Especial: 10 sucessos de Paulinho da Viola no dia do seu aniversário

Lívia Nolla
10:00 12.11.2024
Autor

Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
Música

Especial: 10 sucessos de Paulinho da Viola no dia do seu aniversário

Um dos maiores nomes da história da MPB completa 82 anos de vida hoje; confira especial do site da Novabrasil

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- 12.11.2024 - 10:00
Especial: 10 sucessos de Paulinho da Viola no dia do seu aniversário
Paulinho da Viola | Foto: Divulgação.

Paulinho da Viola, um dos maiores nomes da música popular brasileira de todos os tempos, completa 82 anos de vida hoje e – para celebrar esta data especial – nós trouxemos uma lista com 10 dos maiores sucessos do sambista carioca.

Quem é Paulinho da Viola?

Filho de um importante violonista de choro, o cantor, compositor e instrumentista carioca Paulo César Batista de Faria já nasceu em um ambiente muito musical e teve a oportunidade de conviver desde cedo com grandes chorões da época, como Pixinguinha e Jacob do Bandolim.

Começou a aprender a tocar violão sozinho, aos 15 anos e, na mesma época, passou a se envolver com o carnaval, organizando um bloco carnavalesco com um grupo de amigos. Logo, ficou conhecido como Paulinho da Viola e, desdeentão, vem construindo sua história no panteão da música popular brasileira.

Paulinho da Viola em 1970 – Registro feito para o jornal O Cruzeiro

Paulinho da Viola ingressou na Ala de Compositores da escola de samba União de Jacarepaguá, e lá – atuando como cavaquista – compôs um de seus primeiros sambas, Pode Ser Ilusão, em 1962.

Teve o poeta e compositor Hermínio Bello de Carvalho, como seu grande incentivador e um de seus primeiros parceiros. Por intermédio dele, conheceu outros grandes nomes da MPB como Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia e Zé Keti, que – mais tarde – também se tornaram seus parceiros.

ComZé Keti, Nelson Sargento, Elton Medeiros e outros músicos, formou o conjunto musical A Voz do Morro, com quem gravou o seu primeiro disco, contendo os seus primeiros sambas. Em seguida, também integraram juntos o espetáculo Rosa de Ouro.

Em 1965, Paulinho passou a integrar a Ala de Compositores da Portela, época em que compôs seu grande sucesso Recado, em parceria com o portelense Casquinha. Passou então a ser uma das grandes figuras da Portela, sua escola do coração.

Em 1966, o sambista ficou em terceiro lugar no Festival de Música Brasileira da TV Record, com Canção para Maria (parceria com Capinan) e lançou um álbum em parceria com Élton Medeiros, Samba da Madrugada.

Em 1968,  lançou seu primeiro disco solo, Paulinho da Viola. Daí pra frente, foi um sucesso atrás do outro, nos seus mais de 20 álbuns lançados ao longo de quase 60 anos de carreira. 

Em 1970, Paulinho da Viola ganhou projeção nacional com um de seus maiores sucessos até hoje: Foi um Rio Que Passou em Minha Vida, música que deu nome ao segundo álbum de sua carreira.

As composições de Paulinho da Viola também foram gravadas por grandes nomes da nossa música como Elizeth Cardoso, Martinho da Vila, Elza Soares, Jair Rodrigues e Marisa Monte.

Paulinho da Viola, com suas harmonias sofisticadas, sua batida única ao violão e sua voz suave, é um dos artistas que teve maior contribuição para a consolidação do samba e do choro no nosso país, sendo considerado um elo entre a tradição e a modernidade.

Paulinho da Viola | Foto: Divulgação

Paulinho provocou, durante a sua trajetória, ainteração de dois fenômenos culturais vistos como antagônicos: a estética sofisticada da classe média da zona sul do Rio de Janeiro dos anos 50 e 60, com a vibração pulsante dos subúrbios cariocas, resultando em uma nova forma que atravessa o tempo, abraçando a modernidade, sem alterar sua essência.

Seu trabalho mais recente é o álbum ao vivo Sempre Se Pode Sonhar, de 2020.

Selecionamos 10 grandes sucessos de Paulinho de Viola para você celebrar o aniversário do sambista junto com a gente. Músicas que marcaram época e são grandes clássicos até hoje.

Aproveite!

