Hoje, aqui no Brasil com S, a gente fala sobre a Feijoada!

Prato tipicamente brasileiro, sendo a receita mais representativa da nossa cozinha, a história sobre a feijoada possui algumas lendas e controvérsias.

Há quem diga que o prato surgiu lá nos tempos do Brasil Colônia e escravidão. Rezava a lenda que o prato que hoje é sinônimo de fartura e diversão – daquele sábado de sol, com cervejinha e samba (ou da fugidinha para almoço de trabalho da quarta-feira!) – tem uma história bem diferente do que traz a experiência atual de ser apreciada em clima de festa e animação.

Feijoada é um dos pratos mais populares no Brasil | Foto: tudogostoso.

A história da Feijoada

Quem conta essa história, diz que aquele pratão de feijão preto, acompanhado de carnes de diversas e servido com couve, arroz, farofa e laranja (pros que gostam!), foi criado em uma época em que seus ingredientes eram provenientes da escassez destinada aos escravizados. 

Que, com o resto dos porcos que eram consumidos pelos senhores (como orelha, pata e rabo), os escravos criaram um novo prato que carrega em seu sabor o histórico de resistência, sobrevivência e necessidade, aliados à criatividade, ao reaproveitamento e à reinvenção. 

Maaaas… pesquisadores e historiadores dizem que a história não é bem assim e que essa é uma visão romanceada das relações sociais e culturais da escravidão no país. O historiador e folclorista Câmara Cascudo, por exemplo, dizia que esse tipo de prato é milenar e remonta possivelmente da área mediterrânica à época do Império Romano. 

Feijão preto e farinha de mandioca

Pratos similares, que misturam diversos ingredientes em uma só panela, seriam o cozido português (só que este é com feijão branco), o cassoule francês, a paella espanhola, e a casouela e o bollito misto italianos.

Mas a feijoada brasileira tem – com certeza – as especificidades da nossa culinária, como o feijão preto e a farinha de mandioca, que dão a nossa cara e o nosso sabor ao prato típico.

Outras duas coisas que Câmara Cascudo questionava sobre a história dos tempos de Brasil Colônia é que: primeiro, os senhores não desprezavam essas carnes e os escravizados comiam basicamente só feijão com farinha.

Segundo que, sendo boa parte dos africanos seguidores do islamismo, os escravos não deviam incluir a carne de porco no seu prato, já que a religião impedia o seu consumo.

A alimentação no Brasil colonial

Paula Pinto e Silva, autora do livro Farinha, “Feijão e Carne-Seca – Um Tripé Culinário no Brasil Colônia”, diz – sobre as partes do porco que teoricamente eram descartadas aos escravizados:

“Naquele tempo, essas partes do animal nem eram consideradas menos nobres. Cabeças, rabos e patas eram disputados como iguarias, até porque a carne não era alimento comum nem na mesa dos senhores. Os séculos 16 a 18 foram marcados pela escassez de alimentos e não podia haver desperdício.”.

Ela conta que a dieta dos escravizados nem era tão diferente da dos senhores. A alimentação no Brasil colonial era muito pobre, em razão da agricultura e do transporte bastante deficientes e do alto preço dos produtos vindos de Portugal.

E os donos do poder não podiam deixar os escravizados à míngua, ou eles não teriam forças para trabalhar. “Assim, ricos e pobres comiam basicamente a mesma coisa: um angu feito de farinha de mandioca e água, carne-seca, feijão, milho e algumas frutas, como coco e banana.”

Tanto Câmara quanto Patrícia dizem que a feijoada teria então se desenvolvido só no final do século XIX, em restaurantes cariocas, frequentados pela elite escravocrata do Brasil.

Brasil: Feijoada como prato principal 

Já o sociólogo Carlos Alberto Dória conta que a propagação da ideia da feijoada como prato nacional seria consequência das ações dos modernistas para construir uma identidade nacional brasileira.

A feijoada seria um dos signos da brasilidade, caracterizada pelo tema da antropofagia, da deglutição cultural que permeou a formação da nação brasileira.

Mário de Andrade apresentou essa perspectiva no famoso livro “Macunaíma”, em uma cena que remete a uma alegoria da cozinha nacional e das diversas etnias que entraram em contato no Brasil. 

Verdade ou lenda, é curioso que a história do prato que – nos dias de hoje – é um dos maiores cartões postais gastronômicos do Brasil e virou uma verdadeira paixão nacional, sinônimo de festa e fartura, nos faça pensar um pouco sobre a história do nosso país e seu acesso, ou não, aos alimentos.

E você, já refletiu sobre o assunto?

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