Ziraldo ganhará uma estátua no Rio de Janeiro em homenagem a seu legado

Luciano Borborema
16:50 07.04.2024
Jornalismo

Ziraldo ganhará uma estátua no Rio de Janeiro em homenagem a seu legado

Família também deseja abrir um centro cultural para expor de forma permanente as obras do cartunista

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- 07.04.2024 - 16:50
Ziraldo ganhará uma estátua no Rio de Janeiro em homenagem a seu legado
Divulgação

Para além de suas obras, o multiartista mineiro Ziraldo, morto aos 91 anos, será eternizado em uma escultura na cidade do Rio de Janeiro, onde morou por mais de 30 anos.

O prefeito Eduardo Paes confirmou à Folha que atenderá o pedido feito pela família do cartunista durante o velório do desenhista neste domingo (7) no Museu de Arte Moderna do Rio.

Na cerimônia, a filha de Ziraldo, Fabrizia Pinto, falou sobre o desejo de ter uma estátua no Rio em homenagem a seu pai.

“Eu quero muito que meu pai tenha uma estátua no Rio de Janeiro sentadinho do lado de Drummond (Carlos Drummond de Andrade) porque eles se amavam muito e eram muito amigos”, disse, chorando.

Estátua de Carlos Drummond de Andrade na orla de Copacabana — Foto: Divulgação/Seconserva

O compositor Antonio Pinto, filho mais novo de Ziraldo, disse que a família também deseja abrir um centro cultural para expor de forma permanente as obras do pai.

“A gente tem um material vasto, com mais de 1.000 desenhos do Ziraldo e a gente quer colocar isso para as pessoas verem. Queremos fazer um centro cultural, para neste lugar ter os desenhos dele passeando, proporcionar essa experiência, para sempre”, afirmou.

Paes esteve no velório no fim da manhã e, ao sair, adiantou que o cartunista terá todas as homenagens possíveis.

“Ele tinha uma carioquice muito especial. Ele é de uma geração de mineiros que vem para o Rio mostrar todo seu talento e se espalha para todo Brasil. Vê o Menino Maluquinho, ele tinha um ‘q’ de carioquinha”, disse o prefeito à Folha. A assessoria do prefeito disse que ainda não há informações sobre o local em que a estátua ficará.

Artistas, escritores e políticos lamentaram a morte do cartunista Ziraldo, na tarde deste sábado (6), em sua casa no Rio de Janeiro, aos 91, de falência múltipla dos órgãos.

O corpo do desenhista e escritor Ziraldo foi velado no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro na manhã deste domingo (7). O sepultamento foi no Cemitério São João Batista, na Zona Sul da cidade.

O desenhista Mauricio de Sousa escreveu em suas redes sociais que perdeu mais que um grande amigo, “perdi um irmão”. “Das letras, dos traços e da vida! Mas ele estará sempre em meu coração. E nos corações de milhões de brasileiros maluquinhos de todas as idades, que seguirão apaixonados por sua obra. Viva, Ziraldo!.”

O cineasta Walter Salles afirmou que o Brasil perde um “mestre genial, lúdico, que influenciou o imaginário de gerações e gerações”.

“‘Flicts’, Jeremias o Bom, O Menino Maluquinho e tantos outros personagens nos ensinaram a sonhar e nos educaram, e o Pasquim nos ajudou a resistir, a pensar o mundo. E ainda temos suas charges demolidoras, seus cartazes de cinema, seu traço único e inesquecível. Ziraldo parte, mas seu legado imenso fica –junto com uma família de criadores maravilhosos, seus filhos Daniela, Fabrizia e Antônio, seus netos e milhões de admiradores no Brasil e no mundo”, disse o cineasta.

O presidente Lula (PT) se solidarizou com a família e os amigos de Ziraldo e destacou as “inúmeras e diversas contribuições” do cartunista para a cultura brasileira e “na defesa da imaginação, de um Brasil mais justo, com democracia e liberdade de expressão”.

A atriz Leticia Sabatella agradeceu Ziraldo pelos livros e quadrinhos e por ter “brincado com personagens, cores, humor, política”.

