Especial Capas de Disco: Rogério Duarte

Lívia Nolla
10:00 09.06.2026
Autor

Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
Arte e cultura

Especial Capas de Disco: Rogério Duarte

Muito além das canções, a revolução estética da música brasileira também passou pelo design. E poucos nomes ajudaram a moldar essa identidade visual de forma tão decisiva quanto Rogério Duarte.

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- 09.06.2026 - 10:00
Especial Capas de Disco: Rogério Duarte
Rogério Duarte é responsável por diversas capas de discos tropicalistas | imagem: Reprodução Novabrasil Montagem

Alguns artistas não apenas acompanham seu tempo, eles ajudam a defini-lo. Foi o que aconteceu com Rogério Duarte, designer, artista gráfico, ilustrador, músico, compositor, escritor, intelectual e um dos principais responsáveis por traduzir visualmente as transformações culturais que marcaram o Brasil dos anos 1960. 

Seu trabalho atravessou a música, o cinema, a literatura e as artes visuais, tornando-se parte fundamental de um dos períodos mais inventivos da cultura brasileira. 

Em uma época de experimentação e ruptura, as capas de discos deixaram de ser apenas um suporte para informações e passaram a funcionar como extensões das ideias contidas naquelas obras. Cores vibrantes, referências à cultura popular, colagens, ousadia gráfica e diálogo com a contracultura ajudaram a construir uma nova linguagem visual para a música brasileira. E Rogério Duarte esteve no centro desse movimento.

Nesta série sobre artistas que marcaram a identidade visual dos álbuns brasileiros, revisitamos a trajetória de Rogério Duarte e sua contribuição para algumas das capas mais emblemáticas da nossa música, obras que ajudaram a transformar discos em verdadeiros manifestos culturais.

Mais sobre Rogério Duarte

Rogério Duarte | Imagem: Reprodução

Rogério Duarte foi o nome por trás da estética que ajudou a definir a Tropicália, quase como um mentor intelectual do movimento. 

Mais que capas de discos e pôsteres de filmes, ele criou identidade, ruptura e um novo capítulo no design brasileiro, que nunca mais foi o mesmo. Duarte transformou o design gráfico em veículo de comunicação de massas e de resistência política. Sua estética colorida e expressiva moldou a identidade visual da cultura nacional que ecoa até os dias atuais.

Nascido na cidade de Ubaíra, no interior da Bahia, cresceu em um ambiente bastante intelectualizado e culto. Aos cinco anos de idade mudou-se para Salvador e – na escola – conheceu alguns dos seus melhores amigos, como o então futuro cineasta Glauber Rocha. 

Depois, Rogério Duarte formou-se na Universidade Federal da Bahia e passou a participar ativamente da cultura de vanguarda amplamente divulgada naquele ambiente, conhecendo também a arquiteta, designer, diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia e professora italiana Lina Bo Bardi.

Circulando em locais diversos como desde a Escola de Teatro aos seminários de Música, à Escola de Arquitetura e Desenho Industrial, para a Escola de Belas Artes, Duarte se muniu de um vocabulário estético novo e de vanguarda. 

Era considerado pelos colegas e conhecidos como uma pessoa muito inteligente e proficiente nos mais variados assuntos. Em 1960, mudou-se para o Rio de Janeiro graças a uma bolsa do Ministério da Educação e começou a estudar na Escolinha de Artes do Brasil, do Museu de Arte Moderna (MAM-Rio).

Logo entrou para a equipe do designer gráfico Aloísio Magalhães, o que lhe conferiu muita experiência para utilizar em seu próprio design as técnicas às quais foi exposto. A imersão no universo do design gráfico modernista de Aloísio de Magalhães foi decisiva para o desfecho estético de Duarte.

Após dois anos no escritório de Aloísio de Magalhães, Duarte pediu demissão por considerá-lo, assim como todo o ciclo de designers e instituições modernistas, apenas uma cópia estética da Alemanha no Brasil, criticando a falta de uma identidade verdadeiramente nova e brasileira. 

Iniciou-se seu movimento de crítica e ruptura aos padrões estéticos vigentes na época, e de defesa de alternativas que considerassem o contexto e as particularidades do Brasil nas artes gráficas.

