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Indústria da música na era da criação de conteúdos: quando Artista vira Creator
Fernanda Paiva
Especialista em Branding, Comunicação e Cultura
Indústria da música na era da criação de conteúdos: quando Artista vira Creator
Criador de conteúdo é alguém cuja habilidade está na capacidade de gerar entretenimento e engajamento
Nos últimos anos, a indústria da música se transformou radicalmente, influenciada pela adesão massiva às redes sociais e pela emergência de um novo perfil de artista: o criador de conteúdo. Mas será que todo artista é um criador de conteúdo? Ou ainda, será que o processo de compor uma música tem algo a ver com a lógica de produzir vídeos para o TikTok ou posts no Instagram? O que a Música e a Linguagem Creator têm em comum? Essas são perguntas que ressoam na cabeça de quem consome música e acompanha a vida de seus ídolos nas redes. Vamos destrinchar esse cenário e entender como esses campos de criação convergem na construção da marca pessoal e na manutenção de comunidades de fãs.
Artista ou criador de conteúdo?
Hoje é praticamente impossível imaginar um artista que não tenha uma presença nas redes sociais. Do pop mainstream ao indie underground, seja Ludmilla, Liniker, todo mundo tem um perfil atualizado com frequência, para mostrar os bastidores de uma nova faixa ou a cobertura de shows e turnês, além claro, da interação com os fãs e até participar de memes e trends. No entanto nem todo artista se define como criador de conteúdo. O foco central é a música, a expressão criativa por meio de melodias e letras, figurinos e cenários, a arte!
O criador de conteúdo, por outro lado, é alguém cuja habilidade está na capacidade de gerar entretenimento e engajamento. Ele pode fazer isso por meio de posts, vídeos curtos, textos longos, podcasts, tutoriais e enquetes. Enquanto o processo criativo de um artista muitas vezes começa pela composição e pela experimentação de sonoridades, o criador de conteúdo, em grande parte, começa ao planejar o que irá capturar e reter a atenção do público, seja um viral ou um arco narrativo em profundidade.
Ainda assim, as fronteiras entre esses universos estão cada vez mais tênues. Alguns músicos abraçam completamente o papel de criadores de conteúdo, integrando suas composições, shows e bastidores da vida profissional (e até pessoal) em séries de posts e stories, vídeos curtos ou longos em todas as plataformas, como YouTube, Instagram ou Tik Tok. Esse é o caso de artistas mainstream como Anitta e Ana Castela, e mesmo de alguns bons exemplos de artistas midstream como Filipe Catto, Xênia França e Gaby Amarantos. Outros preferem manter outra frequência, postando apenas o necessário como forma de atualizar a agenda de eventos e os lançamentos, um método igualmente eficiente para manter sua rede engajada, como é o caso de Arnaldo Antunes, Céu, Caetano Veloso.
Uma linguagem que conecta paixões
Há tempos sabemos que música é um passion point fantástico para gerar conexão emocional, alavancar narrativas e posicionamentos, mobilizar pessoas em torno de causas e interesses afins. Por todo teor sensorial e passional que tem a música. Em acordes, melodias e letras que invocam memórias, afetos, sensação de bem-estar, ou mesmo crítica e sentimento de fúria, a música manifesta em nós nossos desejos mais profundos (muitas vezes inconscientes) e nos move a experienciar a vida sob uma perspectiva única. É, afinal, uma linguagem!
Por isso mesmo, a música sempre foi uma linguagem poderosa de construção de marca pessoal e de conexão com audiências com interesses afins. Do rock ao pop, passando pela disco music, hip hop, axé music, sertanejo, música eletrônica, manguebeat, aparelhagem paraense, funk carioca, e toda infinidade de ritmos e estilos musicais, os artistas têm explorado essa linguagem para criar sua imagem pessoal e como forma de alavancar movimentos artísticos e culturais que mobilizam paixões e desejos de fãs.
Mas há algo novo capturando esses nossos desejos e nos estimulando a novas formas de ver e de nos relacionarmos com o mundo. A tal Creators Econommy – Economia dos Criadores de Conteúdo. Uma nova dinâmica na forma de criar, produzir, distribuir, consumir e compartilhar conteúdos que nasce no contexto da grande revolução tecnológica e digital do nosso tempo: o acesso (quase) universal a internet, redes sociais, ferramentas e aplicativos, smartphones cada vez mais equipados. Um terreno fértil para uma mudança de postura e comportamento em relação ao que aprendemos nas teorias de comunicação: o emissor e o receptor das mensagens não são sujeitos diferentes, mas, potencialmente, hoje em dia, toda e qualquer pessoa pode se tornar um criador de conteúdo. Nasce uma nova linguagem, uma nova forma de representar o mundo, de manifestar desejos e mover ações. A Linguagem Creator.
Aí, a fórmula para obter sucesso em ambas as economias – Música e Creator – até parece a mesma: construir uma marca pessoal forte e autêntica o suficiente para ser reconhecida e desejada por conta do ponto de vista único que projeta para o mundo; focar a qualidade criativa do que se produz na expectativa de melhor expressar seu ponto de vista e gerar identificação com quem se espera atingir; fomentar boas relações e frequência de interações para que a comunidade cresça e oportunidades comerciais ocorram. É nessa intersecção que nascem novas ideias de produtos, serviços e experiências que vão gerar valor entre o Artista – Fã/Criador – Seguidores.
