MALDITA, como a Fluminense FM transformou o rock em fenômeno nacional

Clarissa Sayumi
22:59 16.09.2025
Arte e cultura

MALDITA, como a Fluminense FM transformou o rock em fenômeno nacional

Em 1982, uma rádio de Niterói rompeu padrões, libertou o som das “fitas-demo”, e levou Legião Urbana, Paralamas e Barão Vermelho para rádios de todo o país

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- 16.09.2025 - 22:59
MALDITA, como a Fluminense FM transformou o rock em fenômeno nacional
Cartaz na fachada do Canecão em 1984 com faixa da festa de dois anos da rádio Fluminense FM — Foto: Divulgação


Em meio às paredes apagadas e ao controle rígido do rádio tradicional nos anos da ditadura, surgiu uma voz audaciosa na Baía de Guanabara, a Fluminense FM. Mas não era só mais uma emissora, era A Maldita.

Em 1º de março de 1982, sob comando de Luiz Antônio Mello e equipe jovem, a rádio virou a mesa e dedicou-se 24 horas ao rock, abriu espaço para demos e bandas desconhecidas, rejeitou o “jabá” e mostrou que esse gênero poderia sim ser mainstream.

Bandas como Legião Urbana, Barão Vermelho, Blitz e Paralamas do Sucesso começaram a descobrir microfones e plateias graças a esse novo norte.

Maldita em ação, os marcos da rádio que fez o país ouvir um novo som

Origem e ruptura de padrões
A Fluminense FM já existia desde os anos 70, mas foi só em março de 1982 que entrou em uma nova fase. Um grupo jovem assumiu os microfones e decidiu jogar tudo no rock, 24 horas por dia. Não era só o som importado das paradas internacionais, as demos gravadas em fitas cassete, bandas recém-nascidas e músicas que jamais entrariam nas rádios comerciais começaram a ganhar espaço.

Uma identidade ousada
Na estreia dessa nova fase, só mulheres no comando da locução. Para a época, foi um gesto quase tão revolucionário quanto a própria proposta musical. A rádio queria criar uma identidade própria, diferente de tudo que se ouvia.

Selma Boiron, locutora da rádio Fluminense FM — Foto: Divulgação

As primeiras descobertas
Foi pela Maldita que muita gente ouviu pela primeira vez nomes como Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Barão Vermelho. Mas a rádio não parava aí, abria espaço também para quem circulava no underground carioca, de Celso Blues Boy à banda progressiva Bacamarte, passando pela ousadia da Dorsal Atlântica e pelo experimentalismo do Grupo Rumo.

Um Brasil em plena virada
O país respirava abertura política, começava a se livrar do peso da censura, e a juventude buscava novas vozes. A Maldita se transformou em trilha sonora dessa mudança. Não era só rádio, era o combustível para festas, danceterias, shows em pequenos clubes. Quando chegou o Rock in Rio em 1985, o terreno já estava preparado, e muito disso passava pelas ondas da Fluminense.

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Entre o auge e o fim
Durante mais de uma década, a Maldita foi referência para quem queria ouvir rock de verdade. Mas o tempo trouxe concorrência, a indústria fonográfica se transformou e os hábitos de consumo também. Em 1994, a rádio virou afiliada da Jovem Pan 2, mudando radicalmente o estilo. Aos poucos, foi perdendo sua essência, até deixar de existir no formato que a eternizou.

O que ficou da Maldita?

Em pouco mais de uma década no ar, a Fluminense FM ajudou a consolidar uma cena que ainda hoje é referência. Lançou nomes que se tornaram pilares da música brasileira, deu visibilidade ao underground carioca e mostrou que o rádio podia ser espaço de experimentação e não apenas de repetição das paradas.

O impacto foi tamanho que a história da Maldita virou tema de livro (A Onda Maldita, de Luiz Antônio Mello) e de filme (Aumenta que é Rock’n’Roll, de Tomás Portella, 2023), o que garante que sua contribuição não se perca na memória.

A rádio pode ter saído do ar, mas deixou um registro histórico de como uma programação ousada foi capaz de alterar o rumo da música popular no Brasil.

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