Ouça ao vivo
Ouça ao vivo
No ar agora

Aniversário Waldick Soriano, João da Baiana e Johnny Alf

Lívia Nolla
15:00 13.05.2024
Autor

Lívia Nolla

Pesquisadora Musical
Música

Aniversário Waldick Soriano, João da Baiana e Johnny Alf

Você conhece esses três nomes da MPB que fariam aniversário nesta semana? Vamos te contar um pouco sobre a trajetória de cada um deles

Lívia Nolla - 13.05.2024 - 15:00
Aniversário Waldick Soriano, João da Baiana e Johnny Alf
Aniversário Waldick Soriano, João da Baiana e Johnny Alf

Waldick Soriano, João da Baiana e Johnny Alf. Você conhece esses três nomes da MPB que fariam aniversário nesta semana?

Vamos te contar um pouco sobre a trajetória de cada um deles e sua importância para a música popular brasileira.

Waldick Soriano

É impossível você ser brasileiro e brasileira e nunca ter escutado esta música: “Eu não sou cachorro não, pra viver tão humilhado!”.

Waldick Soriano nasceu em 13 de maio de 1933, no município de Caetité, no interior do Estado da Bahia e foi um dos maiores ícones da música brega e romântica brasileira. 

O cantor e compositor foi peão, motorista de caminhão e garimpeiro de ametista até os 25 anos de idade. Nesse período, assistindo a filmes de faroeste, tornou-se admirador do personagem Durango Kid, do qual incorporou – em suas apresentações – a imagem do chapéu e roupa pretos, que adaptou para o paletó, à moda dos malandros de cabaré, complementando com seu eterno óculos escuros. 

Waldick mudou-se para São Paulo, em 1958, para tentar a carreira de cantor ou de artista de cinema, outro sonho que tinha. Enquanto buscava oportunidades nas rádios, trabalhou como faxineiro, servente de pedreiro, motorista de caminhão e engraxate. 

Waldick Soriano, em 2007 – Foto: Ana Ottoni (Folhapress)

Em 1961, lançou o seu primeiro LP, Quem És Tu, trazendo o sucesso da música título e também a canção Só Você.

Sua marca registrada era, para além das vestimentas, seu estilo vocal – inspirado no cantor cubano Bievenido Granda – e o repertório repleto de boleros e sambas-canção focados em canções românticas e que traziam temas como a famosa “dor-de-cotovelo”.

Criticado pelos intelectuais e amado pelo povo, Waldick Soriano lançou mais de 45 discos ao longo de mais de 55 anos de carreira.

Em 1972, lançou no álbum Ele Também Precisa de Carinho, o maior sucesso de sua carreira, a canção Eu Não Sou Cachorro Não, que virou expressão famosa no país inteiro e jargão característico da música brega. 

O pesquisador Paulo César de Araújo, autor do livro Eu Não Sou Cachorro Não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar, de 2002, afirmou que a canção está na memória coletiva nacional da mesma forma que sucessos como Asa Branca (de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), Mamãe eu Quero (Jararaca e Vicente Paiva) e Luar do Sertão (João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense)

Waldick deu voz ao sentimento do brasileiro oprimido, deserdado, humilhado. A obra dele foi desprezada pelas elites intelectuais, mas acho que será mais bem avaliada”.

Outros grandes sucessos do artista foram canções como, por exemplo: Tortura de Amor, Paixão de um Homem e Se Eu Morresse Amanhã.

Waldick Soriano viveu seus últimos anos em Fortaleza, mudando-se para o Rio de Janeiro em abril de 2008, onde faleceu alguns meses depois, em função de um câncer de próstata.

João da Baiana

Nascido no Rio de Janeiro, em 17 de maio de 1887, João da Baiana foi um dos pioneiros do samba. Cantor, compositor, passista e pandeirista, ele é conhecido por ter incluído o pandeiro no samba, quando o instrumento ainda era usado apenas em orquestras. Isso, quando tinha só oito anos de idade.

Quando criança, o artista frequentou as rodas de samba que aconteciam clandestinamente nos terreiros cariocas, participou de blocos carnavalescos e foi amigo de outros nomes importantes da nossa música, como Donga e Heitor dos Prazeres.

