversos artistas, que completaram o material que foi deixado incompleto por Itamar).
Entre composições suas que fizeram sucesso, com outros intérpretes, estão: Nego Dito, (com o sambista Branca de Neve); Canto em Qualquer Canto (com Ná Ozzetti); Já Deu pra Sentir e Aprendiz de Feiticeiro (com Cássia Eller); e Código de Acesso e Vi, Não Vivi (com Zélia Duncan).
Além disso, Itamar Assumpção participou intensamente da obra de vários artistas ligados à Vanguarda Paulista como instrumentista, compositor ou produtor.
Um ano depois de sua morte – em 2003, após lutar por quatro anos contra um câncer de intestino – foi lançado o álbum Vasconcelos e Assumpção – Isso Vai dar Repercussão, gravado pouco antes da sua morte, composto de sete músicas, em parceria com Naná Vasconcelos.
Arrigo Barnabé, outro fundador do movimento

O compositor, cantor, pianista e ator Arrigo Barnabé nasceu em Londrina, no Paraná, em 14 de setembro de 1951. Mudou-se para São Paulo, onde estudou Composição, na Universidade de São Paulo (USP), de 1974 a 1979.
Em 1979, surgiu para o grande público em um festival universitário de música promovido pela TV Cultura, o qual venceu com sua música Diversões Eletrônicas.
Depois, apresentou a canção Sabor de Veneno, no festival da TV Tupi, também em 1979. Seu reconhecimento pelo grande público veio logo com o primeiro disco, Clara Crocodilo, em 1980, quando foi recebido pela imprensa como a maior novidade na música brasileira desde a Tropicália.
Em suas composições, Arrigo mistura elementos e procedimentos da música erudita do século XX a letras ferinas sobre a vida na grande cidade. É comum a utilização de séries dodecafônicas, aliada a uma prosódia muito próxima da fala urbana de seu tempo.
Produção fonográfica de Arrigo Barnabé

Arrigo Barnabé já lançou 12 álbuns, entre eles, um álbum tributo ao amigo Itamar Assumpção. Além das canções do disco de estreia, Clara Crocodilo, outras canções, como Uga Uga – hit dos anos 80 com participação de Eliete Negreiros e Vânia Bastos nos vocais – foram sucessos prestigiados.
O compositor escreveu várias composições para trilhas sonoras de filmes brasileiros e a faixa-título de seu segundo álbum, Tubarões Voadores, de 1984, é baseada em uma história em quadrinhos do ilustrador paulistano Luiz Gê.
Arrigo Barnabé já atuou como ator, na novela Direito de Amar, da TV Globo, em 1987. Também participou dos filmes Nem Tudo é Verdade (1984), de Rogério Sganzerla, interpretando Orson Welles; e Cidade Oculta (1986), de Chico Botelho, entre outros.
O artista é também citado na canção Língua, de Caetano Veloso (Adoro nomes / Nomes em ã / De coisas como rã e ímã / Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã / Nomes de nomes / Como Scarlet Moon de Chevalier Glauco / Mattoso e Arrigo Barnabé / E Maria da Fé / E Arrigo Barnabé).
Em 2019, Arrigo lançou seu primeiro livro, intitulado No Fim da Infância, publicado pela Grafatório Edições. A obra, autobiográfica, reúne memórias escritas por Arrigo Barnabé para diversos veículos.
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Em 2021, o artista foi tema do filme Amigo Arrigo, dirigido por Alain Fresnot e Junior Carone.
Os lançamentos mais recentes de Arrigo Barnabé foram dois EPs em que revisita a obra de Itamar Assunção, neste ano de 2024.
Os reflexos da Vanguarda Paulista nos dias atuais
As contribuições que os artistas da Vanguarda Paulista trouxeram para a nossa cultura, ecoam na música popular brasileira até os dias atuais.
Muitos artistas da cena contemporânea brasileira, trazem em seus trabalhos, influências – musicais e também de postura e posicionamento – da Vanguarda Paulista.
Muitos deles, são filhos de integrantes do movimento, que seguem o legado dos pais, trazendo suas influências na arte que produzem hoje, e que tornaram-se grandes nomes da música atual como, por exemplo:
- Anelis Assumpção