Como Ziraldo e Mauricio de Sousa juntaram a Mônica com o Menino Maluquinho

O desenhista Mauricio de Sousa disse que a morte de Ziraldo é como “perder um irmão”. Amigos de longa data, os dois se conheceram no início dos anos 1960, quando Sousa, ainda em início de carreira e “sonhando em ter um gibi”, foi pedir uma ajuda para o cartunista.

Mônica e o Menino Maluquinho. Foto / Divulgação

“Peguei um trem de Bauru para São Paulo e depois fui para o Rio de Janeiro, com alguns trabalhos embaixo do braço para a nossa tão importante conversa”, relembra o desenhista em texto encaminhado à reportagem.

Sousa conta que chegou a fazer para Ziraldo algumas tiras da “Turma do Pererê”. A ideia era tentar publicar o trabalho nos jornais dos Diários Associados, influente conglomerado de mídia do século passado.

As tirinhas, porém, acabaram se perdendo e nunca mais foram encontradas.

Veja também:

“A parceria não aconteceu naquele dia. Uma porta fechou e outra abriu. Mal sabia eu que, naquele dia, iria ganhar algo eterno: o meu grande irmão de produção de materiais para crianças”, afirma o criador da Turma da Mônica.

Os dois fizeram algumas parcerias anos depois. E, em 2018, lançaram um livro juntos, em que os principais personagens de ambos se encontram –“Mônica e o Menino Maluquinho na Montanha Mágica”.

O “crossover” voltou a acontecer em 2019 com a publicação de “5, 4, 3, 2, 1 Mônica e Menino Maluquinho Perdidos no Espaço”. “Hoje, meu irmão partiu para uma outra viagem. Vai deixar saudade, personagens e histórias memoráveis. Viva, Ziraldo!”

Leia na íntegra o texto encaminhado por Mauricio de Sousa

“Conheci o Ziraldo no início dos anos 1960, quando estava sonhando em ter um gibi, assim como ele.

Peguei um trem de Bauru para São Paulo e depois fui para o Rio de Janeiro, com alguns trabalhos embaixo do braço para a nossa tão importante conversa.

Na época, fiz algumas tiras do Pererê, para ele. Mas o Ziraldo as perdeu e nunca mais as vimos.

A parceria não aconteceu naquele dia. Uma porta fechou e outra abriu. Mal sabia eu que, naquele dia, iria ganhar algo eterno: o meu grande irmão de produção de materiais para crianças. E, anos depois, nossos personagens se encontraram mais de uma vez.

Hoje, meu irmão partiu para uma outra viagem. Vai deixar saudade, personagens e histórias memoráveis. Viva, Ziraldo!”

História de vida:

Ziraldo, nasceu em 24 de outubro de 1932 em Caratinga, na região leste de Minas Gerais, e tinha sete irmãos. Lá, ele viveu durante a infância. O nome dele era uma homenagem à mãe (Zizinha) e ao pai (Geraldo).

Seu primeiro desenho foi publicado quando tinha apenas seis anos de idade, no jornal “A Folha de Minas”.

Ele também era formado em direito, mas foi nas artes que ele se encontrou profissionalmente. Com Vilma Gontijo, teve três filhos: Daniela, Fabrizia e Antônio. Saiba mais sobre a história dele aqui

Obras:

Ao longo de tantos anos de carreira, Ziraldo construiu um vasto conjunto de obras. Veja quais são elas:

  • O Menino do Rio Doce 
  • Prêmio Galo de Ouro – troféu desenhado por Ziraldo para o Festival Internacional da Canção – 1966
  • A supermãe
  • Flicts
  • O Aspite
  • Turma do Pererê
  • O Menino Maluquinho
  • O Bichinho da Maçã
  • Tia Nota Dez
  • A Fábula das Três Cores
  • O Joelho Juvenal
  • O Menino da Lua
  • Menina das Estrelas
  • O Planeta Lilás
  • Uma Professora Muito Maluquinha
  • Vito Grandam
  • O Menino e seu Amigo
  • Jeremias, o Bom
  • Queremos Paz (em parceria com crianças de todo Brasil por meio do Portal Educacional)
  • O Menino Quadradinho
  • Almanaque Maluquinho – Esportes Radicais
  • Os dez amigos
  • Rolim
  • O Olho do Consumidor
  • Menina Nina
  • Lili no Mundo da Lua
  • Noções de Coisas
  • Pra Boi Dormir (Ilustrador)


Com informações da Folhapress

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