Jeovanna Vieira: “Quem é Virgínia e quem me mordeu”

Jeovanna Vieira
12:30 21.08.2024
Autor

Jeovanna Vieira

Escritora
Arte e cultura

Jeovanna Vieira: “Quem é Virgínia e quem me mordeu”

Jeovanna Vieira estreia como colunista do site Novabrasil

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- 21.08.2024 - 12:30
Jeovanna Vieira: “Quem é Virgínia e quem me mordeu”
Foto: Divulgação.

Peço licença pra chegar. Antes de falar de Virgínia mordida, preciso me apresentar. Não dizer meu nome, de onde eu vim, o que eu estudei, porque isso tudo vai estar em algum canto por aqui.

Acho mais pertinente me apresentar diante da minha estreia como romancista: quem sou eu diante de Virgínia. Eu tenho dedos pra falar das circunstâncias da feitura deste livro.

Tudo era urgente em 2021, afinal, estávamos (ou pelo menos eu estava), na iminência do fim da aventura humana na terra, que não se confirmou.

Asmática, pessimista e informada, dei um jeitinho de adiar o fim do meu mundo e mover meu hiperfoco — que estava concentrado na contagem diária de mortos pela Covid-19 e na condução criminosa da crise sanitária —, para as oficinas de escrita literária: me refugiei nos livros e no desejo mais pueril de escrever para combater o medo da morte.

Enclausurada na pandemia comecei um romance, ele orbitava num fato ocorrido comigo e me colocou em perspectiva sobre o que é ser filha, me modulou na condição de mãe e mulher.

A história, na qual eu trabalhava, foi escanteada quando M., minha amiga-irmã, tomou coragem de me contar o que estava passando com seu então namorado. Era tudo tão terrível, íntimo, assustador e universal. A história da minha vida se tornou insignificante diante de tanto horror.

M. estava sendo submetida à violência doméstica, física e patrimonial. E por mais terríveis que fossem todos os fatos, o que mais me atordoou, mais até que as violações ao seu corpo ou a sua conta bancária, foi encará-la e não reconhecê-la através daquele olho fosco. Identifiquei ali o crime mais traiçoeiro dentre os cometidos em um relacionamento de quebra de confiança, aquele que faz a vítima se perder de si.

Diante de um caso de violência psicológica, abri um novo arquivo e comecei a me vingar do dementador. Na primeira folha, copiei uns versos de Waly Salomão, entre eles, “escrevo como quem morde”, e isso me deu um norte. Para começar, reescrevi uma cena relatada por M., baseada em um boletim de ocorrência, e a partir daí, me veio o título do livro e o desejo de escrever as mortes de Henrí. As mortes, no plural.

O curioso é que eu acreditava que ele era meu alvo, mas com a caneta em riste, fui acessando minhas próprias

passagens, algumas concretadas por um desejo irremediável de esquecer, e assim, descobri que Henrí, o namorado da nossa protagonista, era na verdade um bode expiatório dos homens que vinham machucando e subjugando mulheres da minha geração quase inteira.

Quando matei Henrí e li as cenas para M., ela gargalhou e pediu, “Eu realmente precisava disso, escreve mais?” Foi especial porque depois de muito tempo eu consegui fazê-la rir de novo e era em cima do corpo de alguém que ela ainda amava, numa situação na qual era esperado que ela chorasse.

A morte simbólica era um crime possível, uma vingança perfeita, cometidos no lugar onde é devido, nas malhas da ficção. Eu não parei de compor essa personagem tão vil quanto patética, que é a do abusador, mas pelo menos na minha narrativa, exerci o poder de dosar seu protagonismo.

Segui encaixando umas cenas grotescas que tinha acontecido a mim, a minha mãe, a minha avó, e que eu desejo profundamente, não aconteça a minha sobrinha. Mas enquanto isso, fui construindo outras histórias em sobreposição.

Para além da história de Virgínia com o sanguessuga, me dediquei à construção das bases sólidas de amizades femininas que fazem a passagem entre a juventude e a maturidade.

A figura do boy lixo é transitória na vida das mulheres, já o amor entre nós é o eixo que dá sustento às estruturas, exatamente igual ao meu amor por M.

Veja também:

Hoje, três anos mais tarde, o livro está sendo destacado por abordar a violência psicológica e o relacionamento abusivo ou tóxico.

De onde eu vejo, Virgínia mordida é um ovo na barriga da serpente, não o enxergo como um livro temático sobre abuso, mas sim, uma ode à amizade e uma esquadrinhadura da educação amorosa e íntima que as mulheres recebem.

Se me perguntam se Virgínia mordida ou eu, na pessoa da autoria, proponho alguma discussão, respondo: precisamos questionar coletivamente a influência dos contos de fadas, dos filmes pornôs, da Igreja e do Estado, sobre as relações amorosas e concluo afirmando que nada é mais importante que incutir nas meninas a noção de amor próprio. Assim, o resto estará posto.

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Jeovanna Vieira

Jeovanna Vieira nasceu em 1985, em Vila Velha, no Espírito Santo. Formada em jornalismo, é autora do livro de poemas Deserto sozinha (Pedregulho, 2023). Virgínia mordida é seu romance de estreia, lançado pela Companhia das Letras. É mãe de Joaquim e Bento e atualmente mora nos Emirados Árabes.

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