A história da música “É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo”, de Erasmo Carlos

Lívia Nolla
10:00 05.06.2026
Autor

Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
Arte e cultura

A história da música “É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo”, de Erasmo Carlos

Hoje, no dia do aniversário do Tremendão, curiosidades de uma das cançõe mais emblemáticas do artista

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- 05.06.2026 - 10:00
A história da música “É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo”, de Erasmo Carlos
"É Preciso dar um Jeito Meu Amigo" é um clássico na voz de Erasmo Carlos | Imagem: Reprodução

Quando a gente pensa em “Ainda Estou Aqui” – primeiro filme brasileiro a ganhar um Oscar na história – é impossível não lembrar imediatamente em “É Preciso dar um Jeito Meu Amigo”, canção na voz de Erasmo Carlos que tornou-se a música tema do longa.

Hoje, no dia do aniversário do Tremendão – que estaria completando 85 anos, se não tivesse nos deixado em novembro de 2022 – vamos saber a história por trás dessa, que é uma de suas músicas mais importantes e emblemáticas.

A história por trás de “É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo”

Lançada no álbum “Carlos, Erasmo”, de 1971, “É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo” é uma parceria de Erasmo Carlos com seu amigo e parceiro mais constante (juntos, eles compuseram mais de 200 canções!): Roberto Carlos.

Depois de se tornarem ídolos de uma geração ao encabeçarem a Jovem Guarda e atingirem o auge do sucesso – com o fim do movimento, em 1968 – Roberto e Erasmo seguiram as suas carreiras. Roberto Carlos focou na música romântica e tornou-se tão popular que passou a ser chamado de Rei, sendo considerado o maior cantor do Brasil.

Erasmo Carlos começou a achar o seu caminho artístico quando compôs – junto com Roberto – as músicas “Sentado à Beira do Caminho” e “Coqueiro Verde”, com um estilo que se aproximava mais dos artistas tropicalistas, como Caetano Veloso e Gilberto Gil. 

Essas músicas foram lançadas no sexto disco de Erasmo, de 1970, considerado pelo próprio Tremendão a sua transição para uma fase muito mais madura do que a que vivia na Jovem Guarda. O artista passou a ter mais consciência das questões políticas e sociais do país e queria trazer também a psicodelia e o soul para a sua música.

Naquele ano, ele disse ao Jornal do Brasil: “Na época da Jovem Guarda a gente era muito alienado. A gente estava deslumbrado com o dinheiro que ganhava, comprando coisas que a gente queria comprar. Agora é época de consciência, dos versos apurados da poesia entendível pelo ignorante e pelo culto” 

Erasmo Carlos e Roberto Carlos, parceiros na composição de “É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo” | Imagem: Reprodução

O que acontecia é que em tempos duros de repressão – no auge da Ditadura Militar e diante da recente instauração do Ato Institucional nº 5, com o cerceamento das liberdades democráticas, de expressão e das criações libertárias – dentro da música brasileira, a turma da Jovem Guarda era considerada alienada, artistas que não se posicionaram e que estavam mais à direita ou ao centro politicamente.

Porque a gente sabe que – em tempos de ataque à democracia, como eram os tempos de ditadura – quem não toma partido nenhum ou segue omisso, acaba – involuntariamente – escolhendo um lado.

Roberto, principalmente, evitava falar de política por causa de sua imensa popularidade no Brasil inteiro, mas ele era cobrado para se posicionar  sobre o assunto, seja em suas músicas ou em suas entrevistas, tanto pelo meio artístico quanto pela imprensa. E Roberto e Erasmo também não eram tão letrados politicamente quanto outros artistas.

Em uma entrevista ao jornal Folha de São Paulo em 1970, o jornalista perguntou para Roberto Carlos se ele tinha consciência das suas obrigações de dar aos jovens algo mais do que simples ritmo e movimento, principalmente pelo acesso que ele tinha a uma faixa imensa desses jovens.

Roberto respondeu assim: “Olha eu gostava de curtir Bob Dylan falando dos problemas que ele falava, das músicas de protesto que ele fazia. Mas talvez não fosse um o gênero de música ou não fosse um negócio que eu me adaptasse bem cantando. Mas, sabe, eu sou bem preocupado com o problema da pobreza, da injustiça, eu fico muito chateado com essa   história de perseguição dos hippies, etc.”.

Por outro lado, tínhamos os artistas Tropicalistas como Gil, Caetano, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes – junto com  aqueles cantores de protesto, mais nacionalistas, como Geraldo Vandré, Chico Buarque e Edu Lobo que enfrentavam diretamente o regime militar por meio de suas letrase tinham atitudes libertárias que incomodavam o regime e – por isso – sofreram forte censura e perseguição. 

Com o AI-5, Caetano Veloso e Gilberto Gil – já grandes ídolos de uma geração e líderes do movimento Tropicalista – foram presos em novembro de 1968 (acusados injustamente de terem desrespeitado o hino nacional durante um de seus shows) e, depois, obrigados a se exilar em Londres.

