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Quando o silêncio se rompe, uma vida pode ser salva
Quando o silêncio se rompe, uma vida pode ser salva
Dados do Ministério das Mulheres revelam que mais vítimas passaram a denunciar a violência, mas especialista alerta que a curva dos crimes também aumentou

De janeiro a abril de 2026, o país registrou mais de 45,5 mil denúncias de violência contra mulheres por meio do Canal Ligue 180. Um aumento de 23% em relação ao mesmo período de 2025. Em outras palavras, mais mulheres estão denunciando, especialmente após a explosão de casos de feminicídio e sua ampla repercussão na mídia. Além disso, a pesquisa Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha, divulgada em 2025, aponta que 21,4 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência nos 12 meses anteriores ao levantamento.
A pesquisadora Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, do Departamento de Ciência Política e coordenadora do Grupo de Pesquisa Rede Feminina de Estudos de Violência, Justiça e Prisões, da UFMG, explica que o aumento das denúncias não significa, necessariamente, que a violência cresceu na mesma proporção, embora os índices dos crimes também tenham aumentado. Significa, antes de tudo, que mais mulheres estão procurando ajuda. “E sim, isso é um avanço.”
A escritora e pesquisadora Claudia Jordão investiga, por meio da literatura, diferentes formas de violência contra mulheres e os mecanismos que frequentemente as mantêm em silêncio. Em “Elas, mulheres”, último livro de uma tetralogia sobre o tema, Claudia apresenta histórias inspiradas em narrativas reais de vítimas de violência doméstica. Os relatos convidam leitoras a reconhecer, nomear e romper violências muitas vezes naturalizadas.
“Via minha mãe chorando na cozinha e meu pai bravo na sala. Ciscando de um cômodo a outro, eu corria pro quintal e menina barro me fazia. Ela lambuzava a cara, enlameava o corpo e tapava os ouvidos com bolotinhas de terra e água, embrulhadas em saquinhos de plástico. Não resolvia, mas abafava a gritaria.”
Estrutura patriarcal
A cena, escrita por Claudia, nasce da memória de infância de uma das mulheres e desenha apenas uma das inúmeras cenas que milhões delas – mães, esposas e filhas brasileiras – vivem diariamente. Muitas vezes, elas sequer conseguem se reconhecer como vítimas de violência. Claudia explica que a lógica da agressão começa em casa e é transmitida pela própria cultura patriarcal:
“Precisamos entender que esse padrão existe, que ele foi naturalizado e que é estrutural. Homens e mulheres foram educados dentro dessa lógica machista, patriarcal e misógina. Compreender que essa violência é estrutural é um passo fundamental para rompermos com esse ciclo”, aponta Claudia.
A partir da compreensão de que a escrita também pode ser uma ferramenta de elaboração e resistência, a escritora criou a oficina literária Elas, uma escrita de si. O espaço é coletivo e permite que mulheres escrevam suas próprias narrativas a partir do encontro com obras de outras escritoras e materiais de pesquisa sobre as engrenagens da violência de gênero. Foi nesse contexto que a professora de História Maria Paula passou a reconhecer a própria agressão que sofreu.
“Depois da morte do meu pai, meu irmão mais velho passou a determinar como deveriam ser as novas formas de organização da casa. E foi a partir daí que passei a me unir a mulheres que contribuíram enormemente para que eu percebesse que nós, mulheres, precisamos, sim, ser valorizadas.”
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Por um lado, as mulheres passaram a denunciar mais. Por outro, o amparo legal brasileiro no enfrentamento à violência ainda falha, apesar de ser referência com um dos mais robustos do mundo. A advogada Cláudia Lima explica que: “muitos juízes pedem para que haja o contraditório“. Só que”na maioria das vezes, as minhas clientes já têm a medida protetiva por violência psicológica, mas isso não é efetivado na lei“.
Para romper a lógica da violência
Claudia Jordão reafirma que a maneira como essas dinâmicas se manifestam, não apenas nas relações afetivas, mas também nas relações sociais e nas estruturas de poder, está profundamente alinhada à lógica patriarcal. E questiona: “Como a gente desconstrói essa estrutura? Questionando os padrões, questionando o machismo de todo dia.”
Ludmila acrescenta que a educação desempenha um papel fundamental. “Estamos falando de fenômenos eminentemente construídos socialmente”; portanto, transformar essa lógica é essencial. Nesse ponto, as entrevistadas concordam que “é preciso incluir os meninos nos debates” sobre padrões de comportamento e, principalmente, desnaturalizar o papel masculino como intocável, autoritário e viril.
A pesquisadora da UFMG também defende a ampliação da divulgação dos canais de denúncia, como o Disque 180, e reconhece a importância do novo Pacote Antifeminicídio. As medidas passaram a valer em 2026, além do monitoramento eletrônico dos agressores. No entanto, Ludmilla ressalta a necessidade de maior integração entre as redes de apoio e atendimento, já que a Casa da Mulher Brasileira ainda se restringe, majoritariamente, às capitais.


