A história da música “Sá Marina”, no aniversário de Simonal

Lívia Nolla
13:56 23.02.2025
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Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
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A história da música “Sá Marina”, no aniversário de Simonal

Conheça a história da música "Sá Marina", um dos maiores sucessos da carreira do aniversariante do dia, Wilson Simonal

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- 23.02.2025 - 13:56
A história da música “Sá Marina”, no aniversário de Simonal
Wilson Simonal (1961) | Foto: Arquivo / Agência O Globo

Se não tivesse nos deixado no ano 2000, aos 62 anos, o cantor e compositor carioca Wilson Simonal estaria completando 87 anos neste 23 de fevereiro. E, para celebrar a existência de uma das maiores vozes da música popular brasileira de todos os tempos, vamos contar hoje a história da música “Sá Marina”, um dos maiores sucessos na voz de Simonal.

Sobre Simonal

Nascido no Rio de Janeiro, em 1938, naadolescência Wilson Simonal de Castro viu seus planos de formar um conjunto musical interrompidos, quando foi convocado a servir o 8º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado, quartel famoso pelo seu ativo time de futebol e por sua banda. 

Mas nada é por acaso: foi lá que o artista aprendeu a comandar plateias e dominar o público como ninguém, já que era chefe da torcida do time e participava dos bailes como cantor da banda. 

Quando saiu do exército, foi logo formar o seu primeiro conjunto musical: Dry Boys, chamando a atenção de Carlos Imperial, importante produtor artístico da época, que apresentava o programa “Clube do Rock”, na TV Tupi, onde a banda passou a se apresentar.

Sua exímia qualidade vocal e rítmica, seu carisma, presença de palco e domínio do público lhe garantiram um estrondoso sucesso durante as décadas de 60 e 70 e o colocaram entre os gigantes da nossa MPB.

O cantor e compositor era um artista completo – um showman – que regia uma plateia de 30 mil pessoas como se fossem parte de seu coro e transformava em hit tudo o que gravava. 

Foi eleito a quarta maior voz brasileira de todos os tempos, segundo lista da Revista Rolling Stone Brasil, de 2012.

A forma magistral como misturou a bossa nova e o samba com a nascente música soul americana, o jazz, a música de protesto e o rock iê-iê-iê que já se fazia por aqui na época – criando um som que era diferente de tudo isso e sem perder a qualidade (que ele próprio definia como algo que se comunicasse melhor com as massas, com bom gosto e popularidade) – constituiu-se em um movimento que foi chamado futuramente de Pilantragem. Por isso, ficou conhecido como Rei da Pilantragem ou Rei do Swing.

Simonal foi considerado o Rei do Swing ou Rei da Pilantragem| Foto: Domínio público / Acervo Arquivo Nacional

Entre os maiores sucessos em sua voz estão: 

  • Meu Limão, Meu Limoeiro (música tradicional adaptada por José Carlos Burle);
  • Sá Marina (de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar);
  • País Tropical (de Jorge Ben Jor); 
  • Carango (de Carlos Imperial e Nonato Buzar); 
  • Nem Vem Que Não Tem e Mamãe Passou Açúcar em Mim (ambas de Carlos Imperial)
  • Vesti Azul (de Nonato Buzar);
  • Tributo a Martin Luther King (de Simonal em parceria com Ronaldo Bôscoli, que tornou-se um grande hino de combate ao preconceito racial).

Aqui nesta matéria especial, nós contamos todos os detalhes da carreira de Simonal.

Apesar do estrondoso sucesso inicial, Wilson Simonal terminou a vida no ostracismo e tentando provar que não tinha nenhuma ligação como informante do DOPS, quando – no auge de sua carreira e em tempos duros de regime militar – envolveu-se com agentes da polícia para tentar dar um susto em seu contador, pelo qual desconfiava que estava sendo roubado. 

A mídia e a classe artística da época passaram a boicotar Simonal, que não conseguiu (em vida) provar que não tinha envolvimento com os órgãos repressores, que prendiam e torturavam os seus colegas artistas, mas que – sim – tinha cometido um erro e pagado pelos crimes a que foi condenado ao ter participação no sequestro e tortura sofridos por seu contador.

Infelizmente, Wilson Simonal nos deixou aos 62 anos, por complicações provenientes do alcoolismo que passou a enfrentar por cair no esquecimento e ter sua brilhante carreira destruída.

Mas seu legado continua vivíssimo, tanto em suas canções maravilhosas, como em seus dois talentosos filhos – Simoninha e Max de Castro –  que tanto lutaram para provar a inocência do pai e, em 2003, conseguiram que Simonal fosse moralmente reabilitado pela Ordem dos Advogados do Brasil, em julgamento simbólico.

Sua vida virou filme (que nos mostra o quanto o racismo teve influência no julgamento imperdoável que Simonal sofreu por parte da mídia, da classe artística e da opinião pública no auge de sua carreira), musical, livro e especial comandando pelos seus filhos – o maravilhoso Baile do Simonal!

Hoje, para homenageá-lo, trouxemos a história da música “Sá Marina”, um dos principais sucessos de Simonal.

Wilson Simonal durante show televisionado em 1976 – Divulgação / YouTube / TV Tupi

A história da música “Sá Marina”

“Sá Marina” é umacomposição de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar.

Tibério, responsável pela letra, conta que inspirou-se em uma paixão platônica de sua infância, por uma mulher muito bonita que morava na cidade de Anta, no interior do Rio de Janeiro, onde ele viveu com a família até os 12 anos de idade.

Na cidade, tinha uma igrejinha e uma rua que descia o morro e dava na igrejinha, a “Rua da Ladeira”. Essa mulher, muito desejada por todos os homens da cidade, morava ali em cima da ladeira. E quando ela saía de casa descendo a rua, todos ficavam alvoroçados, inclusive Tibério.

O nome dela era Brasilina e ela era uma pessoa muito alegre, muito festiva, que provocava a alegria e a união das pessoas, era amiga de todo mundo. Até que um dia, Brasilina resolveu ir embora da cidade e mudou-se para Niterói. 

Foi então que a cidade de Anta mergulhou em uma tristeza profunda e em um silêncio danado. Os moradores só se deram conta do quanto Brasilina trazia alegria para a cidade quando ela se foi.

Veja também:

Anos depois, já músico, Tibério Gaspar recebeu uma melodia do seu parceiro Antônio Adolfo e sentiu-se inspirado a compor algo baseado naquela mulher:

“Descendo a rua da ladeira 

Só quem viu que pode contar

Cheirando a flor de laranjeira 

Sá Marina vem pra cantar

De saia branca costumeira 

Gira o sol que parou pra olhar

Com seu jeitinho tão faceira 

Fez o povo inteiro cantar

Roda pela vida afora

E põe pra fora essa alegria

Dança que amanhece o dia pra se cantar

Dança que essa gente aflita

Se agita e segue, no seu passo

Mostra toda essa poesia no olhar”

Wilson Simonal gravou a canção com muito sucesso em seu álbum “Alegria, Alegria Volume 2 ou Quem não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga”, de 1968 e o sucesso foi tanto, que a produção do famoso programa de Flávio Cavalcanti na época, foi atrás de encontrar a tal Brasilina, moça que inspirou “Sá Marina”.

Tibério Gaspar conta que a produção insistiu muito que Brasilina desse entrevistas para programas de TV da época, mas que ela preferiu manter a imagem que o compositor tinha dela de anos antes, para não perder a magia!

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Lívia Nolla é cantora, apresentadora e pesquisadora musical

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