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Caetano Veloso e Gilberto Gil na época da Tropicália | Imagem: Reprodução

Quando Roberto Carlos acordou e ele e Erasmo fizeram uma das músicas mais bonitas de sua parceria

Em 1969, Roberto Carlos foi para Londres para ver com os próprios olhos o que acontecia com as pessoas consideradas subversivas pelo regime. Lá, visitou Caetano (de quem era muito amigo) e Gil e ficou profundamente tocado pelo encontro com os baianos.

Foi ali que Roberto finalmente acordou para as torturas, prisões, sequestros, mortes, enfim, sobre o estado que o país se encontrava nos tempos violentos da ditadura militar.

O Rei então voltou para casa pensando naquilo e comentou com o parceiro Erasmo Carlos como é que podia pessoas  tão sensíveis serem mandadas embora do seu país. Foi assim, logo que voltou de Londres, que Roberto escreveu – junto com Erasmo – uma outra canção muito famosa, em homenagem ao seu amigo Caetano Veloso, que estava muito deprimido no exílio: “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, sobre a qual já contamos a história aqui.

Um dia a areia branca

Seus pés irão tocar

E vai molhar seus cabelos

A água azul do mar

Janelas e portas vão se abrir

Pra ver você chegar

E ao se sentir em casa

Sorrindo vai chorar”

Como o público acreditava que se tratava de uma música de amor, Roberto e Erasmo Carlos não tiveram problema com a censura. Como forma de agradecimento à “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, Caetano compôs “Como Dois e Dois” para Roberto Carlos cantar, também falando sobre o momento duro que estava vivendo:

Meu amor

Tudo em volta está deserto

Tudo certo

Tudo certo como

Dois e dois são cinco”

Veja também:

A música também passou despercebida pelos censores da época graças à capacidade do compositor de disfarçar críticas políticas em poesia, com aparente tom de desilusão amorosa.

Foi também neste momento que Roberto e Erasmo compuseram  “É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo”. Certa noite, osdois estavam juntos compondo e começaram a falar de questões em geral do Brasil daquela época. Foi quando Roberto disse: “É preciso dar um jeito!”. E Erasmo repetiu: “É preciso dar um jeito, meu amigo”.

Roberto Carlos contou em entrevista que foi ali que ele percebeu que isso podia ser o tema de uma música. E foi o que fizeram:

Eu cheguei de muito longe

E a viagem foi tão longa

E na minha caminhada

Obstáculos na estrada, mas enfim aqui estou

Mas estou envergonhado

Com as coisas que eu vi

Mas não vou ficar calado

No conforto acomodado como tantos por aí

É preciso dar um jeito, meu amigo

É preciso dar um jeito, meu amigo

Descansar não adianta

Quando a gente se levanta quanta coisa aconteceu

Ainda Estou Aqui

Foi em 20 de janeiro deste mesmo ano em que a música foi lançada, 1971, que o engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva foi levado da sua casa no Rio de Janeiro – onde morava – para prestar esclarecimentos e nunca mais voltou. 

Quando era deputado por São Paulo, Paiva se opôs ao golpe de 1964 e teve seu  mandato cassado e se autoexilou na Iugoslávia e depois na França. Naquele ano de 71, já de volta ao Brasil, ele mantinha contatos com exilados e os militares suspeitavam que ele fazia uma ponte entre esses exilados e grupos da esquerda armada.

Sua esposa, Eunice Paiva, e uma  de suas filhas – Eliana, de quinze anos – também foram levadas. Eliana foi solta no dia seguinte, e Eunice permaneceu incomunicável durante doze dias, quando foi libertada. 

“As crianças são levadas pela mão de gente grande

Quem me trouxe até agora

Me deixou e foi embora como tantos por aí

É preciso dar um jeito, meu amigo”

É o que mostra o filme “Ainda Estou Aqui” – dirigido por Walter Salles e protagonizado por Fernanda Torres – que conta a história de Eunice e de como ela lidou com o desaparecimento do marido e lutou durante anos pelo reconhecimento da responsabilidade do Estado na sua morte.

O caso foi um dos investigados pela Comissão Nacional da Verdade, que confirmou o assassinato de Rubens Paiva cerca de quarenta anos após seu desaparecimento.

Hoje se sabe que Rubens foi morto nas dependências de um quartel militar entre 20 e 22 de janeiro de 1971. Seu corpo foi enterrado e desenterrado diversas vezes por agentes da repressão até ter seus restos jogados ao mar, na costa da cidade do Rio de Janeiro, em 1973, dois anos após seu assassinato.

Graças ao seu tom ameno e de duplo sentido, a letra de “É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo” também foi aprovada sem nenhuma ressalva pela censura.

Em “Ainda Estou Aqui” – que levou a estatueta de Melhor Filme Internacional em 2025 – a canção – que é de arrepiar na voz e nos arranjos de Erasmo Carlos – aparece nos créditos e também em uma cena inicial com a família Paiva reunida. 

É uma pena que o Tremendão não tenha vivido para ver isso. Mas sua música ajudou a contar uma parte importantíssima da nossa história!

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Lívia Nolla

Lívia Nolla é cantora, apresentadora e pesquisadora musical

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