A influência de Haroldo de Campos na música de Caetano Veloso

Lívia Nolla
10:00 19.08.2024
Autor

Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
Música

A influência de Haroldo de Campos na música de Caetano Veloso

O poeta concretista paulistano inspirou uma das grandes canções da obra do baiano; saiba mais

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- 19.08.2024 - 10:00
A influência de Haroldo de Campos na música de Caetano Veloso
Augusto de Campos, Décio Pignatari, Caetano Veloso e Haroldo de Campos | Foto: Homero Sérgio / Folhapress

Caso não tivesse nos deixado em agosto de 2003, três dias antes de completar 74 anos, o poeta paulistano Haroldo de Campos estaria comemorando seus 95 anos no dia de hoje. 

A obra do poeta teve influência direta no cancioneiro de um dos maiores nomes da música popular brasileira de todos os tempos: o baiano Caetano Veloso.

Por isso, neste 19 de agosto, trouxemos uma análise sobre a poesia de Haroldo de Campos na música de  Caetano Veloso.

Quem foi Haroldo de Campos

Haroldo de Campos | Foto: German Lorca

Haroldo Eurico Browne de Campos nasceu em São Paulo, em 19 de agosto de 1929. Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo. Após ter publicado poemas e traduções na imprensa paulistana durante a década de 1940, lançou seu primeiro livro – O Auto do Possesso – pelo Clube de Poesia de São Paulo, em 1950. 

Dois anos depois, formou o grupo Noigandres, com Augusto de Campos, seu irmão, e Décio Pignatari, ambos também estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco

Noigandres, palavra provençal de significado controverso mencionada no décimo dos Cantos do poeta norte-americano Ezra Pound, também se tornou o título da revista publicada pelo grupo, em cinco números, durante dez anos (Noigandres I, 1952; II, 1955; III, 1956; IV, 1958; V, 1962). 

Como co-inventor da Poesia Concreta em âmbito internacional, o grupo Noigandres também expôs sua produção poética, para além dos limites de suas publicações impressas, na Exposição Nacional de Arte Concreta, ocorrida no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1956, e no Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, 1957. 

A Poesia Concreta

Poetas que inauguraram o Concretismo no Brasil: Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos | Imagem: Reprodução

A Poesia Concreta trabalha artisticamente a palavra, aliada ao som e à imagem. Esse tipo de poesia apresenta objetividade, universalidade e, algumas vezes, possui também caráter metalinguístico.

A principal bandeira estética dessa vertente da poesia brasileira é a composição do poema-objeto, em que o verso tradicional é abolido em prol de uma construção que explora os recursos sonoros, visuais, semânticos, e principalmente o espaço tipográfico e a disposição geométrica dos vocábulos na página.

Com a ampliação das atividades do grupo Noigandres para a equipe Invenção, Haroldo colaborou com publicações para a página por ela editada no diário Correio Paulistano, em frequência semanal, de 1960 a 1967.

A Invenção – Revista de Arte e Vanguarda, editada pela equipe em cinco números, entre 1962 e 1967, também contou com a sua significativa contribuição. 

A primeira coletânea de sua obra poética, Xadrez de Estrelas – Percurso Textual (1949-1974), publicada em 1976, contém sua produção inicial e concreta, além de uma amostra significativa de Galáxias, obra em prosa poética, editada – em sua versão definitiva – em 1984. 

Em seus livros de poesia posteriores – de Signantia: Quase Coelum – Signância: Quase Céu (1979) até o póstumo Entremilênios (2009) –, Haroldo de Campos revela uma escrita de grande densidade intertextual e alto grau de elaboração e complexidade poéticas, o que o torna uma das referências centrais da poesia brasileira. 

Haroldo de Campos tradutor

Vencedor de diversos prêmios Jabuti – o mais importante da literatura brasileira – Haroldo também era tradutor e sua produção poética é indissociável de sua obra tradutória, registrada em inúmeros livros – desde Ezra Pound – Cantares (em colaboração com Augusto de Campos e Décio Pignatari, 1960) até a Ilíada de Homero (2 vols., 2002 / 2003), além de publicações póstumas. 

