Karen Cunha: “Como assim mulheres na música?”

Karen Cunha
22:30 19.06.2024
Autor

Karen Cunha

Curadora e especialista em eventos de grande porte
Música

Karen Cunha: “Como assim mulheres na música?”

WME promove o protagonismo feminino no setor e será realizado de 20 a 23 de junho, em SP

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- 19.06.2024 - 22:30
Karen Cunha: “Como assim mulheres na música?”
Cartaz do Women’s Music Event (WME). Foto: Divulgação.

O ano era 2015. Eu já trabalhava com música, mais especificamente com curadoria e gestão de megaeventos há pelo menos 10 anos, quando recebi o convite para ser um dos seis curadores de um projeto de residência artística voltado para a música.

Seriam cerca de 30 músicos e produtores de São Paulo e outras regiões do Brasil trabalhando em conjunto para criar novos sons e pesquisas. Achei maravilhoso e aceitei na hora, especialmente ao saber que os outros curadores eram pessoas incríveis com quem já gostava muito de trabalhar ou tinha muita vontade de colaborar.

Na primeira reunião discutimos quem iríamos convidar para os ateliês. Tudo fluía
harmonicamente; cada curador sugeriu nomes e, quando mais de uma pessoa queria o mesmo artista, discutíamos ali mesmo como resolver a questão.

A metodologia estava funcionando perfeitamente, mas um detalhe começou a me incomodar: inicialmente, todos os ateliês só tinham homens, inclusive o meu.

Como aquilo poderia ser normal? De 30 artistas, apenas 2 mulheres foram
consideradas. Não fazia sentido, nem curatorialmente. Se a ideia era justamente olhar para o Brasil inteiro e misturar estilos, como poderíamos ter apenas duas mulheres?

Coloquei meu incômodo na mesa e decidi que chamaria apenas mulheres para o meu estúdio. Além disso, disse que não seriam apenas artistas; eu convidaria também uma produtora para vivenciar a organização do dia a dia de um projeto como aquele.

Aquilo foi um blefe. Me arrependi antes mesmo de terminar a última frase. Quem seriam essas mulheres? Com quantas delas eu tinha contato? Como as desconhecidas interagiriam entre si?

Eu, sendo a única mulher, estaria “militando errado”, comprometendo o
resultado do meu próprio trabalho?

Foi muito fácil fazer uma lista. Todas já tinham uma carreira consolidada, cada uma em seu gênero. Após essa decisão, outros curadores também se sentiram incomodados e decidiram chamar mais mulheres para diversificar.

No primeiro dia, quando todos os ateliês se reuniram, uma das artistas se posicionou contrariamente a estar em um grupo só de mulheres. Afinal, ela era mais que isso.

Não precisava dessa cota. Nesse dia, pensei em minha própria trajetória profissional. Não era a primeira vez que eu era a única mulher em um projeto, uma reunião, uma mesa de debates ou um evento inteiro. Além de mim, no meu trabalho naquela época, havia apenas mais uma mulher em cargo de direção, e ela era um nome inquestionável, um expoente na área dela, cuja presença era absolutamente indiscutível.

Mas e eu? Como não percebi que era sempre a única? Quanto me beneficiei disso e quanto fui prejudicada por isso? Será que já fui uma cota?

Durante a residência, houve muitos conflitos, mas também muitos encontros e soluções. Foi nesse projeto que Cláudia Assef conheceu a Monique Dardenne (que tinha acabado de ter uma filha e a amamentava durante as reuniões) e juntas criaram o Women Music Event e o Woman Awards que já acontecem há 8 anos.

O primeiro é uma conferência sobre mulheres na música e o segundo uma premiação para os destaques do ano. O assunto começou a borbulhar e percebi que essas questões e dúvidas não eram só minhas. As mulheres na música existiam e eram muitas. Muitas mesmo.

Uma vez participei de uma mesa em que o curador de um grande festival perguntou indignado se eu achava que equidade era mais importante que qualidade, pois o público do festival dele era muito exigente e não havia nenhuma mulher no top 10 das revistas naquele ano.

Respondi que o trabalho de curadoria consistia em pesquisa; afinal, se fosse para copiar o top 10 das revistas, ele poderia ser substituído por um algoritmo (naquela época, não existia o Chat GPT). Ele ficou furioso.

Em tempos de inteligência artificial, onde toda informação do mundo pode estar ao seu alcance num único clique, nunca foi tão importante ser capaz de explorar, de ir além, de selecionar o que interessa, mas também de dar uma chance ao desconhecido.

Pouco a pouco, fomos educando nosso olhar para enxergar além do nosso restrito grupo de amigos. O mundo é vasto e há muitas coisas interessantes a serem descobertas.

Parece ultrapassado falar sobre mulheres na música; às vezes até fico de mau humor ao abordar esse tema. Hoje em dia, um line up de festival com poucas mulheres soa muito estranho. Se não houver nenhuma, vira motivo de protesto.

Mas apesar de ser hoje impossível montar uma programação sem alguma diversidade, o machismo, o racismo, a homofobia e a transfobia continuam firmes e fortes. O topo da pirâmide ainda é predominantemente ocupado pelo mesmo perfil: homem, branco, hétero, cis e de família influente. Não podemos pensar que esse avanço é algo irreversível.

Lembrei do meu pai dizendo que o mundo era extremamente racista e machista, mas que isso não poderia me impedir de nada. Eu tinha que seguir em frente. Não havia tempo para me sentir atingida. “Se o problema for do tamanho de um carro, arranje um trator e passe por cima.”

Talvez eu tenha internalizado isso. Quando meus pais se conheceram, minha mãe era chefe dele. Isso nunca me pareceu algo estranho.

Tive o “privilégio” de ser a única mulher por muito tempo. Há mulheres que nem sobreviveram para contar sua própria história.

Karen Cunha

Curadora, especialista em eventos de grande porte e criadora da Flerte, empresa de curadoria, consultoria e gestão de projetos culturais. Atuou por mais de 13 anos no poder público onde coordenou eventos como Virada Cultural e Carnaval de Rua de São Paulo e idealizou projetos como SP na Rua, Mês da Cultura Independente entre outros.

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