‘A Tábua de Esmeralda’: 50 anos no topo da discografia de Jorge Ben

Lucas Nobile
10:00 25.07.2024
Autor

Lucas Nobile

Jornalista e crítico musical
Música

‘A Tábua de Esmeralda’: 50 anos no topo da discografia de Jorge Ben

Álbum antológico de um artista que hoje, com mais de 60 anos de carreira e ainda na ativa, permanece influente, porém inimitável

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- 25.07.2024 - 10:00
‘A Tábua de Esmeralda’: 50 anos no topo da discografia de Jorge Ben
Jorge Ben Jor | Imagem: Reprodução

Dos muitos reducionismos aplicados à música popular brasileira – como os que tentam encaixotar João Gilberto à bossa nova, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé à tropicália, Chico Buarque e Edu Lobo à canção de protesto, Roberto e Erasmo Carlos à Jovem Guarda –, poucos são tão limitados e simplórios quanto à associação de Jorge Benjor ao samba-rock.

Desde que despontou em 1963 com seu primeiro disco de 78 rotações, contendo “Mas que nada” no lado A e “Por causa de você, menina” no lado B, e com seu primeiro LP, “Samba esquema novo”, lançado pela Philips no mesmo ano, Benjor nunca se filiou a nenhum movimento. Talvez justamente por isso ele esteja acima de qualquer gênero ou estilo musical.

Hoje, com mais de 60 anos de carreira e ainda na ativa, ele permanece influente, porém inimitável. Seja por suas composições, seja por sua maneira de cantar, seja pela sonoridade de seu violão – há décadas substituído pela guitarra –, tudo é absolutamente único na música de Jorge.

Quando entrou nos estúdios da Phonogram, no Rio de Janeiro, no início de 1974 para gravar aquele que se tornaria seu disco mais cultuado, “A Tábua de Esmeralda”, Jorge Ben somava 10 álbuns lançados. No mais recente deles, “10 Anos Depois”, de 1973, o artista havia regravado em pot-pourris 21 composições de sua autoria.

Com um apanhado de sucessos como “Chove Chuva”, “A Minha Menina”, “Que Maravilha”, “País Tropical”, “Fio Maravilha”, “Taj Mahal”, “Que Pena (Ela Já Não Gosta Mais de Mim)”, àquela altura ele já havia escutado suas criações interpretadas também por artistas das mais variadas vertentes.

De Os Mutantes a Erasmo Carlos, de Elis Regina a The Fevers, de Maria Bethânia ao Conjunto Nosso Samba, passando por Sergio Mendes, Gal Costa, Toquinho, Os Originais do Samba, Marcos Valle, Azymuth, Gilberto Gil, Trio Mocotó, Caetano Veloso e Wilson Simonal, num invejável sem-fim de releituras. Nos palcos de países do exterior, as apresentações eram praticamente anuais.

Capa de “A Tábua de Esmeralda”. Foto: Divulgação.

Em termos musicais e poéticos, Jorge Duílio Lima Menezes nunca se afastou de suas raízes negras. Nascido em 1939 e criado no Rio Comprido, entre a Tijuca, o Salgueiro e o Estácio, no Rio de Janeiro, filho de pai branco e mãe negra, com avô materno etíope, Jorge Ben sempre fez do orgulho negro algo presente em sua discografia – exemplares disso são álbuns seus como “Negro é Lindo” (1971) e “África Brasil” (1976).

E no início de sua trajetória artística, ele definiu seu trabalho, em entrevista à Revista do Rádio, como “afro bossa nova”. Era, por essência, muito mais do que isso.

Na primeira reunião para apresentar a linha mestra de “A Tábua de Esmeralda” para a Philips – gravadora pela qual Jorge Ben havia feito nove de seus dez discos até então, com exceção de “O Bidu – Silêncio no Brooklyn”, lançado em 1967 pela Rozenblit –, a diretoria recebeu a proposta com desconfiança. Mas acabou cedendo.

A intenção de Jorge era traduzir em canção um universo temático que estava em alta entre a juventude dos anos 1960 e 1970, mas que ele já vinha pesquisando com seriedade havia tempos: a Alquimia.

Os assuntos de interesse de Jorge Ben eram muitos. Musicalmente: o samba, evidentemente, o rock (ao qual ele já tinha acesso a discos importados desde cedo), os ecos da bossa nova, o iê-iê-iê.