Como tradutor, ele possuía amplo repertório linguístico-literário, desde textos hebraicos do cânon bíblico, até poetas contemporâneos seus, como Octavio Paz e Giuseppi Ungaretti, passando por Dante e Goethe, pela poesia clássica chinesa e pelo teatro japonês, além da poesia moderna de diversas línguas. 

Ele descrevia a atividade tradutória como “transcriação”, e falou sobre isso em inúmeros ensaios e textos introdutórios a suas traduções, o que o tornou internacionalmente uma referência no âmbito da tradução literária.

A atividade tradutória de Haroldo de Campos, também exercida como reflexão crítica sobre o fazer literário, sempre foi acompanhada de intensa atividade teórica, registrada em inúmeros ensaios sobre arte e literatura. 

Veja também:

Seu intenso intercâmbio com intelectuais de todo o mundo – como Umberto Eco, Roman Jakobson, Tzvetan Todorov, entre muitos outros – transparece em seus textos, dotados de uma atenção singular para o pensamento contemporâneo, paralelamente a um interesse erudito em desvendar o passado em suas fontes.  

Caetano Veloso | Foto: Fernando Young
Caetano Veloso | Foto: Fernando Young

A poesia de Haroldo de Campos na música de Caetano Veloso

Leitor voraz, estudioso da literatura brasileira e grande admirador da Poesia Concreta, o cantor e compositor baiano Caetano Veloso, trouxe a poesia de Haroldo de Campos como fio condutor para o seu décimo sexto álbum de estúdio: Circuladô, de 1991.

A segunda faixa do álbum, Circuladô de Fulô, traz o poema homônimo de Haroldo de Campos – que faz parte da obra Galáxias, escrita pelo poeta paulistano entre os anos de 1965 e 1976 – musicado por Caetano

Todo o álbum – como o próprio título já demonstra – traz composições influenciadas pelo movimento concretista, apresentando um alto nível de fluência e liberdade de Caetano Veloso no modo de relacionar as palavras com a música. 

A poesia de Haroldo de Campos em Circuladô de Fulô alude a dois tipos de cultura: a popular e a dos intelectuais.

Sobre a música e o álbum, Haroldo de Campos declarou, em 1992: 

“Considero Circuladô um dos momentos mais altos da produção de Caetano. É um CD no qual ele retoma a interessante linha de experimentalismo do disco Araçá Azul, de 1973, harmonizando-o com o cantabile de suas canções mais pulsivas e singelas. 

Devo destacar que o trabalho que ele fez, ao musicar o fragmento Circuladô de Fulô, de minhas Galáxias (poemas), é particularmente admirável por retratar com fidelidade seu conteúdo. 

Caetano ouviu-me ler esse texto apenas uma vez – recordo-me que foi em 1969 –, quando tive oportunidade de visitá-lo no seu exílio londrino. Para mim, foi gratificante. Ele soube restituir-me com extrema sensibilidade – uma característica dele – o clima do meu poema, que é, todo ele, voltado à celebração da inventividade dos cantadores nordestinos no plano da linguagem e do som, na grande tradição oral dos trovadores medievais.”.

Em outubro de 2003, poucos meses após a morte de Haroldo de Campos, Caetano Veloso  participou de um evento na PUC-SP, chamado Galáxia Haroldo. Realizado pela TV Cultura, o evento foi uma homenagem ao poeta, crítico e tradutor.

Em fevereiro de 1987, Caetano deu o seu depoimento para o acervo do Museu da Imagem e do Som – MIS, de São Paulo, e Haroldo de Campos estava presentes como entrevistador, ao lado de Augusto de Campos e Décio Pignatari, além do psicanalista baiano, também amigo de Caetano Veloso, Tenório Cavalcanti.

por Lívia Nolla

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Lívia Nolla é cantora, apresentadora e pesquisadora musical

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