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Especial Emicida, parte 3
Especial Emicida, parte 3
Vamos para mais um Especial Emicida? Em homenagem ao seu aniversário (17 de agosto), a Novabrasil fez uma série especial para celebrar a história e carreira de Emicida, um dos maiores nomes da história da MPB. Se perdeu as últimas matérias, clique aqui. Nesta matéria, você vai ler sobre a projeção do multiartista na mídia … Continued
Vamos para mais um Especial Emicida? Em homenagem ao seu aniversário (17 de agosto), a Novabrasil fez uma série especial para celebrar a história e carreira de Emicida, um dos maiores nomes da história da MPB. Se perdeu as últimas matérias, clique aqui. Nesta matéria, você vai ler sobre a projeção do multiartista na mídia e trabalhos importantes de sua carreira como Sua Mina Ouve Meu Rep Tamem e Emicídio.
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Emicida, a projeção
A mídia
A primeira mixtape de Emicida vendeu mais de 10 mil cópias no primeiro ano de lançamento e o artista foi projetando-se cada vez mais. Começou a chamar a atenção – não só do público – mas também da crítica e da mídia. E entendeu que precisava também ir à mídia para fazer essa revolução que estava prestes a acontecer. Sua primeira aparição foi no Programa Altas Horas, de Serginho Groismann. Depois, foi ao Programa do Jô.
Naquela época, o mercado do rap estava estagnado e passava por uma ânsia de renovação. Emicida foi um divisor de águas: trouxe popularidade para o rap, colocando-o em todos os lugares. Passou a falar para mais pessoas, mesmo quem não tinha a mesma realidade e a bagagem que ele e que quem fazia rap, para que o Brasil pudesse ler o Brasil.
Emicida sofreu muitas críticas de uma galera mais radical do rap, que dizia que ele havia se rendido ao sistema, indo para a grande mídia, traindo a ideologia antissistema. Outros também o julgavam por misturar o rap com outros gêneros brasileiros como o funk e o samba. Mas, muitos – como os seus grandes ídolos do Racionais MC’s – o acolheram e apoiaram em seu movimento, abrindo espaço para Emicida.
“A gente tem que falar pra quem precisa, não pra quem concorda”, diz Emicida.
“Já que o rei não vai virar humilde / Eu vou fazer o humilde virar rei.”, TRIUNFO, 2008.
O primeiro rapper brasileiro a fazer um show no Theatro Municipal de SP
Cabe aqui uma contextualização histórica, que Emicida traz brilhantemente em seu documentário AmarElo, é Tudo pra Ontem, de 2020, quando ele foi o primeiro rapper brasileiro a fazer um show no Theatro Municipal de São Paulo fora da Virada Cultural. Um lugar que foi constantemente negado à população negra ao longo da história.
“Fazer um show como esse, no Municipal, é a nossa forma de dizer pra todas as pessoas que tem uma origem que nem a nossa, que esse lugar é deles. Que a gente precisa ocupar esse tipo de espaço e – por que não? – todos os ambientes que nos foram negados ao longo da história desse país.” narra Emicida. “Não tem uma viga, uma ponte, uma rua, um escritorio, um predio importante que nao teve um negro trabalhando pra estar de pé hoje”.
E vai além: em AmarElo, o artista conta sobre um samba enredo do compositor, cantor e militante negro paulista Geraldo Filme, que fala sobre Tebas, arquiteto negro e antes escravizado, que foi considerado decisivo na renovação estilística pela qual São Paulo passou no século 18. Tebas construiu as torres da capela da Igreja do Carmo e da antiga Catedral da Sé. Ainda foi responsável pela pedra fundamental do Mosteiro São Bento.
O metrô São Bento
Emicida faz um paralelo, contando que São Bento também é uma pedra fundamental da história do hip hop. Foi lá que tudo começou. O metrô São Bento, no centro de São Paulo, era o ponto de encontro da música rap, do break e do grafite, lá no fim dos anos 80, inspirados pelo movimento que acontecia já nos Estados Unidos.
O rap se espalha pela periferia do Brasil e se torna um movimento de conscientização a respeito do racismo e da desigualdade social. Mesmo com o descaso da indústria, a música rap vende milhões de cópias no país e se transforma no primeiro grande veículo que conecta as classes operárias às ideias dos intelectuais pretos brasileiros e é vinculada a todas as conquistas da classe trabalhadora desde então.
AmarElo conta que o rap é muito mais do que denúncia e, na busca por sua essência, se funde ao universo da música popular brasileira – principalmente do samba, de forma tão intensa, que redefine a existência de ambas. A mensagem é clara: podemos ser mais.
A despeito do racismo estrutural braisleiro, essa cultura emancipa jovens no Brasil inteiro, inclusive economicamente, isso somado ao ambiente digital que possibilita que artistas independentes conquistem feitos raros ou até inéditos até então, como foi com Emicida.
“Eu não sou o alvo do racista, eu sou o pesadelo dele”, declara.
“No caminho da luz todo mundo é preto”), PRINCIPIA, 2019.
