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Como ‘Qual é a Música?’ transformou sonhos em realidade
Como ‘Qual é a Música?’ transformou sonhos em realidade
Grandes artistas fizeram parte da vitrine de talentos inesquecíveis formada por quadro do Programa do Silvio Santos
“Qual é a música, Pablo?”, a plateia e os telespectadores ouviam essa frase todos os domingos no SBT. Hoje, Pablo, personagem emblemático do Programa do Silvio Santos, vive entre Madrid e o Reino Unido, de onde falou com a gente sobre os 10 anos em que trabalhou com Silvio Santos (1977-1987)

Depois de trabalhar em um banco, o artista se entregou à carreira de cantor e narrador na Boca do Lixo, no bairro da Luz, que entre as décadas de 1960 e 1980 era um reduto do cinema independente brasileiro.
Quando foi convidado para integrar a equipe do Programa Silvio Santos, criou um personagem vibrante, inspirado na estética do grupo Kiss, mas com purpurinas e muitas cores em sua maquiagem, o que se tornou uma marca registrada de sua imagem.
A ideia do figurino reluzente foi de Silvio, que acreditou no potencial do artista mesmo enquanto outros achavam que não ia dar em nada. Silvio também fazia questão de ajustar o horário de Pablo para que continuasse com seus shows na noite paulistana. “O Silvio revelou muitos artistas e ele nos reconhecia. Nas outras emissoras, as pessoas pagavam para participar, enquanto no SBT, elas recebiam para estar lá”, contou Pablo.

Além de fazer as dublagens, Pablo era produtor. “Às vezes, eu estava lá organizando a fila dos candidatos do ‘Show de Talentos’ todo maquiado e de roupa brilhante, porque de lá já tinha que ir correndo para o ‘Qual é a Música’. Era uma loucura, mas a gente era uma família”, disse.
O dublador ainda se confunde com o tempo verbal para falar do “Patrão” e de como ele é/era gentil no trato, interessado em ouvir opiniões e livre para dar suas risadas tão marcantes. “Parece que a gente dá mais valor ao que passou, eu fui muito feliz lá e não quero ficar triste agora ‘tampoco*’”.
Qual é a Música?
O clima era de competição. Os participantes? Artistas, em duplas ou grupos, que disputavam para adivinhar músicas ou completar letras de canções famosas a partir de trechos tocados no piano, pistas ou até mesmo performances ao vivo. Silvio Santos criou o “Qual é a Música?” inspirado no programa americano “Name That Tune”, adicionando, claro, o seu toque de brasilidade com elementos que ressoavam com seu público.
A primeira exibição do programa foi em 1976 e rapidamente se tornou um dos quadros mais icônicos do “Programa Silvio Santos”. O formato de quiz e a participação de artistas e bandas renomadas, que se apresentavam e participavam das dinâmicas do programa, mantinham o engajamento da plateia e do telespectador lá em cima, além de promover novos talentos da música.
O Roupa Nova, por exemplo, se tornou uma presença constante nos programas de Silvio Santos. “Neste momento de tristeza, queremos deixar nossa homenagem a esse grande mestre da comunicação e do entretenimento. Silvio Santos deixa um legado que continuará a inspirar e entreter por muitos anos”.
Com um vídeo com sua participação no Show de Talentos, Alcione relembrou encontro com Silvio: “O Brasil perde seu maior comunicador de todos os tempos. Um revolucionário, exemplo de luta e trabalho. Um exímio apoiador da cultura brasileira. Hoje a TV Brasileira despede-se de um de seus maiores nomes”.
Os Paralamas do Sucesso também participaram algumas vezes do Programa Silvio Santos “sempre compartilhando de seu carisma”, postou a banda.
“Ele me acolheu como uma filha. Eu tinha 18 anos, chegava de Belém e Silvio acreditou em mim. Obrigada, ‘Senhor Televisão’. Obrigada por ter mudado a minha vida”, disse Fafá de Belém.

“Talvez nem todos saibam… mas, a primeira pessoa que nos deu oportunidade de sermos reconhecidos foi o Silvio Santos. Ainda como calouros, a nossa primeira aparição na TV foi com ele. Essa memória – que muito nos honra e nos enche de gratidão – veio forte hoje. Nos faltam palavras para homenagear o maior comunicador que já vimos”, postou a dupla Chitãozinho & Xororó.

