Moradores de Perus reagem após descobrir demolição de escola referência em educação infantil

Decio Caramigo
14:23 01.07.2026
Jornalismo

Moradores de Perus reagem após descobrir demolição de escola referência em educação infantil

Pais cobram transparência da gestão Ricardo Nunes após técnicos de construtora informarem demolição da EMEI Dona Alice Feitosa

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- 01.07.2026 - 14:23
Moradores de Perus reagem após descobrir demolição de escola referência em educação infantil
Fachada da EMEI Dona ALice Feitosa. Foto: Novabrasil.

Antes de aprenderem a escrever o próprio nome, muitas crianças da EMEI Dona Alice Feitosa, em Perus, aprendem a plantar.

Entre árvores frutíferas, hortas, brinquedos de madeira e alvenaria e grandes áreas de terra, o contato com a natureza faz parte da proposta pedagógica da escola, construída há quase três décadas na zona noroeste de São Paulo, no bairro de Perus. Ali, brincar também significa observar insetos, cuidar das plantas e aprender fora da sala de aula.

É justamente esse espaço que, segundo um projeto da prefeitura da capital paulista, deverá dar lugar ao futuro CEU Tarcon.

A possibilidade de perder uma escola considerada referência na região mobilizou famílias, professores e moradores do bairro. O motivo, porém, vai além da obra.

Segundo pais, funcionários e a própria direção da unidade, ninguém foi oficialmente comunicado pela gestão Ricardo Nunes sobre o futuro da escola antes da chegada de profissionais da empresa contratada para executar o empreendimento.

Foi durante visitas técnicas ao terreno que a comunidade começou a descobrir que a escola seria demolida.

As dúvidas surgiram imediatamente. Para onde irão as quase 250 crianças atendidas pela unidade? E os, cerca de, 50 funcionários? Quando acontecerá a mudança? Como será feita a transição?

Ninguém sabe. Até agora, segundo as mães, os pais e responsáveis, nenhuma dessas perguntas foi respondida diretamente à comunidade escolar.

Na terça-feira (30), a chegada de uma escavadeira aumentou ainda mais a preocupação.

Embora os trabalhos estejam restritos à sondagem do terreno, um procedimento técnico utilizado para analisar as características do solo antes de uma construção, as famílias passaram a temer que um eventual comunicado oficial aconteça somente durante o recesso escolar, abrindo caminho para que a demolição seja iniciada enquanto a escola estiver sem aulas, e que o comunicado do novo espaço de aprendizagem seja de última hora e sem tempo de reação.

“A Prefeitura nunca avisou”

A reportagem da Novabrasil esteve na escola e ouviu a comunidade.

Entre eles está Jéssica, mãe do pequeno Pedro Henrique. Ela conta que a notícia não chegou por meio da prefeitura, nem da escola.

“Eu não fiquei sabendo em nenhum momento pela prefeitura. Fiquei sabendo pelas redes sociais de um vereador e depois quando começaram a aparecer pessoas da construtora na escola.”

Como Jéssica, outros responsáveis relataram à reportagem que descobriram o projeto apenas após a movimentação de equipes técnicas dentro da unidade. Nildo, pai da Helena, reforça o coro: “primeiro que isso é um grande desrespeito aos nossos filhos e aos profissionais. Não mandaram nem um comunicado. Nós deixamos nossos filhos ali porque confiamos, a escola está perfeita, é bom, tem boas condições e querem acabar com isso”.

Segundo funcionários ouvidos pela Novabrasil, nem mesmo a direção havia recebido informações oficiais antes das primeiras visitas da empresa responsável pelos estudos do terreno.

Posteriormente, uma reunião confirmou que a escola será substituída pelo novo equipamento público.

Um bosque que pode desaparecer

A preocupação da comunidade também passa pelo ambiente construído ao longo de quase 30 anos.

Segundo pessoas que acompanham o projeto, aproximadamente 700 árvores adultas existentes no terreno já foram identificadas para futura supressão.

Para a comunidade, a retirada dessa área verde representa a perda de um patrimônio ambiental que sempre fez parte da proposta pedagógica da escola.

O receio também encontra respaldo em estudos recentes sobre o clima urbano.

Pesquisa desenvolvida pelo Centro de Estudos da Favela (Cefavela), da Universidade Federal do ABC (UFABC), mostrou que bairros com pouca arborização registram temperaturas de superfície muito superiores às áreas mais verdes da cidade.

Durante o verão de 2024 para 2025, por exemplo, a favela de Paraisópolis chegou a registrar temperaturas de superfície próximas de 45°C, enquanto o vizinho e arborizado Morumbi permaneceu em torno de 30°C.

Para os pesquisadores, árvores, parques e áreas verdes funcionam como um “ar-condicionado natural” das cidades, ajudando a reduzir o calor, melhorar a circulação do ar e diminuir os impactos das mudanças climáticas, efeito especialmente importante nas regiões periféricas.

“Não somos contra o CEU”

Ao contrário do que pode parecer, a mobilização da comunidade não é contra a construção de um novo Centro Educacional Unificado, embora não entenda o motivo de ter dois equipamentos semelhantes tão próximos.