10 grandes sucessos de Paulinho de Viola

1 – Foi um Rio Que Passou em Minha Vida (1969)

Em 1970, Paulinho da Viola ganhou projeção nacional com um de seus maiores sucessos até hoje: Foi um Rio Que Passou em Minha Vida, música que deu nome ao segundo álbum de sua carreira.

A intenção de Paulinho, portelense de coração, com essa canção foi compensar os seus companheiros de escola de uma música lançada por ele no ano anterior, Sei lá Mangueira, uma parceria com Hermínio Bello de Carvalho, que homenageava a escola concorrente da Mangueira e que se tornou um grande sucesso. 

Foi um Rio Que Passou em Minha Vida não foi o samba enredo da Portela no carnaval do 1970, mas, no documentário Meu Tempo é Hoje (Izabel Jaguaribe, 2003), Paulinho da Viola conta como a canção foi acolhida com entusiasmo e cantada por todos no aquecimento do desfile e, depois, virou uma espécie de hino da escola.

“Ai, minha Portela

Quando vi você passar

Senti meu coração apressado

Todo meu corpo tomado

Minha alegria de voltar”

2 – Coração Leviano (1977)

Em Coração Leviano, Paulinho da Viola narra uma decepção amorosa e – com a dor de quem teve o coração partido – lamenta ter sido preterido por outro alguém.

A canção foi lançada por Clara Nunes, no antológico álbum As Forças da Natureza, de 1977, e o sambista a gravou no ano seguinte, em seu álbum Paulinho da Viola.

“Ah coração teu engano foi esperar por um bem

De um coração leviano que nunca será de ninguém”

3 – Sinal Fechado (1969)

Sinal Fechado foi uma mensagem de Paulinho da Viola contra a repressão da ditadura e uma das últimas músicas premiadas na grande Era dos Festivais, em 1969.

Ele conta que a ideia da música veio de algo que ele não sabe bem até hoje se foi um sonho, uma visão, ou se ele estava tão imerso em um momento de criação que parecia que estava em outro lugar vivenciando aquilo: ele estava dentro de um ônibus cheio e na frente tinha uma pessoa com quem ele gostaria de falar e ele não conseguia chegar até ela e só ficava acenando para ela, sem conseguir falar o que queria falar.

É uma alusão ao que se estava vivendo na época da repressão: você queria se expressar mais não conseguia. E a ditadura colocou um “sinal fechado” na música brasileira.

Em 1974, ainda sob o regime da ditadura no Brasil, Chico Buarque vinha sendo sistematicamente censurado e lançou um álbum chamado Sinal Fechado, que conta só com composições de outros artistas, já que ele não (e apenas uma dele, assinada com os seus heterônimos Julinho da Adelaide e Leonel Paiva), que encerra com a música de Paulinho da Viola e em que ele traz também composições de outros artistas e uma música dele, assinando 

“Olá, como vai?

Eu vou indo, e você, tudo bem?

Tudo bem, eu vou indo correndo

Pegar meu lugar no futuro, e você?

Tudo bem, eu vou indo em busca

De um sono tranquilo, quem sabe?”

4 – Pecado Capital (1975)

Composta em apenas um dia, a música Pecado Capital foi encomendada a Paulinho da Viola pelo produtor musical Guto Graça Mello para a novela de mesmo nome, da TV Globo, de 1975. 

A composição foi feita a partir de uma sinopse curta da novela enviada ao compositor. Acostumado a fazer sambas de enredo, ele se inspirou no enredo e compôs um de seus maiores clássicos.

A música, bem como a novela, é uma crítica social que aborda a relação do ser humano com o dinheiro e como isso afeta as relações interpessoais e os sonhos individuais.

“Dinheiro na mão é vendaval

É vendaval

Na vida de um sonhador

De um sonhador

Quanta gente aí se engana

E cai da cama

Com toda a ilusão que sonhou”

5 – Argumento (1975)

Lançada no sétimo disco solo do artista, Paulinho da Viola,de 1975, a canção Argumento trazo um artista consagrado, compositor de sambas importantíssimos da nossa história, que resolveu falar sobre algo que o incomodava naquele período: a descaracterização do samba em relação ao ritmo e ao instrumental.

Paulinho pede respeito ao samba e sua estrutura, alertando sobre as diversas manifestações que se definiam como um braço do gênero.

“Tá legal

Eu aceito o argumento

Mas não me altere o samba tanto assim

Olha que a rapaziada está sentindo a falta

De um cavaco, de um pandeiro

Veja também:

Ou de um tamborim” 

A canção nos fala sobre a importância de ter um olhar no futuro, no novo, mas  sempre respeitando quem veio antes e honrando quem construiu um caminho para que o samba tenha se tornado o que é. 

