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Especial: O legado musical de Gal Costa
Especial: O legado musical de Gal Costa
Filipe Catto, Assucena e Marina Sena são apenas alguns exemplos de cantoras brasileiras influenciadas pela artista

O nome dela é Gal. Gal Costa. Nasceu Maria da Graça Costa Penna Burgos – em 26 de setembro de 1945 – e tornou-se Gal Costa, uma das vozes mais importantes da história da música popular brasileira de todos os tempos.
Com sua voz deslumbrante, musicalidade única e seus posicionamentos importantes, Gal Costa influenciou uma geração de cantoras que vieram depois dela, e segue influenciando até hoje.

A incrível trajetória de Gal Costa
Gal tornou-se conhecida no Brasil inteiro em 1967, quando lançou o seu primeiro LP: Domingo, ao lado de seu amigo e parceiro de toda uma vida – Caetano Veloso – que também estreava em seu primeiro disco.
Antes disso, a baiana de Salvador – que aprendeu a tocar violão ainda criança e estudava canto colocando uma panela na cabeça para escutar melhor a reverberação de sua voz – começou a carreira em 1964, ainda usando o nome artístico Gracinha, ao lado de Caetano, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Tom Zé, no show Nós, Por exemplo, que inaugurou o Teatro Vila Velha, de Salvador.
No mesmo ano, os baianos fizeram juntos mais um espetáculo: Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova, que tinha a intenção de inserir o grupo em um plano histórico que passava pelo passado musical da MPB, depois por alguma renovação da bossa nova, chegando em algo que seria a sua continuação, representada por eles mesmos.
Depois de lançarem o primeiro álbum, Gal e Caetano – junto com outros grandes nomes da música popular brasileira como Gil, Torquato Neto, Rogério Duprat, Capinan, Tom Zé, e Os Mutantes – iniciaram o Movimento Tropicalista: movimento de contracultura, que transcendeu tudo o que já havia em termos de produção artística no Brasil.
Em 1968 o grupo lançou o disco Tropicália ou Panis et Circencis e, entre as canções mais marcantes está Baby, de Caetano Veloso, interpretada por Gal, que tornou-se um hino Tropicalista.
A partir desse momento, Gal Costa passou a sentir a necessidade de desbravar novos territórios que não somente o canto suave da bossa nova, que sempre esteve presente em sua vida, desde que escutou João Gilberto cantar Chega de Saudade pela primeira vez, em 1959.
A cantora queria expressar a sua arte e o que sentia de uma forma mais agressiva, mais experimental, mais revolucionária, com influências do que vinha escutando de fora do país, como a voz rasgada de Janis Joplin, que foi uma grande inspiração para Gal.

Musa da Tropicália e da “geração do Desbunde”
Ainda em 1968, a baiana participou do IV Festival de MPB da Record, defendendo – em tempos de repressão sofrida pela ditadura militar no Brasil – a canção grito de liberdade Divino Maravilhoso, de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Esta apresentação representou um marco na transição de postura e na estética artística de Gal.
Falando em ditadura militar, quando o movimento Tropicalista sofreu forte censura e perseguição e seus líderes Caetano e Gil foram presos e, depois, obrigados a se exilar em Londres, de 1969 a 1972, Gal tornou-se, – quase que forçadamente – um símbolo de resistência artística no Brasil, sendo responsável por manter acesa a chama do Tropicalismo no país e tornando-se a sua maior representante, passando a ser conhecida como Musa da Tropicália e dachamada “geração do Desbunde”.
Em 1969, a cantora lançou seu primeiro álbum solo, e – a partir daí – passou a lançar – um em seguida do outro – álbuns inesquecíveis, transgressores e revolucionários, como o antológico LP duplo Fa-tal: Gal a todo o Vapor; o disco Índia; o encontro inesquecível com os Doces Bárbaros (em parceria com os amigos Gil, Caetano e Bethânia, em 76); Gal Tropical; Estratosférica, A Pele do Futuro e tantos outros…
Gal Costa gravou a maioria dos grandes compositores da nossa música como Caetano, Gil, Jorge Ben Jor, Erasmo e Roberto, Jards Macalé, Waly Salomão, Luiz Melodia (que era um de seus compositores favoritos e a quem Gal ajudou a lançar), Chico Buarque, Dorival Caymmi, Milton Nascimento, Moraes Moreira e Djavan.
Muito atenta às novidades e inovações, Gal gravou também diversos compositores da nova geração da nossa música, como Mallu Magalhães, Céu, Marcelo Camelo, Silva e Tim Bernardes…. sempre se reinventando e conversando diretamente com seu público, com seus quase 60 anos de uma brilhante carreira.
Hoje – dia em que Gal Costa completaria 79 anos, se não tivesse nos deixado em novembro de 2022, vítima de um infarto agudo do miocárdio e de uma neoplasia maligna de cabeça e pescoço – nós trouxemos algumas dessas artistas da música brasileira influenciadas pela musa.
Filipe Catto e Belezas são Coisas Acesas por Dentro

