Novabrasil
509-E: a história da dupla que nasceu no Carandiru e mudou o rap brasileiro
509-E: a história da dupla que nasceu no Carandiru e mudou o rap brasileiro
No aniversário de Afro‑X, voltamos o olhar para a trajetória do grupo 509‑E, formado por ele e Dexter, que transformou o cárcere em rima e a rima em história de resistência

Na data em que celebramos o aniversário de Afro-X, revisitar a trajetória do 509-E – grupo que ele formou com o também rapper paulista, Dexter – é revisitar a história do rap brasileiro e o cruzamento entre dor, transformação, arte e liberdade.
Entre grades e rimas
Quando se pensa em grupos de rap que nasceram à margem, poucos têm origem tão direta quanto o 509-E. Formado por Afro-X e Dexter quando ainda estavam encarcerados no sistema prisional brasileiro, o grupo é a manifestação viva da arte que vem de dentro para fora. Mas que nasceu fora pra brotar dentro.
Nascidos nos anos 70 na periferia paulista – mais específicamente na violenta Vila Calux, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista – e com vivências duras de uma realidade que assola tantos brasileiros, ambos se envolveram com o crime na juventude e se conheceram em suas passagens pelo sistema prisional, na Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru.
Foi lá, no Carandiru, que Afro-X e Dexter formaram o grupo 509-E, nome que veio da cela em que os dois estavam presos juntos, no quinto andar do Pavilhão 7.
Eles se tornaram os porta-vozes de todos aqueles que sofriam encarcerados no Brasil, ao abordarem em suas músicas o cotidiano violento da periferia e das penitenciárias. As letras do grupo falavam sobre encarceramento, marginalização, violência e exclusão.
O álbum de estreia e a repercussão
No ano 2000, o 509-E lançou seu álbum de estreia – “Provérbios 13” – com 12 faixas, por meio do selo Só Rap, da gravadora Atração.
O álbum foi gravado em quatro saídas da cadeia e – além da dupla – contou com um time de produtores de peso: Mano Brown e Edi Rock do Racionais MC’s, DJ Hum e MV Bill. O álbum foi um sucesso, vendendo quase 100 mil cópias, marcando o rap nacional ao trazer uma realidade pouco representada na grande mídia.
Em agosto do mesmo ano, o 509-E ganhou ainda mais projeção ao disputar com o clipe de uma das faixas do seu álbum de estreia – “Só os Fortes” – duas categorias, de Melhor Vídeo de Rap e de Escolha da Audiência, no Video Music Brasil, premiação da MTV.
Eles não levaram os prêmios para casa, mas o espaço dado ao grupo abriu várias portas para Dexter e Afro-X. A consagração aconteceu ainda em novembro de 2000, quando o 509-E levou o prêmio HUTÚZ – festival de hip hop brasileiro, promovido pela CUFA e considerado o maior da América Latina – de Grupo Revelação do Ano.
A repercussão foi tamanha que a dupla passou a ter visibilidade nacional, o que – simultaneamente – atraiu tanto audiência como resistência institucional e a polícia passou a proibir o 509-E de fazer shows na rua.
Caminhos individuais, legado imenso
Em 2002, com o seu segundo álbum, “MMII DC (2002 Depois de Cristo)”, o grupo consolidou sua mensagem antes de se dissolver em 2003, pouco tempo depois de Afro-x ser solto em liberdade e as mensagens que cada um queria passar com sua música tornarem-se diferentes.
Veja também:
Dexter foi solto em 2011 e seguiu carreira solo, mantendo o olhar crítico sobre prisão, liberdade e periferia, em três álbuns lançados: “Exilado Sim, Preso Não” (2005); “Flor de Lótus” (2016) e o mais recente agora em 2025, “D’LUXO”.
Afro-X permaneceu por algum tempo no rap, se afastou, tornando-se educador e escritor – depois – voltou novamente para a música. Em 2009, lançou o livro “Ex-157, a história que a mídia desconhece” e busca levar para jovens em vulnerabilidade a lição de que a vida pode ser diferente.
Também em 2009, foi lançado um documentário sobre o 509-E, chamado “Entre a Luz e a Sombra”, que aborda a violência no Brasil a partir da formação da dupla Dexter e Afro-X.
O reencontro
Amigos de infância, Dexter e Afro-X ficaram mais de dez anos sem se falar depois do fim da dupla. Após 16 anos, em 2019, os dois retornaram juntos aos palcos para uma série de shows para celebrar os 20 anos de parceria, chamada “Vivos”.
Depois disso, Dexter seguiu em carreira solo e Afro-X formou a nova dupla do 509-E com o seu irmão, Bad.
O legado da 509-E não se esgota nos dois álbuns ou no tempo formal de existência do grupo: ele persiste na cada rima que denuncia, na cada voz que não se cala, na cidade que ainda resiste.
É importante celebrar os caminhos que o rap pode traçar quando nasce da urgência, do território marginalizado e do cárcere.