E isso é Paulinho da Viola: uma ponte entre a tradição e a modernidade. Como ele mesmo diz: “Não vivo no passado, o passado vive em mim”, e – honrando esse passado – o sambista cria sua música e sua obra original e também moderna.

Embora a crítica de Argumento não tivesse endereço exato, muitas polêmicas surgiram na época, dizendo que Paulinho tinha escrito a música para Benito Di Paula, que – dois anos antes – havia gravado a canção Retalhos de Cetim, um dos maiores sucessos de sua carreira, em que usa um piano para fazer samba: “Mas chegou, carnaval, e ela não desfilou….”.

Paulinho falou que não escreveu o seu samba para Benito ou para ninguém específico, e que jamais faria isso com um colega. Ele disse que apenas questionava o papel do samba como gênero musical contestador daquela época. 

De fato, a música retrata também a censura sobre a imprensa, a poesia e as artes durante a ditadura militar. O poeta também usa a canção para fazer sua denúncia, criticando quem não fazia músicas com temáticas sociais ou políticas. 

Ainda sim, Benito di Paula escreveu no mesmo ano uma música que pareceu ser uma resposta para Paulinho da Viola: Não Me Importo Nada.

6 – Dança da Solidão (1972)

A Dança da Solidão é o quinto álbum de estúdio de Paulinho da Viola, lançado em 1972 e a música que dá título ao álbum tornou-se um grande sucesso, depois regravado também nas vozes de Beth Carvalho (1981) e de Marisa Monte com Gilberto Gil. (1994).

“Solidão, palavra

Cavada no coração

Resignado e mudo

No compasso da desilusão

Desilusão

Desilusão

Danço eu, dança você

Na dança da solidão” 

7 – Timoneiro (parceria com Hermínio Bello de Carvalho, 1996)

Composto em parceria com Hermínio Bello de Carvalho e lançado em 1996 no disco Bebadosamba, o samba partido-alto Timoneiro é uma ode ao mar e ao marinheiro e tornou-se um dos maiores hinos de Paulinho da Viola.

“Não sou eu quem me navega

Quem me navega é o mar

É ele quem me carrega

Como nem fosse levar”

8 – Eu Canto Samba

Eu Canto Samba também é uma faixa que deu nome a um álbum de muito sucesso de Paulinho da Viola, lançado em 1989. A música fala da relação de amor de Paulinho com o samba:

“Eu canto samba

Porque só assim eu me sinto contente

Eu vou ao samba

Porque longe dele eu não posso viver

Com ele eu tenho de fato uma velha intimidade

Se fico sozinho ele vem me socorrer”

9 – Para Ver As Meninas

O samba Para Ver as Meninas, de 1971, começa com um pedido de silêncio:

“Silêncio por favor

Enquanto esqueço um pouco a dor

Do peito

Não diga nada sobre meus defeitos

Eu não me lembro mais

Quem me deixou assim

Hoje eu quero apenas

Uma pausa de mil compassos

Para ver as meninas

E nada mais nos braços

Só este amor

Assim descontraído”

Segundo a filósofa e cantora Eliete Eça Negreiros,  amiga de Paulinho da Viola e autora do livro Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e outros escritos (Ateliê Editorial, 2011):

“O poeta quer se esquecer de seu passado, de sua vida triste e inaugurar um marco zero a partir do qual irá criar um novo modo de ser, um novo samba, um samba que vá além das limitações cotidianas, que vá além de um mundo limitado e aflitivo. O compositor quer fazer uma pausa, apagando as lembranças do quadro-negro da memória, para ter liberdade de criar um outro traçado. Ele quer, a partir de um papel em branco, escrever e iniciar uma nova estória, um novo samba, fazer um novo desenho.”

A canção também fez muito sucesso quando regravada por Marisa Monte, no álbum Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, de 2000.

10 – Onde a Dor Não Tem Razão (parceria com Élton Medeiros)

A letra de Onde a Dor não tem Razão – parceria de Paulinho da Viola com Élton Medeiros, lançada em 1981- descreve uma jornada pessoal de cura após um período de sofrimento amoroso.

“Canto

Pra dizer que no meu coração

Já não mais se agitam as ondas de uma paixão

Ele não é mais abrigo de amores perdidos

É um lago mais tranquilo

Onde a dor não tem razão”

por Lívia Nolla

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