História da música “Saigon”, no aniversário de Emílio Santiago

Lívia Nolla
10:00 06.12.2025
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Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
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História da música “Saigon”, no aniversário de Emílio Santiago

Um dos maiores sucessos na voz de Emílio Santiago, “Saigon” foi inspirada em uma cidade em guerra como metáfora para um casal apaixonado em crise

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- 06.12.2025 - 10:00
História da música “Saigon”, no aniversário de Emílio Santiago
"Saigon" é um dos maiores sucessos de Emílio Santiago | Imagem: Reprodução

Hoje seria aniversário de uma das mais belas e potentes vozes e de um dos maiores intérpretes da história da MPB: Emílio Santiago completaria 79 anos neste 06 de dezembro. Por isso, vamos homenageá-lo com alguns fatos sobre a sua trajetória e também a história de um dos seus maiores sucessos: a música “Saigon”.

Mais sobre Emílio Santiago 

Emílio Santiago nasceu e cresceu no Rio de Janeiro e começou sua carreira nos anos 70, cantando em festivais de música estudantil (e vencendo todos!). 

Sua ideia, naquela época, não era ser cantor, mas sim diplomata. Eleficou extremamente incomodado quando soube que o Brasil não tinha nenhum diplomata negro no Itamaraty e, por isso, foi cursar a faculdade de Direito.

Emílio já cantava em bares e rodas de amigos da Faculdade Nacional de Direito, quando seus amigos o inscreveram, de surpresa, no seu primeiro festival estudantil. Ele venceu, chamando a atenção dos jurados, entre eles, da cantora Beth Carvalho. Mesmo tendo concluído a faculdade de Direito, a partir daí, a música já falou mais alto na vida de Emílio Santiago.

O cantor passou a apresentar-se como crooner em boates e casas noturnas cariocas, substituiu Tony Tornado no conjunto musical de Ed Lincoln e apresentou-se no famoso programa de auditório de Flávio Cavalcanti, na TV Tupi. 

Emílio Santiago lançou o seu primeiro disco em 1975, trazendo canções esquecidas de compositores consagrados da MPB. Em 1982, ganhou o concurso Rede Globo MPB Shell e, em 1984, foi escolhido como melhor intérprete no Festival dos Festivais, também da Rede Globo.

Mas, mesmo já sendo um cantor de prestígio no meio, Emílio Santiago só estourou definitivamente e tornou-se um cantor popular entre as massas, no ano de 1988, quando foi convidado pelo produtor Roberto Menescal para gravar um álbum chamado “Aquarela Brasileira”, emprestando sua voz incrível para cantar o que de melhor havia na música brasileira, reunindo sambas, boleros, música romântica e muito mais, entre clássicos revisitados e algumas canções inéditas.

O sucesso foi instantâneo e os anos 90 foram anos de ouro para Emílio Santiago. Ele ultrapassou 800 mil cópias em um só álbum e, o que era pra ser apenas um disco, transformou-se em mais sete bem sucedidos volumes da “Aquarela Brasileira”, dando ao cantor prêmios e críticas positivas no Brasil e no exterior e vendendo mais de cinco milhões de cópias. 

Com a capacidade de escolher um repertório sofisticado e de extremo bom gosto, Emílio Santiago interpretou grande parte dos maiores compositores da MPB.

Entre os grandes sucessos em sua bela voz, estão canções como: 

  • Saigon (de Cláudio Cartier, Paulo César Feital e Carlão, sobre a qual vamos conhecer a história hoje)
  • Verdade Chinesa (de Gilson e Carlos Cola)
  • Papel Machê (de João Bosco e Capinan)
  • Marina (Dorival Caymmi); Lembra de Mim (de Ivan Lins e Vitor Martins)
  • É Demais Pra Mim (de Cláudio Cartier e Marco Aurélio)
  • Tudo Que Se Quer (versão de Nelson Motta para a canção All I Ask Of You, de Andrew Lloyd Webber, Charles Hart e Richard Stilgoe)
  • Inigualável Paixão (de Adilson Bispo e Zé Roberto).

