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Larissa Abbud: “Dez entre dez brasileiros preferem feijão”
Crônicas de uma Cozinheira, com Larissa Abbud
Chef especializada em comida brasileira
Larissa Abbud: “Dez entre dez brasileiros preferem feijão”
Chef revive memórias através de ingredientes brasileiros
Antes de exercer meu oficio como cozinheira, trabalhei como repórter de televisão durante alguns anos. Enquanto jovem jornalista eu era constantemente enviada para as ruas para complementar alguma reportagem com aquilo que chamamos de “povo fala”, uma espécie de censo do jornalismo televisivo.
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Em tempos modernos basta abrir uma enquete no Instagram para ouvir a voz do povo e foi justamente isso o que fiz.
Primeiro pedi para os seguidores definirem a culinária brasileira através de um único ingrediente. As respostas foram as mais variadas e poucas vezes se resumiam em um único elemento. Na minha segunda enquete pedi um prato para definir a culinária brasileira.
Nesse caso a resposta foi praticamente unanime: feijoada. Unanime ou não, a feijoada brasileira é sim patrimônio alimentar da culinária nacional.
Existe uma grande controvérsia em relação a origem desse prato. Alguns dizem que a feijoada é originária das senzalas, criada pelos negros, que precisavam se alimentar e recebiam carnes pouco nobres como pés e orelhas de porco, linguiça e carne-seca.
Essas carnes eram misturadas com feijão e cozidas em um grande caldeirão. Já intelectuais como Câmara Cascudo e Carlos Alberto Doria defendem que a feijoada tem origem europeia e que nada mais é do que uma derivação de pratos como o Cozido, de Portugal, ou o Cassoulet, na França.
Para dar ainda mais caldo nesse feijão achei que era importante ouvir a opinião da Aline Chermoula. A Aline, entre tantas coisas, é historiadora, pesquisadora e chef de cozinha especializada em culinária diaspórica africana pelas américas.
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Eu conheci a Aline durante a pandemia quando ela participou do meu podcast sobre mulheres que empreendem na gastronomia e fiquei encantada com o trabalho dela. Disse para a Aline que estava escrevendo sobre feijão e a primeira pergunta dela foi: qual deles? Foi aí que me dei conta da variedade de tipos e formas de preparo desse ingrediente tão versátil, que aparece de norte a sul no prato do brasileiro. Feijão frade, de corda, manteiga, feijão branco, vermelho, preto ou carioquinha – que ironicamente é bem pouco consumido no Rio de Janeiro.
Cada variação de feijão tem sua peculiaridade de sabor, nutriente e textura. E pra engrossar ainda mais esse papo e abrir o apetite, Aline citou outros pratos típicos da culinária diaspórica africana e tão presentes na nossa gastronomia: acarajé, abará, baião de dois, feijão tropeiro ou rubacão. É uma lista imensa que me provoca nostalgia e dá água na boca.
Curiosamente ou não, enquanto escrevia esta coluna meu marido resolveu retomar uma experiência de infância e começou a germinar grãos de feijão. Enquanto acompanhamos o desenvolvimento diário dos brotos vejo como a cultura alimentar está enraizada nas nossas origens. Lembro dos meus tempos de criança, quando voltava da escola e o almoço estava na mesa.
Cada dia havia um prato, mas todo dia tinha arroz e feijão, essa dupla dinâmica que durante anos mereceu pouca atenção, mas que por si só já é uma refeição completa e que até hoje tem sabor de casa, seja onde eu estiver.
Como cantaram As Frenéticas “dez entre dez brasileiros preferem feijão, esse sabor bem Brasil, verdadeiro fator de união.”
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Chef de cozinha e empreendedora vivendo há 8 anos em Portugal.