Depois, trabalhou como diretor do Departamento de Artes Visuais do Centro Popular de Cultura (CPC), ligado à União Nacional dos Estudantes (UNE), sendo o responsável pelos projetos gráficos da instituição no começo da década de 1960. 

Logo no início de sua carreira, a situação sociopolítica do Brasil se estreitou com o Golpe Militarde 1964. O movimento, que instaurou uma Ditadura Militar no Brasil mudou os rumos da vida de Rogério Duarte. E de todos os brasileiros.

Ele passou a ser perseguido pelo regime ditatorial e – no mesmo ano de 1964 –  assinou o famoso cartaz do antológico filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, um marco do Cinema Novo.

Foi esse cartaz – que antecipava a estética do que viria a ser o Tropicalismo – que fez Rogério Duarte passar a ser conhecido no país inteiro.

Cartaz do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, feito por Rogério Duarte

O Tropicalismo e a Ditadura Militar

Em 1967, o Tropicalismo chegou em seu auge: abrangendo música, cinema, artes visuais e artes cênicas, um dos movimentos culturais mais significativos do Brasil, transcende tudo o que já havia em termos de produção artística no Brasil.

Sob a influência das correntes artísticas da vanguarda e da cultura pop nacional e estrangeira, como o rock e o concretismo, misturando manifestações tradicionais da cultura brasileira a inovações estéticas radicais, os tropicalistas criavam algo inovador, que interviesse na cena de indústria cultural e de cultura de massas da época. E que representasse uma mudança de parâmetros, que atendesse também aos anseios da juventude da época.

Esse grupo de artistas – do qual Rogério Duarte fazia parte como autor da maior parte das peças gráficas do período, utilizando-se de uma linguagem  anárquica e anticonvencional co como uma possibilidade de libertação da arte das galerias – se manifestava contra a cultura hostil instaurada pelo regime militar. 

Já em 1967, ele produz o segundo cartaz para Glauber Rocha, para o filme “Terra em Transe”. Em 1968, foi a vez de produzir as capas dos primeiros álbuns solo de Caetano Veloso e de Gilberto Gil.

Cartaz do filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, feito por Rogério Duarte

Acontece que – em 1968 – Rogério e seu irmão, Ronaldo Duarte, foram presos por policiais disfarçados como civis, colocados à força em uma kombi e torturados durante oito dias. A prisão mobilizou artistas e intelectuais e foi amplamente divulgada até eles serem encontrados, inclusive no extinto jornal carioca Correio da Manhã, que chegou a publicar uma carta coletiva pedindo a libertação dos “Irmãos Duarte”. O sumiço foi amplamente reportado na mídia jornalística 

Rogério acreditava que sua prisão não era para ser mais uma, mas sim algo exemplar, para advertir outros artistas opositores ao Regime. Mesmo liberto, após os oito dias de tortura, ele afirmava que 1968 foi o ano de sua morte:“Sou um cara destruído pela ditadura, mesmo, pelo menos em termos da minha obra”

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Após a prisão, o artista continuou a denunciar publicamente os militares, tornando-se alvo de ameaças de morte ainda em dezembro de 1968, poucos dias antes de se instaurar o Ato Institucional n°5.

Rogério Duarte e seu irmão Ronaldo Duarte em Manifestação estudantil contra a ditadura | Imagem: Reprodução

Com ameaças, se mudou para Feira de Santana e não conseguia sequer sair de seu quarto, por medo, ansiedade e depressão. Por conta do período em que passou preso e torturado, Rogério enfrentou uma grande crise psiquiátrica, e, incentivado por familiares e amigos, voltou ao Rio de Janeiro para se tratar em hospitais especializados, onde permaneceu internado de 1969 a 1971. 

Teve alta no mesmo dia em que Caetano Veloso e Gilberto Gil voltaram de seu exílio em Londres. Assim que os cantores chegaram, Rogério e Gil foram morar juntos e compartilhavam estudos em esoterismo, ocultismo e espiritualidade. 

Para Duarte, seu encontro com a espiritualidade foi um “meio de evitar o enlouquecimento total”, “um mergulho dentro de si mesmo” 

Em 1980, ele assinou o cartaz e a trilha sonora do filme “Idade na Terra”, de Glauber Rocha, e em 1987 voltou à Bahia e passou a lecionar disciplinas no Departamento de Comunicação da Universidade Federal da Bahia.

