Ouça ao vivo
Ouça ao vivo
No ar agora

A ditadura e os desafios do combate à transfobia ainda hoje no Brasil

Ana Luiza Bessa
12:00 24.04.2024
Jornalismo

A ditadura e os desafios do combate à transfobia ainda hoje no Brasil

Seis décadas depois do golpe militar, reportagem da Novabrasil conta histórias de transsexuais e travestis que sobreviveram à violência do regime e à política de “extermínio” do diferente

Ana Luiza Bessa - 24.04.2024 - 12:00
A ditadura e os desafios do combate à transfobia ainda hoje no Brasil
Trans e travestis foram perseguidas e torturadas durante a Ditadura Militar no Brasil (Foto: Juca Martins / Reprodução)

Seis décadas depois do golpe militar, reportagem da Novabrasil conta
histórias de transsexuais e travestis que sobreviveram à violência do regime e à política de “extermínio” do diferente

A impossibilidade de existir como se é. Ser uma pessoa trans no Brasil nunca foi uma tarefa fácil, mas depois de 1964 ficou quase impossível. A repressão nesse período se tornou uma política de Estado, conta Cleyton Feitosa, doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília.

“Com batidas e rondas policiais que prendiam homossexuais e principalmente travestis que se prostituiam em busca de sobrevivência nas grandes cidades brasileiras”.

Ele também explica que o período foi marcado por uma moral conservadora, que violava direitos humanos de minorias: “Como essas pessoas iriam sobreviver se não existiam oportunidades educacionais, laborais nem suporte familiar e o que lhes sobrava – a prostituição – passou a ser criminalizada pelos agentes públicos que se fundiram em cargos militares e políticos?”

“Ai vem, para, desce um policial e da um tiro na testa de uma travesti negra que tava ali na prostituição. A gente diz assim, corre enquanto vocês estão vivas. E você fica meio assim: pronto, é isso, eu sou a próxima. Quem é a próxima?”

Este relato é de Neon Cunha, uma mulher trans de 54 anos, funcionária pública e ativista lgbtqiap+. Ela conta que na época do regime militar só não foi presa porque trabalhava na prefeitura e tinha carteira assinada. Mas isso nem sempre foi suficiente para escapar da truculência da polícia: “Eles tinham mania de escolher as mais jovens. Quando eu era escolhida, sabia que era sem discussão. E aí eles faziam as atrocidades depois, por exemplo, terem pisado na sua cabeça. Literalmente te jogam no chão e pisam em você. Isso quando não éramos vítimas de estrupo desses indivíduos”.

Foto: reprodução Instaram de Neon

Em plena pandemia de HIV, muitas travestis e transsexuais fingiam ser soropositivas para escapar da violência sexual dos policiais.

Na época, o maior ponto de encontro da comunidade em São Paulo era na região central, mesmo sendo um dos locais de maior repressão: “Não tenho amigas próximas que sobreviveram. Inclusive eu tbm me perguntava, pq a gente volta para esse campo de extermínio. Pq era o único jeito de poder existir com uma pessoa semelhante a você. Pq elas não estavam nos ambientes de trabalho. Elas não estavam nas escolas. Então você tinha que ir a esses lugares, que te submetia a essa marginalidade, mas ao mesmo tempo de permitia a existir na sua totalidade. Você era mais uma como qualquer outra mulher trans e travesti naquele momento”.

Muitas histórias não podem ser mais contadas, pois foram perdidas nos manicômios. Neon ainda conta que, durante o regime militar, era comum internar homossexuais e trans em manicômios, mesmo sem diagnósticos de doenças mentais: “Pessoas que entravam saudáveis, dentro de uma lógica. Ninguém reivindicava este lugar. Porque essa pessoa tá lá? Sem falar da quantidade de pessoas que ficam sem documentos, no anonimato. Essas pessoas sequer foram fixadas com seus nomes sociais e a ausência desse nome social faz total apagamento”.

Assim como ela, a presidente do grupo transrevolução, Indianarae Pereira Siqueira, é uma mulher trans e também nasceu em meio à ditadura, nos anos 70, só que em Paranaguá, no Paraná.

Viver nessa época era um ato de resistência: “Pra você existir você tinha que brigar com tudo, com a família, com o governo”, conta Indianarae.

Ainda durante o regime, na adolescência, era quase impensável assumir uma transição de gênero: “A gente não tinha todos os debates que temos hoje, as orientações. Na verdade, as nossas lutas nem contavam para quem lutava contra a ditadura. Você se cria enquanto criança e adolescente nesse meio de repressão e você vai se entender enquanto diferente e como se a sua existência não poderia acontecer. Final da operação tarântula, todas essas perseguições. A prisão era por vadiagem, correndo muito da polícia, a polícia trazia todo esse ranço da ditadura militar”.

Foto: reprodução

Operação Tarântula, Arrastão, Limpeza, Asa Branca, Salto Alto são apenas algumas das ações da polícia que vieram após a ditadura. Em São Paulo, grande parte das operações foram comandadas pelo delegado Wilson Riquetti. O alvo era claro: pessoas trans e travestis que viviam nas ruas.

“Eu já vi coisas horrorosas. Coisas que vão desde travesti tomando choque, quanto travestis sendo mortas na porrada. A gente tá falando de coisas muito cruéis, né?”, relata Sara Wagner York, professora da UERJ e pesquisadora de gênero e sexualidade, sobre ter presenciado as operações.

Foto: reprodução

A lei da “vadiagem” também era comum em Goiânia, como conta Sara: “Então todas as trans que perambulavam na noite eram automaticamente criminosas. Eu me virava muito bem porque na época ganhei um livro. Em vez de pegar bolsa, pegava o livro, pois esse livro era como se fosse um escudo de proteção. Era muito comum a polícia parar qualquer pessoa depois de um certo período da noite e bater. Bater, machucar, levar preso, em nome dessa vadiagem. E com esses livros, eu sempre tinha a desculpa de que estava voltando da casa de um colega, estava estudando para o vestibular”.

O Brasil é hoje o país que mais mata pessoas trans no mundo. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil, no ano passado 155 pessoas da comunidade foram mortas, um aumento de 10% em relação a 2022.

Na avaliação do pesquisador Cleyton Feitosa, o regime autoritário dificultou muito a resistência à transfobia: ”Deixou uma ferida que dói e se expressa até os dias atuais contra a população trans. Em vez de empatia, solidariedade e acolhimento, uma parcela da população brasileira continua perseguindo e excluindo pessoas trans da sociedade”.

< Notícia Anterior

Milhares de estudantes protestam na Argentina em diversas regiões contra os cortes de Milei na Educação

24.04.2024 08:46
Milhares de estudantes protestam na Argentina em diversas regiões contra os cortes de Milei na Educação
Próxima Notícia >

Diego Amorim: "Os recados no café de Lula"

24.04.2024 14:58
Diego Amorim: "Os recados no café de Lula"
© 2024 - novabrasil - Todos os direitos reservados
Com inteligência e tecnologia: PYXYS - Reinventing Media Business