A cantora, compositora e instrumentista gaúcha Filipe Catto é um dos principais talentos de sua geração: com um timbre raro e uma excelente técnica vocal, também tem um domínio impressionante do palco.
Com um EP e seis álbuns lançados ao longo de quase 20 anos de carreira – o primeiro EP, Saga, é de 2009 – Filipe passeia com maestria por gêneros como o samba, o tango moderno, o jazz, o rock e o bolero, como Gal Costa fez durante toda a sua trajetória, transitando por diversos gêneros.
Artista trans não-binária, Catto tornou-se um ícone do público LGBTQIA+, tendo o álbum O Nascimento de Vênus Tour, de 2021, como um marco para a afirmação da sua identidade.
Em 26 de setembro de 2023 – dia do aniversário de Gal Costa e de Filipe Catto, que completa hoje 37 anos – a artista gaúcha lançou o aclamadíssimo álbum Belezas são Coisas Acesas por Dentro, em que celebra a obra de Gal, uma das suas maiores influências na música.
O título do álbum é um verso de Lágrimas Negras, música composta por Jorge Mautner e Nelson Jacobina, grande sucesso na voz de Gal Costa, em 1974, no álbum Cantar.
Já no programa Radar, Filipe falou que o projeto é mais do que sobre a voz da Gal Costa: “Quis falar sobre a Gal como a poesia, o ícone, o emblema estético (..) tenho um encontro com a poesia e as letras, super biográfico pra mim. (…) E de todo o símbolo de feminilidade feroz e completamente livre, selvagem que a Gal traz. Isso foi uma coisa que me inspirou muito no meu próprio processo de afirmação de gênero”.
No álbum, Filipe Catto traz – com a sua identidade – releituras de clássicos eternizados na voz de Gal Costa, como – além de Lágrimas Negras – Tigresa e Vaca Profana (ambas de Caetano Veloso), Esotérico (Gilberto Gil), e Negro Amor (versão de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti para a música It’s All Over Now, Baby Blue de Bob Dylan).
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Marina Sena e Gal Costa
Outra cantora e compositora que – coincidentemente – faz aniversário no mesmo dia em que Gal Costa (e que Filipe Catto!), e que foi muito influenciada pela baiana é Marina Sena.
Nascida na cidade de Taiobeiras, Minas Gerais, em 1996, Marina começou a compor aos 15 anos e iniciou sua carreira musical profissional aos 18, quando se mudou para Montes Claros e entrou para A Outra Banda da Lua, em 2015, atuando como vocalista da banda durante cinco anos.
Em 2019, junto com os músicos Baka, Mariana Cavanellas, Luiz Gabriel Lopes e Marcelo Tofani, Marina Sena formou o grupo de música pop Rosa Neon, com quem ficou até 2020.
Em janeiro de 2021, iniciou sua carreira solo com o single Me Toca, composição dela em parceria com o produtor musical Iuri Rio Branco. Em 19 de agosto do mesmo ano, lançou o seu primeiro álbum de estúdio, De Primeira, queestourou no Brasil inteiro e trouxe, além de Me Toca, o mega hit Por Supuesto, também parceria com Iuri, que alcançou o topo da parada Viral Global, do Spotify.
Após a boa recepção do primeiro álbum – que também traz na mistura de gêneros uma de principais características de Marina, unindo o pop, samba, axé, dancehall e reggae – a cantorarecebeu indicações a diversos prêmios, inclusive ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro e Melhor Canção Brasileira, com Por Supuesto.
Em fevereiro de 2023, depois de alguns singles, Marina Sena lançou o seu segundo álbum, Vício Inerente.
Marina sempre foi muito fã de Gal e tem na cantora baiana a sua grande inspiração.
Em dezembro de 2022, foi lançada a última gravação de Gal Costa: um dueto com Marina Sena em Para Lennon e McCartney, regravação da clássica canção do Clube da Esquina.
Na época da gravação, Marina contou que quando descobriu que ela e Gal nasceram no mesmo dia, teve a certeza que temos conexões de outras vidas. E a veterana completou: “Eu acredito. E a gente nasceu para ter poder e conseguir transformar as coisas”.
Em 2023, Marina Sena subiu ao palco do festival The Town e fez um show inteiro dedicado à Gal Costa: “Para o resto da minha vida, por onde eu for eu, vou levar o nome de Gal. Não quero ser a nova Gal, só quero que todos saibam de onde vem o pulso inicial desse movimento do corpo, da alma, do espírito que Gal possibilitou eu e tantas pessoas de sentir. Sou uma das tantas filhas de Gal desse país. Na voz dela é onde me conecto com Deus. E vou ter para sempre gratidão por ela ter expandido tanto a minha alma”, comentou.
Assucena e sua ligação com Gal Costa