E o valor do processo criativo?
A criação de conteúdos tem, sem dúvida, um impacto profundo no processo criativo dos artistas. Sabemos que nem toda música é uma obra artística, daquele tipo que será reconhecido pelo seu valor estético e narrativo, pela sua exuberância ou singularidade, mas é potencialmente uma linguagem que conecta multidões (ou nichos específicos de público) a partir de identificação e construção de senso de comunidade. Assim como nem todo conteúdo é uma obra artística (de cinema, literatura, artes visuais). Mas vamos combinar que muitas vezes um meme, um viral, um post é capaz de gerar identificação e engajar audiências dos mais diferentes perfis. Porque a linguagem se torna eficiente quando é capaz de exercer essa captura dos desejos mais latentes e simbolizar um caminho de ação. E a afinidade entre essas duas linguagens – Música e Creator – abre novas oportunidades de criar valor a partir da conexão emocional com as audiências.
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Afinal, seja como produção artística e musical ou como criadores de conteúdo, todos querem monetizar o esforço criativo e o resultado de construção de comunidades engajadas. Os artistas que conseguem alinhar sua música com uma boa estratégia de conteúdo online conseguem manter uma conexão mais direta com seus fãs. Veja o caso de Marina Sena, que conquistou uma legião de seguidores ao alinhar sua estética visual com uma presença ativa nas redes sociais, sempre interagindo diretamente com seu público. A artista se torna não só uma produtora de música, mas também uma criadora de narrativas que prolongam e expandem a experiência musical para além dos palcos e plataformas de streaming.
Mas, afinal, então tudo é conteúdo? Essa pergunta parece simples, porém se torna cada vez mais complexa. O conteúdo, na era atual, pode ser literalmente qualquer coisa: desde um vídeo com uma performance acústica intimista até um simples tweet engraçado ou um vídeo de bastidores em estúdio. A cultura digital transformou cada ação do artista em um “conteúdo potencial” que pode ser consumido e compartilhado instantaneamente.
Aqui, o grande dilema está em diferenciar o que é relevante do que é apenas ruído. O público, bombardeado por milhares de conteúdos diários, está cada vez mais seletivo. Ao seguir um artista, muitas vezes o fazemos por uma combinação de fatores: gostamos da música, da personalidade, do estilo, ou simplesmente nos identificamos com a narrativa que ele está construindo.
Para os artistas, é importante entender que o conteúdo relevante é aquele que dialoga com sua autenticidade. A audiência sente quando algo é genuíno ou quando é apenas uma tentativa desesperada de se manter na crista da onda. Criadores de conteúdo que têm sucesso são aqueles que conseguem se manter consistentes nessa intersecção entre o entretenimento e a autenticidade, mantendo relação muito próxima com sua base de seguidores, para extrair oportunidades de novos conteúdos, parcerias e negócios a partir da sua marca pessoal.
Por outro lado, essa sobrecarga de conteúdos também pode gerar cansaço e dispersão. Quantos artistas vemos sendo engolidos pela pressão de produzir algo novo todos os dias, muitas vezes esgotando sua capacidade criativa? Na tentativa de manter uma presença constante, alguns acabam caindo na armadilha da superficialidade, perdendo parte de sua essência e criando uma marca que parece mais forçada do que autêntica.
Se, por um lado, vemos artistas como Gilberto Gil, que soube se adaptar às redes sociais de forma orgânica, compartilhando momentos de sua vida com uma leveza natural, por outro, testemunhamos casos de saturação, em que a produção excessiva de conteúdo mina a imagem do artista. Alguns, na ânsia de manter o algoritmo a seu favor, caem no erro de postar conteúdo irrelevante, diluindo a qualidade de seu trabalho. Outros, por sua vez, não conseguem se adaptar a esse novo cenário e acabam ficando para trás, sem um diálogo mais próximo com o público, algo essencial para manter o engajamento.
A presença nas redes sociais pode parecer um terreno escorregadio para muitos. A chave parece ser experimentar e aprender essa nova linguagem para encontrar um caminho autoral, que seja o reflexo daquilo que o artista-criador de conteúdo quer expressar genuinamente, no seu ritmo, na sua cadência. E a partir disso, construir a dinâmica de oferta de experiências e conteúdos para a legião de fãs interessados no seu ponto de vista. Assim como na música!
Afinal, na era digital, o artista já é, em certa medida, um criador de conteúdo. Mas a verdadeira arte está em saber usar essas ferramentas para alavancar sua própria linguagem, sem perder a essência. A criação de música e de conteúdo pode compartilhar similaridades, porém são processos distintos. O segredo do sucesso na construção da marca pessoal, no entanto, está em manter-se autêntico, focar no processo criativo e nunca esquecer o valor central, que é a conexão emocional que se deseja estabelecer (com milhares de pessoas) a partir de um ponto de vista único.
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Fernanda Paiva
Especialista em Branding, Comunicação e Cultura, com mais de 20 anos de experiência em liderança de Estratégia, Inovação e Direção Criativa em iniciativas com impacto sócio-cultural. Co-fundadora e professora da Flint (selo de edutainment focado na linguagem creator), Chief Artistic Officer na Musicalize, além de consultora em projetos independentes. Acumula no portfólio projetos como Natura Musical, Rock In Rio / NAVE, Lollapalooza, TOCA Uol, Festival Feira Preta, Carnaval do Recife e Cinemateca Brasileira, entre outros.