O principal questionamento é outro. Defendem que a escola permaneça exatamente onde está, preservando sua estrutura, seu quintal, seu projeto pedagógico e sua história. A menos de dois quilômetros dali já funciona o CEU Perus.

Veja também:

Segundo uma funcionária ouvida pela reportagem, a atual unidade enfrenta problemas recorrentes de manutenção, como falhas no abastecimento de água, elevador frequentemente sem funcionar e espaços que permanecem fechados ou subutilizados. A piscina que deveria servir como instrumento pedagógico às crianças durante o verão, por vezes não é utilizada por falta de guarda-vidas. A CEI que funciona no CEU Perus, de acordo com relato dessa funcionária, “tem falta de água recorrente, quase que semanalmente, a ponto da diretoria ter que comprar água potável para crianças e funcionários”.

Para quem vive na região, antes de investir em um novo CEU, seria mais importante garantir o pleno funcionamento daquele que já existe.

Outro argumento citado pelos moradores é que o bairro ainda convive com outras demandas de infraestrutura.

Por exemplo, enquanto o CEU Perus é perto, a Unidade Básica de Saúde de referência para aquela região do bairro fica a cerca de cinco quilômetros da escola, realidade que, para a comunidade, reforça a necessidade de discutir prioridades antes da implantação de novos equipamentos públicos.

Prefeitura rebate críticas

Procurada pela Novabrasil, a Secretaria Municipal de Educação informou que mantém “diálogo permanente com a comunidade escolar” e afirmou que todas as etapas do projeto serão comunicadas previamente às famílias. O que ainda não aconteceu.

Segundo a pasta, a EMEI Dona Alice Feitosa será incorporada ao futuro CEU Tarcon e continuará funcionando provisoriamente em outro espaço durante a execução da obra. O endereço dessa unidade temporária, entretanto, ainda está em definição.

A prefeitura também informou que a elaboração do projeto e a construção do CEU Tarcon foram contratadas pela SPObras por meio de licitação, com investimento previsto de R$ 119 milhões e prazo estimado de 18 meses.

Sobre a escavadeira que chegou ao local nesta semana, a administração afirma que os trabalhos se limitam à sondagem do terreno e que nenhuma etapa de demolição está em andamento.

Em relação às críticas sobre o CEU Perus, a Secretaria informou que a unidade recebe manutenção permanente por meio do Programa de Transferência de Recursos Financeiros (PTRF).

Segundo a pasta, os problemas de abastecimento de água foram pontuais e já solucionados. A prefeitura também afirma que o elevador funciona regularmente desde a inauguração da unidade, em 2023, e que eventuais falhas são encaminhadas imediatamente para manutenção. Sobre salas apontadas como sem utilização, informou que fará uma verificação para avaliar o aproveitamento desses espaços em atividades educacionais.

Um debate que reaparece em outras obras da cidade

O caso da EMEI Dona Alice Feitosa também reacende uma discussão que acompanhou outras intervenções urbanas promovidas pela prefeitura de Ricardo Nunes nos últimos anos.

Projetos como o Complexo Viário Sena Madureira, as demolições de espaços culturais como o Teatro Ventoforte e a Escola de Capoeira Angola Cruzeiro do Sul, além das remoções habitacionais no Jardim Pantanal, foram alvo de questionamentos de moradores, entidades e, em alguns casos, do Ministério Público, sobre a comunicação com as comunidades diretamente afetadas. Primeiro destrói, depois avisa.

Em Perus, pais e professores dizem enxergar uma situação semelhante: a percepção de que as mudanças começaram a acontecer antes que as informações oficiais chegassem a quem será diretamente impactado.

Mobilização continua

A expectativa da comunidade agora está voltada para a reunião marcada para esta quarta-feira (1), com representantes da Diretoria Regional de Educação (DRE) Pirituba/Jaraguá, da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (SIURB) e da Coordenadoria de Contratos de Obras e Manutenção Predial (COMAPRE).

Ao fim do encontro, segundo informou a assessoria de imprensa da Educação, será possível ter respostas sobre o cronograma da obra, o futuro da escola e, principalmente, para onde serão levadas as cerca de 250 crianças atendidas atualmente pela EMEI. Atualizaremos a reportagem assim que recebermos as informações.

Independentemente do resultado da reunião, a mobilização continua.

No próximo sábado (4), às 9h, a comunidade escolar promove uma caminhada pelas ruas de Perus para apresentar o projeto aos moradores e defender a permanência da EMEI Dona Alice Feitosa.

Segundo os organizadores, diversas escolas da região já confirmaram participação no ato, que também contará com apresentações culturais e manifestações sobre a importância de preservar a história das escolas públicas, seus vínculos com o território e o diálogo com a população antes da implantação de grandes intervenções urbanas.

Dois abaixo-assinados, um físico e outro virtual, já somam mais de 1.300 assinaturas de moradores que defendem a preservação da escola e pedem uma discussão mais ampla sobre o futuro da unidade e da região.

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