Outra grande artista da cena contemporânea brasileira que foi influenciadíssima por Gal Costa e tem na baiana uma de suas maiores inspirações é a também baiana Assucena.
A cantora, compositora, intérprete e atriz nascida em Vitória da Conquista (não no mesmo dia de Gal, Assucena é de 20 de maio!), ficou conhecida no Brasil inteiro pelo trabalho desenvolvido durante 6 anos com a banda As Baías (antes chamada As Baías e a Cozinha Mineira).
Com a banda, foi indicada duas vezes ao Grammy Latino (em 2019 e 2020), sendo as primeiras artistas trans a serem indicadas consecutivamente ao prêmio, além de também terem conquistado dois Prêmios da Música Brasileira.
Em 2022, Assucena lançou os primeiros singles da sua carreira solo e, em 2023, o seu primeiro álbum solo: Lusco-Fusco.
Em dezembro de 2021 – já em carreira solo – Assucena apresentou o show Rio e Também Posso Chorar, que nasceu como uma homenagem para marcar os 50 anos de lançamento do álbum Fatal – Gal a Todo Vapor, e transformou-se em um tributo à artista que mais influenciou Assucena em sua formação, principalmente por sua atitude transgressora, vanguardista e pioneira.
No início de 2024, Assucena apresentou outro show em homenagem a sua musa: Baby, te amo – Tributo à Gal Costa: “Homenageio Gal por eu ter feito de mim, uma mulher que medita a respeito de minha época, de meu corpo, de minha voz e que deseja cantar um Brasil com o propósito da memória, da formação da consciência e do reencontro com suas raízes, mas também de sua contemporaneidade”.
Caso queira saber mais ainda sobre nossa eterna Gal Costa, escute o Acervo MPB Gal Costa, série exclusiva da Novabrasil, que traz a áudio-biografia de grandes nomes da nossa música.
por Lívia Nolla