A partir de 1923, passou a compor músicas e a frequentar programas de rádio e, em 1928, foi contratado como ritmista. Além dos pandeiros, sua especialidade era o prato e faca, populares nas gravações da época. 

João da Baiana | Foto: Pedro de Moraes

João da Baiana integrou alguns dos pioneiros grupos profissionais de samba, entre eles o Conjunto dos Moles, Grupo do Louro, Diabos do Céu e Grupo da Guarda Velha, conjunto organizado por Pixinguinha, que reuniu alguns dos maiores instrumentistas brasileiros da época e acompanhou grandes cantores como Carmen Miranda, Sílvio Caldas e Mário Reis.

Algumas das composições mais importantes de João da Baiana foram canções como, por exemplo: Pelo Amor da Mulata, Mulher Cruel, Pedindo Vingança e O Futuro É uma Caveira. Donga e Pixinguinha foram seus parceiros constantes.

Participou também da famosa gravação organizada por Heitor Villa-Lobos, a bordo do navio Uruguai, em 1940, para o disco Native Brazilian Music, do maestro Leopold Stokowski, com sua música Ke-ke-re-ké. 

Em 1968, João da Baiana gravou – com Pixinguinha e Clementina de Jesus – o histórico LP Gente da Antiga, produzido por Hermínio Bello de Carvalho, no qual lançou, entre outras, as canções ancestrais Cabide de Molambo e Batuque na Cozinha, depois regravada por Martinho da Vila

Em 1972, João da Baiana passou a viver na Casa dos Artistas, em Jacarepaguá, onde faleceu dois anos depois, aos 87 anos. Seu filho, Neoci, também era músico e participou da fundação do grupo Fundo de Quintal.

Johnny Alf 

Johnny Alf teve uma importância imensa para a história da música popular brasileira, sendo colocado pelo jornalista, escritor e biógrafo Ruy Castro – por exemplo – como “o verdadeiro pai da bossa nova”, tendo influenciado nomes como João Gilberto, Tom Jobim e Luiz Bonfá.

Seu nome verdadeiro era Alfredo José da Silva e ele nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de maio de 1929. Começou seus estudos de piano aos nove anos de idade, com uma amiga da família para a qual sua mãe trabalhava como empregada doméstica.

Após o início na música erudita, Johnny Alf começou a se interessar pela música popular, principalmente trilhas sonoras do cinema norte-americano e por compositores como George Gershwin e Cole Porter.

Aos 14 anos, formou um conjunto musical com seus amigos de Vila Isabel. Depois, entrou para o Instituto Brasil-Estados Unidos (IBEU), no centro do Rio de Janeiro. Foi uma amiga norte-americana que sugeriu o nome de Johnny Alf: “Johnny” por ser um nome popular nos Estados Unidos, e “Alf” que era seu apelido na escola.

Em 1949, o artistaentrou para o Sinatra-Farney Fan Club, voltado para a música do estadunidense Frank Sinatra e do brasileiro Dick Farney. Em 1952, Dick Farney e Nora Ney contratam Johnny como pianista da nova Cantina do César, de propriedade do radialista César de Alencar, iniciando assim a carreira profissional. 

Johnny Alf | Imagem: Arquivo Nacional

Foi ali que a música de Alf começou a florescer e seu som desenvolveu uma modernidade impressionante. Ele costumava se apresentar por horas e horas, e os ouvintes imploravam para que não parasse de tocar.

Quando começou a enveredar para a música popular e a tocar em bares e boates, Johnny Alf deixou de receber o apoio dos empregadores da sua mãe.

Em 1953, suas primeiras composições entraram para o álbum de estreia de uma atriz e Rainha do Rádio, que estava se lançando como cantora, Mary Gonçalves. No mesmo ano, foi gravado seu primeiro disco em 78 rpm, com a canção Falsete, de sua autoria, e De Cigarro em Cigarro (de Luís Bonfá)

Durante os anos 50, Johnny Alf se apresentava em diversas boates do Rio de Janeiro – como o famoso Beco das Garrafas e o Little Club – ousando misturar em seu processo criativo referências da música clássica e popular, estrangeira e nacional. 

