Como ‘Qual é a Música?’ transformou sonhos em realidade

Novabrasil
19:28 19.08.2024
Música

Como ‘Qual é a Música?’ transformou sonhos em realidade

Grandes artistas fizeram parte da vitrine de talentos inesquecíveis formada por quadro do Programa do Silvio Santos

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- 19.08.2024 - 19:28
Como ‘Qual é a Música?’ transformou sonhos em realidade
Foto: Reprodução.

“Qual é a música, Pablo?”, a plateia e os telespectadores ouviam essa frase todos os domingos no SBT. Hoje, Pablo, personagem emblemático do Programa do Silvio Santos, vive entre Madrid e o Reino Unido, de onde falou com a gente sobre os 10 anos em que trabalhou com Silvio Santos (1977-1987)

Depois de trabalhar em um banco, o artista se entregou à carreira de cantor e narrador na Boca do Lixo, no bairro da Luz, que entre as décadas de 1960 e 1980 era um reduto do cinema independente brasileiro.

Quando foi convidado para integrar a equipe do Programa Silvio Santos, criou um personagem vibrante, inspirado na estética do grupo Kiss, mas com purpurinas e muitas cores em sua maquiagem, o que se tornou uma marca registrada de sua imagem.

A ideia do figurino reluzente foi de Silvio, que acreditou no potencial do artista mesmo enquanto outros achavam que não ia dar em nada. Silvio também fazia questão de ajustar o horário de Pablo para que continuasse com seus shows na noite paulistana. “O Silvio revelou muitos artistas e ele nos reconhecia. Nas outras emissoras, as pessoas pagavam para participar, enquanto no SBT, elas recebiam para estar lá”, contou Pablo.

Além de fazer as dublagens, Pablo era produtor. “Às vezes, eu estava lá organizando a fila dos candidatos do ‘Show de Talentos’ todo maquiado e de roupa brilhante, porque de lá já tinha que ir correndo para o ‘Qual é a Música’. Era uma loucura, mas a gente era uma família”, disse.

O dublador ainda se confunde com o tempo verbal para falar do “Patrão” e de como ele é/era gentil no trato, interessado em ouvir opiniões e livre para dar suas risadas tão marcantes. “Parece que a gente dá mais valor ao que passou, eu fui muito feliz lá e não quero ficar triste agora ‘tampoco*’”.

Qual é a Música?

O clima era de competição. Os participantes? Artistas, em duplas ou grupos, que disputavam para adivinhar músicas ou completar letras de canções famosas a partir de trechos tocados no piano, pistas ou até mesmo performances ao vivo. Silvio Santos criou o “Qual é a Música?” inspirado no programa americano “Name That Tune”, adicionando, claro, o seu toque de brasilidade com elementos que ressoavam com seu público.

A primeira exibição do programa foi em 1976 e rapidamente se tornou um dos quadros mais icônicos do “Programa Silvio Santos”. O formato de quiz e a participação de artistas e bandas renomadas, que se apresentavam e participavam das dinâmicas do programa, mantinham o engajamento da plateia e do telespectador lá em cima, além de promover novos talentos da música.

O Roupa Nova, por exemplo, se tornou uma presença constante nos programas de Silvio Santos. “Neste momento de tristeza, queremos deixar nossa homenagem a esse grande mestre da comunicação e do entretenimento. Silvio Santos deixa um legado que continuará a inspirar e entreter por muitos anos”.

Com um vídeo com sua participação no Show de Talentos, Alcione relembrou encontro com Silvio: “O Brasil perde seu maior comunicador de todos os tempos. Um revolucionário, exemplo de luta e trabalho. Um exímio apoiador da cultura brasileira. Hoje a TV Brasileira despede-se de um de seus maiores nomes”.

Os Paralamas do Sucesso também participaram algumas vezes do Programa Silvio Santos “sempre compartilhando de seu carisma”, postou a banda.

“Ele me acolheu como uma filha. Eu tinha 18 anos, chegava de Belém e Silvio acreditou em mim. Obrigada, ‘Senhor Televisão’. Obrigada por ter mudado a minha vida”, disse Fafá de Belém.

“Talvez nem todos saibam… mas, a primeira pessoa que nos deu oportunidade de sermos reconhecidos foi o Silvio Santos. Ainda como calouros, a nossa primeira aparição na TV foi com ele. Essa memória – que muito nos honra e nos enche de gratidão – veio forte hoje. Nos faltam palavras para homenagear o maior comunicador que já vimos”, postou a dupla Chitãozinho & Xororó.

Disputa acirrada

A dinâmica do “Qual é a Música” ajudou a popularizar a música brasileira e teve em seu rol de maiores ganhadores Ronnie Von, Silvio Brito e Gretchen. Ronnie Von acumulou 25 vitórias consecutivas, enquanto Silvio Brito e Gretchen também se destacaram com 24 e 22 vitórias, respectivamente. Essa competição entre os artistas gerava momentos hilários, especialmente quando eles tentavam se lembrar de letras ou melodias.

A disputa era tão séria que o cantor Nahim chegou a processar o SBT por alegar que não haviam computado algumas de suas vitórias, fazendo com que ficasse de fora desse top três de vencedores.