Emílio Santiago faleceu em março de 2013, vítima de um AVC, aos 66 anos de idade, deixando uma saudade eterna em todos nós.

Hoje, vamos conhecer a história por trás de um dos maiores sucessos na voz do artista: a canção “Saigon”.

História da música “Saigon”

Gravada por Emílio Santiago em seu álbum “Aquarela Brasileira 2” de 1989, a canção “Saigon” – composta por Cláudio Cartier, Paulo César Feital e Carlão – é um dos maiores e mais emblemáticos sucessos do cantor carioca.

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Mas ele não foi o primeiro a gravar a canção. A primeira gravação foi do próprio Cartier, em 1985. Depois a Beth Carvalho a gravou em 1988, no álbum “Alma do Brasil”. Mas “Saigon” estourou mesmo foi com o Emílio

Saigon é o nome de uma cidade – hoje chamada de Ho Chi Minh – qie foi o centro do conflito e a capital do Vietnã do Sul durante a Guerra do Vietnã. A cidade foi capturada pelo exército norte-vietnamita em 30 de abril de 1975, marcando o fim da guerra, após a evacuação de militares e civis americanos e sul-vietnamitas. A cidade foi então renomeada para Cidade de Ho Chi Minh para homenagear o líder revolucionário.

Na canção, os compositores utilizam a cidade vietnamita de Saigon como metáfora para o apartamento de um casal apaixonado em crise, criando uma atmosfera de intensidade emocional e caos. O verso “Nosso apartamento, um pedaço de Saigon” mostra que o lar compartilhado é marcado por conflitos, despedidas e reencontros, refletindo uma relação cheia de altos e baixos.

Emílio Santiago | Foto: Divulgação

A letra também destaca a dificuldade de romper o vínculo amoroso, mesmo diante do desejo de partir. Os autores de “Saigon” contaram sobre o processo de composição e o rumo que a música tomou em uma entrevista:

Paulo César Feital:

“Conheci o Emílio no começo dos anos 1980. O Cláudio Cartier me mostrou uma música e me pediu uma letra e eu fiz ‘Saigon‘. (…) Fiz em cima da pancadaria que estava rolando no Vietnã, e fiz um paralelo com um casal em briga, em guerra, quebrando o pau. A guerra no Vietnã já tinha passado, mas ainda era algo muito vivo na cabeça das pessoas da minha geração.”

Cláudio Cartier:

“Depois dessa música, acabei virando uma espécie de ‘pezinho de coelho’ para ele. ‘Saigon‘, no coração do Emílio, passou a ser a ‘Conceição‘ dele [comparando ao sucesso que era a marca registrada de Cauby Peixoto]. Nos shows, o pessoal sempre pedia, até o fim da vida dele, foi uma marca da qual o Emílio não conseguiu se desvencilhar, e ele gostava disso. Foi uma troca de presentes, tanto ele ganhou um presentão, quanto a gente. A satisfação foi de todo mundo, que lucrou com ‘Saigon‘. 

Tentei fazer outras ‘Saigons‘ na minha vida, mas nunca consegui. O Feital fez uma primeira letra e eu vetei porque era muito agressiva, o pau quebrava muito. Depois, ele chegou com uma segunda letra no estúdio, inacabada, eu fiquei chateado com o Feital. Ali, o produtor, Carlão, completou a letra e entrou na parceria. Nós não apostávamos no sucesso de ‘Saigon‘, a música de trabalho seria outra. Ninguém entendeu nada, as pessoas achavam que a gente tinha pago jabá nas rádios para ela tocar por dois anos sem parar. Não sei nem explicar os elementos que fizeram de ‘Saigon‘ um sucesso, era meio toada, meio jazz, meio bossa. A música era como se fosse do Emílio, ela só estourou porque ele adubou aquela flor.’

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Lívia Nolla é cantora, apresentadora e pesquisadora musical

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