A cantora, compositora e percussionista paulistana, Anelis Assumpção, filha de Itamar Assumpção, começou a carreira fazendo backing vocal na banda do pai e, em 2007, deu início a uma carreira solo de sucesso.
Anelis já lançou quatro álbuns, desde sua estreia fonográfica em 2011, com o disco Sou Suspeita Estou Sujeita Não Sou Santa. No início da carreira, formou a banda DonaZica, ao lado de Iara Rennó, outro grande nome da música brasileira contemporânea, que traz no sangue a herança da Vanguarda Paulista.
- Iara Rennó

Iara Rennó também é cantora, compositora, além de instrumentista, produtora, performer, atriz, poeta, produtora e diretora musical.
É filha de Carlos Rennó, letrista e grande parceiro de Itamar Assunção, e de Alzira E, cantora, compositora e instrumentista, irmã de Tetê Espíndola.
Iara iniciou sua carreira cantando com a mãe, além de ter integrado a banda de Itamar Assumpção como vocalista de 2000 a 2003. Em 2001, ao lado de Anelis, formou o bando DonaZica e, em 2008, lançou seu primeiro trabalho solo Macunaíma Ópera Tupi. Seu álbum mais recente é Orí Okàn, de 2023.
- Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz

Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz são filhos de Luiz Chagas, nome de imensa importância para a Vanguarda Paulistana, que foi integrante da Isca de Polícia, banda de Itamar Assumpção, e nos deixou no início de julho deste ano, aos 72 anos.
Tulipa é cantora, compositora e ilustradora. Desde sua estreia fonográfica – com o disco Efêmera, de 2010 – á lançou cinco álbuns solo, sendo um deles Dance (2015), vencedor do Grammy Latino de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro.
Gustavo é músico, compositor e produtor de todos os álbuns da irmã, além de parceiro dela em letras como Efêmera, Do Amor e Dois Cafés.
Os irmãos – que também compunham em parceria com o pai – acabaram de lançar o primeiro álbum da sua banda juntos: Trago, que conta também com Rica Amabis e Alexandre Orion na formação.
Além deles, outros artistas da cena contemporânea, que não são filhos de nenhum dos nomes da Vanguarda Paulista, mas carregam as influências do movimento em sua música, como, por exemplo:
- Romulo Fróes

O cantor, compositor e produtor paulistano, Romulo Fróes tem em sua discografia, dez discos solos lançados, desde a sua estreia em Calado (2004), até o mais recente deles: Ó Nóis (2021).
Com o grupo Passo Torto, do qual faz parte junto a Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral, lançou três discos premiados, um deles em parceira com a cantora Ná Ozzetti.
Romulo também lançou um disco em parceria com o cantor e compositor César Lacerda, intitulado O Meu Nome É Qualquer Um (2016).
Atuante na cena musical independente, é um de seus principais interlocutores, tendo publicado textos críticos sobre a música brasileira em diversos veículos da imprensa, realizado documentários, trilhas sonoras, curadorias musicais, além de produzir e dirigir discos e shows de outros artistas como Elza Soares, Jards Macalé e Benito Di Paula.
Suas composições já foram gravadas por diversas cantoras como Elza Soares, Ná Ozzetti, Juçara Marçal, Nina Becker e Mariana Aydar.
- Kiko Dinucci

O paulistano Kiko Dinucci é cantor, compositor, instrumentista, artista plástico e diretor de cinema.
Foi integrante de diversas bandas de rock de Guarulhos, onde cresceu, entre elas a Personal Choice, na década de 1990.
Em 2007, Kiko iniciou sua carreira como compositor, sendo de sua autoria ou coautoria oito das músicas do álbum Padê, da cantora Juçara Marçal.
Em 2008, lançou o álbum de samba-punk Pastiche Nagô, como Kiko Dinucci e Bando Afromacarrônico e, em 2011 fundou os grupos Metá Metá (com Juçara Marçal e Thiago França) e Passo Torto (com Romulo Fróes, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral, mais tarde contando com a participação de Ná Ozzetti).
Seu primeiro álbum propriamente solo, intitulado Cortes Curtos, foi lançado em 2017 e consiste em 15 faixas curtas – crônicas ambientadas na cidade de São Paulo – explorando a sonoridade do “samba sujo”, com fortes influências do rock e do punk e pós-punk.
Depois disso, veio o álbum Rastilho, de 2020.
por Lívia Nolla