O Brasil que deu certo
O documentário de Emicida conta a história do rap, exaltando outros movimentos que deram um salto sem volta na arte, falando de como o samba – formado em sua maioria por mulheres e homens pobres, quase todos pretos e mestiços – e tão marginalizado, promoveu a presença do que o escritor Machado de Assis chamou de “Brasil real”, ou o que Emicida chama de “o Brasil que deu certo”: ocupou espaços nunca imaginados e ganhou o mundo com nomes como Donga e Pixinguinha.
“O rap vem de uma grande árvore e, se for buscar na raiz, vamos encontrar o samba”, diz Emicida.
Com o passar do tempo, artistas como Rappin Hood, Marcelo D2 e Racionais MC’s foram se aventurando nessa fusão – a mistura do rap com o samba – e diluindo a coisa estadunidense, mostrando que é impossível passear pelo caldeirão cultural do Brasil sem ser influenciado pela alma local.
AmarElo faz um paralelo com a Semana de Arte Moderna de 1922, que abalou as ideias do passado com os modernistas – formados em sua maioria por homens brancos da burguesia, mas não só – que reivindicavam uma arte com as nossas cores, do nosso Brasil.
Emicida conta então, que sua ambição lhe diz que precisamos subir um degrau, e que o amadurecimento desse movimento todo pede que a gente supere a fusão e se aventure na elaboração de um novo ritmo, de uma nova linguagem artística, que com AmarElo ele tem chamado de neo-samba.
A rap como transformação
E o rap se transforma junto com o mundo. É uma música viva e questionadora. O rap nacional representa a possibilidade de uma transformação na juventude, que vai transformar o nosso país e o mundo. Com seu rap, Emicida propõe reflexões sobre que tipo de humanidade queremos construir.
Bom, com o sucesso da primeira mixtape, Emicida – sempre à frente do seu tempo – possibilitou que toda uma geração sonhasse, buscando forças internas para transformar o impossível em possível.
Eu sonho mais alto que drones / Combustível do meu tipo? A fome / Pra arregaçar como um ciclone / Pra que amanhã não seja só um ontem / Com um novo nome), AMARELO, 2019.
Pra Quem Já Mordeu Cachorro Por Comida conta com outros sucessos além de Triunfo – como Ainda Ontem, E.M.I.C.I.D.A, Ooorra…(A Que Deu Nome a Mixtape) e Sozim – e com a participação de parceiros constante de Emicida até hoje, como o DJ Nyack, Nave, Projetonave, Rael da Rima e Rashid, além de seu irmão Fióti.
Em fevereiro de 2010, seu segundo trabalho veio em formato de EP, com o título Sua Mina Ouve Meu Rep Tamem, e traz seis faixas, entre elas Quer Saber, Chega Aí e Volúpia.
A foto da capa foi tirada por Ênio César em um show do Emicida e mostra uma menina branca assistindo à performance do artista. A arte foi feita por Marcelo Lima, quadrinista que também fez a capa da primeira mixtape, junto com Emicida.

Emicídio
Em setembro do mesmo ano, Emicida lança outra mixtape, com mais 18 músicas, chamada Emicídio. Ela conta com a canção homônima – que conta a história de Emicida e as dificuldades que sofreu para chegar aonde está:
“Eu vim, independente do que diriam
Sem pensar em pra onde as coisas iriam
Vim, não pra agradar os MC, na decência
Tocado de quando a causa é maior do que a existência (…)
Invisível, tipo porteiro, empregada
O vulto que corta as madrugadas
Preto, como Senhor Popo
E não tem ofensa pior que me ver no topo”
EMICÍDIO, 2010
Outros sucessos de Emicídio são: Avua Besouro, Que Se Faz, Rua Augusta, Então Toma! e Sabe.
Semelhante ao que aconteceu no lançamento do seu primeiro trabalho, sua gravadora, a Laboratório Fantasma estipulou o preço máximo de R$ 5 para cada disco da nova mixtape e convocou via internet representantes para a venderem em todos os locais do Brasil.
Também em 2010, Emicida apresentava um quadro no programa Manos e Minas, da TV Cultura, considerado um dos principais porta-vozes do hip hop e do rap no Brasil, e um dos pioneiros desses gêneros na televisão brasileira.
Em 2011, também apresentou o programa Sangue B, na MTV, com foco na black music, em que ia às ruas para desvendar talentos e tratar das várias vertentes como o R&B, soul, funk, reggae e também os reflexos nacionais que o samba e os bailes funk causaram na sociedade.
Como você já sabe, logo logo temos mais uma matéria da série Especial Emicida – que narra a história e carreira de Emicida, o multiartista que marcou a história da música brasileira.
Emicida é um dos grandes nomes que marcarão presença no Festival Novabrasil 2022, juntamente com Rael, Drik Barbosa e Fióti (Lab Fantasma). Para saber mais sobre o FNB22, clique aqui.
Leia a matéria anterior:
https://novabrasilfm.com.br/notas-musicais/brasilidade/especial-historia-de-emicida-parte-2/
por Lívia Nolla