O Rei do Baião
Um vídeo em que Silvio recebe Luiz Gonzaga tem corrido a internet. Nele, a cultura nordestina ganha palco. O Rei do Baião falou sobre suas vestimentas que misturavam referências de vaqueiros e cangaceiros, além de falar sobre a música que mais lhe emocionava: Triste Partida, de Patativa do Assaré, uma música que retrata a seca da região Nordeste.

E desse jeito, Silvio Santos disseminava a cultura brasileira, além de canções que se tornaram parte do cancioneiro popular e da memória afetiva de gerações de brasileiros.

Triste Partida
Patativa do Assaré

Meu Deus, meu Deus. . .

Setembro passou

Outubro e Novembro

Já tamo em Dezembro

Meu Deus, que é de nós,

Meu Deus, meu Deus

Assim fala o pobre

Do seco Nordeste

Com medo da peste

Da fome feroz

Ai, ai, ai, ai

A treze do mês

Ele fez experiência

Perdeu sua crença

Nas pedras de sal,

Meu Deus, meu Deus

Mas noutra esperança

Com gosto se agarra

Pensando na barra

Do alegre Natal

Ai, ai, ai, ai

Rompeu-se o Natal

Porém barra não veio

O sol bem vermeio

Nasceu muito além

Meu Deus, meu Deus

Na copa da mata

Buzina a cigarra

Ninguém vê a barra

Pois a barra não tem

Ai, ai, ai, ai

Sem chuva na terra

Descamba Janeiro,

Depois fevereiro

E o mesmo verão

Meu Deus, meu Deus

Entonce o nortista

Pensando consigo

Diz: “isso é castigo

não chove mais não”

Ai, ai, ai, ai

Apela pra Março

Que é o mês preferido

Do santo querido

Senhor São José

Meu Deus, meu Deus

Mas nada de chuva

Tá tudo sem jeito

Lhe foge do peito

O resto da fé

Ai, ai, ai, ai

Agora pensando

Ele segue outra tria

Chamando a famia

Começa a dizer

Meu Deus, meu Deus

Eu vendo meu burro

Meu jegue e o cavalo

Nós vamos a São Paulo

Viver ou morrer

Ai, ai, ai, ai

Nós vamos a São Paulo

Que a coisa tá feia

Por terras alheia

Nós vamos vagar

Meu Deus, meu Deus

Se o nosso destino

Não for tão mesquinho

Cá e pro mesmo cantinho

Nós torna a voltar

Ai, ai, ai, ai

E vende seu burro

Jumento e o cavalo

Inté mesmo o galo

Venderam também

Meu Deus, meu Deus

Pois logo aparece

Feliz fazendeiro

Por pouco dinheiro

Lhe compra o que tem

Ai, ai, ai, ai

Em um caminhão

Ele joga a famia

Chegou o triste dia

Já vai viajar

Meu Deus, meu Deus

A seca terrível

Que tudo devora

Veja também:

Lhe bota pra fora

Da terra natá

Ai, ai, ai, ai

O carro já corre

No topo da serra

Oiando pra terra

Seu berço, seu lar

Meu Deus, meu Deus

Aquele nortista

Partido de pena

De longe acena

Adeus meu lugar

Ai, ai, ai, ai

No dia seguinte

Já tudo enfadado

E o carro embalado

Veloz a correr

Meu Deus, meu Deus

Tão triste, coitado

Falando saudoso

Seu filho choroso

Exclama a dizer

Ai, ai, ai, ai

De pena e saudade

Papai sei que morro

Meu pobre cachorro

Quem dá de comer?

Meu Deus, meu Deus

Já outro pergunta

Mãezinha, e meu gato?

Com fome, sem trato

Mimi vai morrer

Ai, ai, ai, ai

E a linda pequena

Tremendo de medo

“Mamãe, meus brinquedo

Meu pé de fulô?”

Meu Deus, meu Deus

Meu pé de roseira

Coitado, ele seca

E minha boneca

Também lá ficou

Ai, ai, ai, ai

E assim vão deixando

Com choro e gemido

Do berço querido

Céu lindo azul

Meu Deus, meu Deus

O pai, pesaroso

Nos filho pensando

E o carro rodando

Na estrada do Sul

Ai, ai, ai, ai

Chegaram em São Paulo

Sem cobre quebrado

E o pobre acanhado

Procura um patrão

Meu Deus, meu Deus

Só vê cara estranha

De estranha gente

Tudo é diferente

Do caro torrão

Ai, ai, ai, ai

Trabaia dois ano,

Três ano e mais ano

E sempre nos prano

De um dia vortar

Meu Deus, meu Deus

Mas nunca ele pode

Só vive devendo

E assim vai sofrendo

É sofrer sem parar

Ai, ai, ai, ai

Se arguma notícia

Das banda do norte

Tem ele por sorte

O gosto de ouvir

Meu Deus, meu Deus

Lhe bate no peito

Saudade lhe molho

E as água nos óio

Começa a cair

Ai, ai, ai, ai

Do mundo afastado

Ali vive preso

Sofrendo desprezo

Devendo ao patrão

Meu Deus, meu Deus

O tempo rolando

Vai dia e vem dia

E aquela famia

Não vorta mais não

Ai, ai, ai, ai

Distante da terra

Tão seca mas boa

Exposto à garoa

À lama e o paul

Meu Deus, meu Deus

Faz pena o nortista

Tão forte, tão bravo

Viver como escravo

No Norte e no Sul

Ai, ai, ai, ai

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