A fonte de sua inspiração se encontrava na música de Chopin, Debussy, Nat King Cole, Stan Kenton e nos notáveis brasileiros Custódio Mesquita e Francisco Alves. Sua música atraiu os ouvidos ditos mais intelectualizados para os piano bars do bairro de Copacabana.

Antônio Carlos Jobim e João Gilberto – dois dos nomes mais famosos da bossa nova – estavam entre os fiéis frequentadores que ficaram surpresos com músicas como Rapaz de Bem, uma das primeiras composições profissionais de Alf, que – com a melodia linear, o jeito suave de cantar, uma série de escalas pouco convencionais e uma dissociação rítmica de bateria e baixo – foi, com certeza, a canção precursora da Bossa Nova, inspirando os aqueles dois jovens músicos que seriam os futuros representantes do movimento.

Além de se apresentar no Bottle’s Bar, junto com o conjunto musical Tamba Trio, Sérgio Mendes, Luís Carlos Vinhas e Sylvia Telles, Johnny Alf também foi professor de música no Conservatório Meireles, de São Paulo.

Ele participou do III Festival da Música Popular Brasileira – em 1967, na TV Record – com a canção Eu e a Brisa, tendo como intérprete a cantora Márcia. A canção foi desclassificada, porém tornou-se um dos maiores sucessos da carreira de Johnny Alf, ao lado de Rapaz de Bem, Céu e Mar e Ilusão à Toa.

Em seis décadas de carreira, Johnny Alf compôs mais de oitenta canções, foi gravado por nomes como Caetano Veloso e Chico Buarque e lançou mais de 10 álbuns, sendo o primeiro em 1961 e o último em 2006.

Embora Alf nunca tenha alcançado o estrelato, as lendas da Bossa Nova sempre o viram como uma referência musical. Jobim não apenas o chamava de “Genialf” (uma combinação de “gênio” e “Alf”), mas se sentiu tão inspirado por Rapaz de Bem, que compôs Desafinado, uma das músicas mais famosas da bossa nova. 

Quando João Gilberto percebeu que as síncopes incomuns de Alf o lembravam da batida do tamborim, ele disse que finalmente encontrara o que estava procurando.

Em 2008, na mostra sobre os 50 anos da Bossa Nova, Alf teve um encontro virtual com nomes como Tom Jobim, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Stan Getz, todos já falecidos. O artista tocava piano com as projeções dos colegas, para um filme que foi exibido ao longo do evento. 

Segundo o curador da mostra, Marcello Dantas, Johnny Alf – que era preto, de família pobre e gay (embora na época ele não falasse abertamente sobre isso, também não escondia de ninguém) – foi “o caso clássico do artista que não teve o reconhecimento à altura de seu talento.”. Principalmente na Bossa Nova, um ambiente branco e bastante elitista.Para Dantas,Alf foi um gênio e teve participação na história da nossa música”.  

Alaíde Costa, a cantora favorita de Johnny Alf, disse que o racismo na Bossa Nova sempre foi velado, a ponto de pretos como ela e Alf nem perceberem que estavam enfrentando discriminação:

“Quando o movimento começou, eu já era profissional. Era convidada para os encontros porque podia ajudar o movimento de alguma maneira”, disse ela em uma entrevista. “Mas, quando a bossa nova explodiu, senti que não era mais necessária”. 

Johnny Alf nos deixou em março de 2010, aos 80 anos, em decorrência de um câncer de próstata.

por Lívia Nolla

Tags relacionadas

aniversário brasilidade curiosidades mpb joão da baiana Johnny Alf Livia Nolla MPB música Música Brasileira música popular brasileira waldick soriano
< Notícia Anterior

"Muitas escolas sumiram no RS. É uma dificuldade generalizada", diz Curi

13.05.2024 12:56
"Muitas escolas sumiram no RS. É uma dificuldade generalizada", diz Curi
Próxima Notícia >

Inês de Castro: "Não somos prateados"

13.05.2024 15:09
Inês de Castro: "Não somos prateados"
colunista

Lívia Nolla

Suas redes

© 2024 - novabrasil - Todos os direitos reservados
Com inteligência e tecnologia: PYXYS - Reinventing Media Business