Dona Zica: saiba quem foi essa importante sambista brasileira

Lívia Nolla
10:04 05.02.2025
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Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
Curiosidades

Dona Zica: saiba quem foi essa importante sambista brasileira

Ela também foi esposa de Cartola e teve com ele o famoso bar e restaurante Zicartola; saiba mais

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- 05.02.2025 - 10:04
Dona Zica: saiba quem foi essa importante sambista brasileira
Dona Zica | Imagem: Arquivo Folhapress (Lalo de Almeida)

Você sabe quem foi Dona Zica?

Dia 06 de fevereiro seria aniversário da grande sambista que nos deixou em janeiro de 2002, aos 89 anos. 

Primeira Dama do Samba, sambista da velha guarda da Estação Primeira de Mangueira, liderança e referência feminina no Morro da Mangueira e também esposa de Cartola, hoje vamos conhecer um pouco mais da história de Dona Zica e de sua importância para a música popular brasileira.

Quem foi Dona Zica

Nascida Euzébia Silva do Nascimento, em 6 de fevereiro de 1913 – um domingo de carnaval – no subúrbio de Piedade, no Rio de Janeiro, Zica ganhou o apelido de sua madrinha. 

Perdeu o pai, guarda-freios da Estação Central do Brasil, com apenas um ano de idade e anos mais tarde – em 1920 – ela, a mãe – lavadeira de profissão – e os quatro irmãos mudaram-se para o Morro da Mangueira. Lá, tornou-se uma das primeiras integrantes da Estação Primeira de Mangueira – escola de samba fundada por Cartola, Carlos Cachaça e outros sambistas – tendo participado do 1° desfile da agremiação, em 1928. 

Aos 19 anos, Zica casou-se com Carlos Dias do Nascimento, um craque de futebol do bairro, com quem teve seis filhos, e de quem ficou viúva com 20 anos de casada. Uma das irmãs dela foi casada com o sambista Carlos Cachaça.

Com a morte do marido, Dona Zica trocou a fábrica de tecido onde trabalhava pela cozinha de uma das grandes sociedades do carnaval carioca, o Clube Bola Preta. Foi lavadora de pratos, ajudante de cozinha e, finalmente, cozinheira.

Ela tinha mais de 40 anos de idade quando se casou com Cartola, um dos maiores sambistas da história da música popular brasileira, em 1954. Eles se conheciam desde jovens – eram vizinhos no Morro da Mangueira, onde moravam, frequentavam juntos a Estação Primeira de Mangueira – mas nunca haviam namorado. 

Dona Zica e Cartola, em 1973 | Imagem: Divulgação

Zica já estava comprometida e na época em que conheceu Cartola e – com o machismo daquela época – a mulher era mal vista se o seu noivado fosse desfeito. Cartola também havia sido casado com Deolinda, porém não teve filhos, porque era estéril. Ele criou a filha de Deolinda como sua.

Após ter sido muito conhecido por seus sambas para a Mangueira e também ter tocado nas rádios e composto músicas para outros grandes nomes da música brasileira, Cartola caiu um tempo no ostracismo e ficou muito doente. Em seguida, ficou viúvo e saiu do Morro da Mangueira, ficando mais de 10 anos longe da escola de samba também.

O sambista estava morando em uma favela no bairro do Caju e fazendo bicos como de lavador de carros e vigia de edifícios, quando Zica o encontrou. Cartola estava em um estado lastimável, entregue à bebida, desdentado e desnutrido. Também estava com um problema no nariz, que tinha se tornado demasiadamente grande, devido a uma afecção denominada rinofima. 

Zica e Cartola se reapaixonaram. Zica é considerada responsável por ser a maior incentivadora de Cartola a voltar para o Morro da Mangueira e para o samba, fazendo dele um ícone, tendo composto mais diversos sucessos antológicos da nossa música, como:  

  • O Sol Nascerá (1964, parceria com Élton Medeiros)
  • Alvorada (1968, parceria com Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho)
  • As Rosas Não Falam (1976)
  • O Mundo é um Moinho (1976)

O casal se instalou em uma casa na subida do morro, perto da quadra da escola de samba e próximo da casa de Carlos Cachaça e Menina (irmã de Zica). 

Veja também:

Dona Zica e Cartola casaram-se e viveram juntos por 26 anos, até a morte dele, em 1980, aos 72 anos. O talento gastronômico de Dona Zica, foi decisivo na alavancada obtida na vida do casal. 

Na década de 1960, ela foi comandar um vatapá, na casa do advogado e político Benjamin Eurico Cruz, e fez um contato do qual viria a surgir embrião do  Zicartola, famoso bar e casa de samba do Rio de Janeiro, além de restaurante, que se tornou um ponto de encontro dos sambistas da época. 

Responsável pela zeladoria de um velho prédio na Rua dos Andradas, centro do Rio, sede da Associação das Escolas de Samba, o casal faz do lugar um ponto de encontro, que mais tarde viraria o maior celeiro do samba de todos os tempos: o Zicartola (mistura dos nomes Zica e Cartola). 

Com Cartola comandando a música e Dona Zica na cozinha, o Zicartola é considerado um marco na noite carioca. Fundado em 1962, o espaço possibilitou também o resgate de velhos sambistas como Nelson Cavaquinho, Ismael SilvaeZé Kétie deu espaço para o surgimento de uma nova geração do samba e da MPB. 

O restaurante não durou muito, mas foi na sua época áurea que Zica e Cartola oficializaram sua união na igreja.

Uma das mais belas composições de Cartola, o samba Nós Dois”, foi escrito especialmente para a ocasião do casamento. Aqui nós vemos os dois juntos em um vídeo em que Cartola interpreta a canção: 

A famosa canção “As Rosas Não Falam” também foi inspirada em uma conversa entre o casal, como já contamos a história aqui.

Mesmo com a morte do poeta, Dona Zica continuou exercendo seu papel de liderança e referência para a preservação da identidade do samba carioca. Ela coordenou, durante muitos anos, a confecção de fantasias da escola e foi uma das principais pastoras da Velha Guarda da Mangueira, desde que o grupo foi fundado em 1965. 

A grande dama da verde e rosa nos deixou em 2003, aos 89 anos, vítima de uma parada cardiorrespiratória. Por ter sido durante muitos anos seguidos símbolo da Mangueira, a direção da escola abriu exceção ao conduzir o corpo para ser velado na quadra.

Dona Zica é figura inesquecível na história da música brasileira.

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Lívia Nolla é cantora, apresentadora e pesquisadora musical

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