Para além da música: a Filosofia em geral, São Tomás de Aquino (citado na faixa “Eu Vou Torcer”), as vivências no subúrbio do Rio, literatura russa (ainda na juventude, ele já havia lido, por exemplo, os dois volume de “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoievski) e o tratado hermético escrito pelo faraó egípcio Hermes Trismegisto, traduzido por Fulcanelli, autor do livro “O Mistério das Catedrais”, que fez a cabeça do jovem Jorge.

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Acompanhado por J. T. Meirelles e Os Copa 5, com arranjos de cordas de Osmar Milito, Darcy de Paulo e Hugo Bellard e produção de Paulinho Tapajós, Jorge Ben apresenta em música um apanhado dos conceitos do tratado ao longo de 12 faixas em pouco mais de 40 minutos de seu “A Tábua de Esmeralda”.

Exemplo máximo das citações é a faixa de que deriva o título do álbum, “Hermes Trismegisto e Sua Celeste Tábua de Esmeralda”, em que Jorge encadeia uma série daqueles aforismos como “o que está embaixo [os humanos] é como o que está no alto [as divindades]” ou “o sol é seu pai, a lua é sua mãe” e, também, “tu separarás a terra do fogo/ e o sutil do espesso/ docemente, com grande desvelo, pois ele ascende da Terra, e descende do céu/ e recebe a força/ das coisas superiores/ e das coisas inferiores/ tu terás por esse meio a glória do mundo/ e toda obscuridade fugirá de ti”.

Foto: Arquivo Nacional.

As ilustrações da capa, do francês Nicolas Flamel (1330-1418), foram escolhidas por Jorge durante uma passagem por Paris em 1973. Desta viagem, em que o compositor teve contato com estudiosos alquimistas e também visitou a casa em que Flamel viveu – onde teria tido um alumbramento, “uma visão bonita” por ele nunca revelada, também compartilhada por Gilberto Gil, que o acompanhava na ocasião –, vieram as inspirações para as três primeiras faixas de “A Tábua de Esmeralda”: “Os Alquimistas Estão Chegando Os Alquimistas”, “O Homem da Gravata Florida (A Gravata Florida de Paracelso)” e a tão espetacular quanto existencialista “Errare Humanum Est”, em que o autor especula se “eram os deuses astronautas” e divaga sobre não sermos “os primeiros seres terrestres, pois nós herdamos uma herança cósmica”.

Além das investigações filosófico-existenciais de Ben – que mudaria seu sobrenome artístico para Benjor no fim da década de 1980 –, emergem do álbum também a espiritualidade, em “Brother” (cantada em inglês com o auxílio do coro afinadíssimo e igualmente negro dos Golden Boys, o mesmo trio que brilha na melodiosa “Minha Teimosia, Uma Arma Pra te Conquistar”), e o orgulho negro, em “Zumbi”.

Das 12 faixas de “A Tábua de Esmeralda”, duas tiveram inicialmente problemas com os censores do regime militar brasileiro por serem, digamos, salientes demais para os padrões moralistas do período, mas que, por fim, acabaram sendo liberadas para gravação: a maliciosa “Menina Mulher da Pele Preta” e “O Namorado da Viúva”.

O namorado em questão, vejam só, era novamente Nicolas Flamel, que fora casado com Perenelle Flamel, de quem se dizia ter “um dote físico e financeiro invejável” por ser viúva de dois maridos, acumulando, assim, dupla herança em bens materiais.

O repertório do LP trazia ainda “Cinco Minutos” e a esplendorosa “Magnólia”, musa a quem o eu-lírico da canção diz estar a caminho “voando numa nave maternal dourada, muito veloz, feita de um metal miraculoso, com janelas de cristal e forro de veludo rosa”.

Cinquenta anos após chegar às lojas, em maio de 1974, “A Tábua de Esmeralda” ainda permanece numa espécie de altar inatingível, no topo da extensa discografia de Jorge Ben.

Foto: Arquivo Nacional.

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Lucas Nobile

Lucas Nobile é jornalista, crítico musical e autor de “Dona Ivone Lara: a primeira-dama do samba” (2015/ Sonora Editora) e de “Raphael Rabello: o violão em erupção” (2018/ Editora 34). Curador e diretor artístico da “Mostra Dona Ivone Lara: Axé!” (Sesc Mogi/ 2023). Pesquisador do musical “Dominguinhos: isso aqui tá bom demais” (2022) e dos documentários “Garoto – Vivo Sonhando” (2020) e “Lupicínio Rodrigues: confissões de um sofredor” (2022). Idealizador e curador da série “Muito Prazer, Meu Primeiro Disco” (Sesc, 2020/2021). Foi responsável pela catalogação do Acervo Zuza Homem de Mello (IMS).

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