Em 2003 publicou o livro “Tropicaus”, e em 2011, o livro “Gita Govinda – A cantiga do Amor Negro”.

Rogério Duarte morreu no dia 13 de abril de 2016, aos 77 anos, em decorrência de um câncer que lutava há dois meses.

10 capas de disco com o design de Rogério Duarte

Arte como forma de resistência à ditadura militar.

Em plena ditadura militar, Rogério Duarte criou uma estética de ruptura. Seu design misturava psicodelia, arte pop e cultura popular brasileira, o oposto do design modernista vigente. Cor, alegoria e provocação eram as suas armas.

1 – Caetano Veloso – Caetano Veloso (1968)

Com layout de Rogério Duarte e fotografia do norte-americano David Drew Zingg, a capa de estreia solo de Caetano Veloso traz alegorias, cores protagonistas e referências à arte pop, marcando o design tropicalista. A abundância de elementos e a exuberância cromática rompem com a sobriedade da época.

2 – Gilberto Gil – Gilberto Gil (1968) 

Também no disco de estreia de Gilberto Gil e também com design de Rogério Duarte e fotografia de David Drew Zingg, faixas verdes e amarelas criam movimento e textura, referenciando a Op Art. As cores do Brasil “manchadas de sangue” – verde, amarelo e vermelho – criticavam diretamente o regime ditatorial.

3 – Cantar – Gal Costa (1974) 

Com foto de Thereza Eugêniae design de Rogério Duarte, a capa de “Cantar” acompanha a mudança estética proposta pelo disco. Em vez do experimentalismo explosivo associado à fase tropicalista, a aposta é em uma imagem mais serena e contemplativa de Gal Costa. O resultado dialoga com a atmosfera intimista do álbum, marcado por uma interpretação mais delicada e pela aproximação com a Bossa Nova. A simplicidade visual reforça a força da presença da cantora.

4 – Routine – Jorge Mautner (1974)

Em “Routine”, mais uma vez com uma foto de Thereza Eugênia – Rogério Duarte explora uma linguagem visual próxima da contracultura que permeia a obra de Jorge Mautner. A capa combina elementos gráficos e fotográficos de forma livre, refletindo o caráter inquieto, místico e experimental do artista e a imagem parece funcionar menos como ilustração e mais como extensão das ideias presentes na música.

5 – Gilberto Gil – Ao Vivo (1974) 

Feita em parceria com Aldo Luiz.

6 – Qualquer Coisa – Caetano Veloso (1975) 

Projeto gráfico feito a partir de uma foto do fotógrafo  João Castrioto, uma das capas mais conhecidas de Rogério Duarte, numa referência explícita à capa de“Let It Be”, dos Beatles.

7 – Lugar Comum – João Donato (1975)

Em parceria com Aldo Luiz e Jorge Vianna, a estética limpa e elegante constrói uma identidade visual que valoriza a personalidade do músico sem recorrer a excessos gráficos, criando um equilíbrio que reflete a leveza e a fluidez presentes nas composições do álbum.

8 – Ogum Xangô – Gil e Jorge – Gilberto Gil e Jorge Ben Jor (1975) 

Também em parceria com Aldo Luiz, A capa traduz visualmente o encontro de duas das maiores forças criativas da música brasileira. Rogério Duarte incorpora referências à cultura afro-brasileira e à simbologia dos orixás que dão nome ao disco, criando uma imagem que dialoga com espiritualidade, ancestralidade e identidade cultural. O resultado é uma obra visual tão potente quanto a parceria musical entre Gil e Jorge Ben Jor.

9 – Refazenda – Gilberto Gil (1975) 

Em “Refazenda”, um dos discos mais emblemáticos de Gilberto Gil, Rogério Duarte faz a tipografia da capa de Aldo Luiz.

10 – Como Estão Vocês? – Titãs  (2003) 

Décadas depois de se tornar uma referência do design brasileiro, Rogério Duarte voltou a assinar uma capa marcante em “Como Estão Vocês?”, dos Titãs. O projeto – feito em em parceria com Rogério Duarte Filho – combina sua experiência gráfica com uma linguagem contemporânea, mostrando como sua obra permaneceu relevante mesmo após as transformações do mercado fonográfico. A capa dialoga com a identidade da banda sem abrir mão da personalidade visual do artista.

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Lívia Nolla é cantora, apresentadora e pesquisadora musical

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