Disputa acirrada
A dinâmica do “Qual é a Música” ajudou a popularizar a música brasileira e teve em seu rol de maiores ganhadores Ronnie Von, Silvio Brito e Gretchen. Ronnie Von acumulou 25 vitórias consecutivas, enquanto Silvio Brito e Gretchen também se destacaram com 24 e 22 vitórias, respectivamente. Essa competição entre os artistas gerava momentos hilários, especialmente quando eles tentavam se lembrar de letras ou melodias.
A disputa era tão séria que o cantor Nahim chegou a processar o SBT por alegar que não haviam computado algumas de suas vitórias, fazendo com que ficasse de fora desse top três de vencedores.
O Rei do Baião
Um vídeo em que Silvio recebe Luiz Gonzaga tem corrido a internet. Nele, a cultura nordestina ganha palco. O Rei do Baião falou sobre suas vestimentas que misturavam referências de vaqueiros e cangaceiros, além de falar sobre a música que mais lhe emocionava: Triste Partida, de Patativa do Assaré, uma música que retrata a seca da região Nordeste.
E desse jeito, Silvio Santos disseminava a cultura brasileira, além de canções que se tornaram parte do cancioneiro popular e da memória afetiva de gerações de brasileiros.
Triste Partida
Patativa do Assaré
Meu Deus, meu Deus. . .
Setembro passou
Outubro e Novembro
Já tamo em Dezembro
Meu Deus, que é de nós,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, ai
A treze do mês
Ele fez experiência
Perdeu sua crença
Nas pedras de sal,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal
Ai, ai, ai, ai
Rompeu-se o Natal
Porém barra não veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito além
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois a barra não tem
Ai, ai, ai, ai
Sem chuva na terra
Descamba Janeiro,
Depois fevereiro
E o mesmo verão
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: “isso é castigo
não chove mais não”
Ai, ai, ai, ai
Apela pra Março
Que é o mês preferido
Do santo querido
Senhor São José
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé
Ai, ai, ai, ai
Agora pensando
Ele segue outra tria
Chamando a famia
Começa a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nós vamos a São Paulo
Viver ou morrer
Ai, ai, ai, ai
Nós vamos a São Paulo
Que a coisa tá feia
Por terras alheia
Nós vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Cá e pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar
Ai, ai, ai, ai
E vende seu burro
Jumento e o cavalo
Inté mesmo o galo
Venderam também
Meu Deus, meu Deus
Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem
Ai, ai, ai, ai
Em um caminhão
Ele joga a famia
Chegou o triste dia
Já vai viajar
Meu Deus, meu Deus
A seca terrível
Que tudo devora
Veja também:
Lhe bota pra fora
Da terra natá
Ai, ai, ai, ai
O carro já corre
No topo da serra
Oiando pra terra
Seu berço, seu lar
Meu Deus, meu Deus
Aquele nortista
Partido de pena
De longe acena
Adeus meu lugar
Ai, ai, ai, ai
No dia seguinte
Já tudo enfadado
E o carro embalado
Veloz a correr
Meu Deus, meu Deus
Tão triste, coitado
Falando saudoso
Seu filho choroso
Exclama a dizer
Ai, ai, ai, ai
De pena e saudade
Papai sei que morro
Meu pobre cachorro
Quem dá de comer?
Meu Deus, meu Deus
Já outro pergunta
Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato
Mimi vai morrer
Ai, ai, ai, ai
E a linda pequena
Tremendo de medo
“Mamãe, meus brinquedo
Meu pé de fulô?”
Meu Deus, meu Deus
Meu pé de roseira
Coitado, ele seca
E minha boneca
Também lá ficou
Ai, ai, ai, ai
E assim vão deixando
Com choro e gemido
Do berço querido
Céu lindo azul
Meu Deus, meu Deus
O pai, pesaroso
Nos filho pensando
E o carro rodando
Na estrada do Sul
Ai, ai, ai, ai
Chegaram em São Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Procura um patrão
Meu Deus, meu Deus
Só vê cara estranha
De estranha gente
Tudo é diferente
Do caro torrão
Ai, ai, ai, ai
Trabaia dois ano,
Três ano e mais ano
E sempre nos prano
De um dia vortar
Meu Deus, meu Deus
Mas nunca ele pode
Só vive devendo
E assim vai sofrendo
É sofrer sem parar
Ai, ai, ai, ai
Se arguma notícia
Das banda do norte
Tem ele por sorte
O gosto de ouvir
Meu Deus, meu Deus
Lhe bate no peito
Saudade lhe molho
E as água nos óio
Começa a cair
Ai, ai, ai, ai
Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patrão
Meu Deus, meu Deus
O tempo rolando
Vai dia e vem dia
E aquela famia
Não vorta mais não
Ai, ai, ai, ai
Distante da terra
Tão seca mas boa
Exposto à garoa
À lama e o paul
Meu Deus, meu Deus
Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo
No Norte e no Sul
Ai, ai, ai, ai



