Elizeth Cardoso: a cantora que lançou “Chega de Saudade”

Lívia Nolla
20:00 16.07.2026
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Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
Arte e cultura

Elizeth Cardoso: a cantora que lançou “Chega de Saudade”

Conhecida como “A Divina", Elizeth Cardoso interpretou grandes clássicos da música brasileira com sua voz divinal, incluindo a primeira gravação de “Chega de Saudade"

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- 16.07.2026 - 20:00
Elizeth Cardoso: a cantora que lançou “Chega de Saudade”
Elizeth Cardoso | Imagem: Reprodução

Você tem ideia da importância da cantora Elizeth Cardoso para a história da música popular brasileira?

Uma das principais intérpretes e vozes da história do Brasil, Elizeth era conhecida como “A Divina” por conta da qualidade divinal de sua voz. A artista emplacou diversos sucessos inesquecíveis da MPB com sua interpretação única e potente e foi a responsável por gravar a canção que deu o pontapé inicial à Bossa Nova.

Paixão e vocação pela música

Nascida no Rio de Janeiro, no dia 16 de julho de 1920 – há exatos 106 anos – e vinda de uma família humilde que vivia próxima ao Morro da Mangueira, Elizeth Cardoso tinha o sonho de ser artista, e era levada pelo pai – seresteiro – para cantar pelos bairros da Zona Norte carioca, cobrando 10 tostões das outras crianças para ouvi-la cantar os sucessos de Vicente Celestino, de quem ela era muito admiradora.

Sua família frequentava casas de samba e festivais de música popular na cidade, além de conviver com grandes músicos na casa de Tia Ciata, mãe de santo e cozinheira baiana que tinha se mudado para o Rio de Janeiro e levando a tradição do samba de roda para a cidade, onde realizava encontros em sua casa que reuniam os principais sambistas da época. 

Considerada por muitos como uma das figuras mais influentes para o surgimento do samba carioca, Tia Ciata era amiga dos pais de Elizeth e abria as portas de sua casa na Praça Onze para reuniões de sambistas. Foi em uma dessas reuniões que foi criado o primeiro samba gravado em disco no Brasil – “Pelo Telefone –  uma composição de Donga e Mauro de Almeida.

Embora sempre almejasse brilhar nos palcos, a vida de Elizeth Cardoso não foi nada fácil: após concluir o curso primário, ela e seus irmãos tiveram que abandonar os estudos e ajudar no sustento da casa. Ela começou a trabalhar aos dez anos e, entre 1930 e 1935, foi balconista, funcionária de uma fábrica de saponáceos e cabeleireira.

Sua vida começou a mudar aos 16 anos, quando ela teve sua primeira festa de aniversário, para a qual foram convidados vários amigos de seu pai e de seu tio – também músicos – como Pixinguinha, Dilermando Reis e Jacob do Bandolim. Seu tio a apresentou a Jacob, que pediu que a jovem cantasse para os convidados da festa. 

Todos ficaram impressionados com a voz de Elizeth, que era impecável como a de uma profissional, mesmo sem nunca ter passado por aulas de canto. Jacob do Bandolim convidou Elizeth para fazer um teste na Rádio Guanabara, no qual ela foi aprovada em primeiro lugar. Foi assim que sua carreira deslanchou.

Elizeth-Cardoso
A cantora Elizeth Cardoso | Foto: Reprodução

“A Divina” inaugurou a Bossa Nova

Elizeth Cardoso realizou sua primeira apresentação em 1936, no Programa Suburbano, da Rádio Guanabara, ao lado de seu ídoloVicente Celestino, e também de Aracy de Almeida, Moreira da Silva, Noel Rosa e Marília Batista. Na semana seguinte, foi contratada para um programa semanal na rádio e a partir daí, nunca mais parou de fazer sucesso, gravando um disco atrás do outro, somando mais de 40 LPs no Brasil e outros fora do país, onde também conquistou bastante sucesso.

Com o incentivo de Ataulfo Alves, gravou seu primeiro disco em 1949 , acompanhada pela orquestra de Acir Alves. O reconhecimento veio com seu segundo disco, lançado em 1950 pela gravadora Todamérica, que incluiu o samba “Canção de Amor”, de Chocolate e Elano de Paula. 

O sucesso de “Canção de Amor” rendeu-lhe um convite para integrar a equipe da Rádio Tupi, no Rio de Janeiro. Em 1951, fez sua estreia no cinema, interpretando essa mesma canção no filme “Coração Materno”, dirigido porGilda de Abreu. 

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Em 1953, conquistou grande sucesso com o samba “Alguém como Tu”, de José Maria de Abreu eJair Amorim. Nesse mesmo ano, gravou outras obras marcantes, como “Nem Resta a Saudade” (Norival Reis eIrani de Oliveira); e os sambas “Graças a Deus” (Carioca), e “Amor que Morreu” (Nelson Cavaquinho, Roldão Lima e Gilberto Teixeira). 

Entre 1953 e 1954, acabou firmando contratos com a Rádio e TV Record, Rádio Tupi e TV Rio.

Além do choro, Elizeth consagrou-se como uma das grandes intérpretes do gênero samba-canção, surgido a partir da década de 1930, ao lado de cantoras como Nora Ney, Dalva de Oliveira e Dolores Duran. O samba-canção antecedeu o movimento da Bossa Nova, surgido ao final da década de 1950.

Elizeth Cardoso, inclusive, migrou do choro para o samba-canção e deste para a Bossa Nova, gravando, em 1958, o LP “Canção do Amor Demais”. O antológico disco trouxe a canção inaugural da Bossa Nova no país, “Chega de Saudade”, de autoria de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, com melodia ao fundo composta com a participação de um jovem baiano que tocava o violão de maneira original e inédita: João Gilberto, dono da batida ao violão que influenciou toda uma geração e, por isso, considerado o “Pai da Bossa Nova”

Em 1965, Elizeth Cardoso conquistou o segundo lugar na estreia do I Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, interpretando a canção “Valsa do Amor que Não Vem”, de Baden Powell e Vinícius de Moraes. O primeiro lugar foi da novata Elis Regina, com a canção “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes

Elizeth recebeu o título de “A Divina” do jornalista, diretor e compositor Haroldo Costa, pelo fato de ela se destacar entre todas as cantoras de sua geração a ponto de ser considerada a melhor, uma verdadeira deusa. 

Em 1957, Haroldo substituía o jornalista Sérgio Porto na seção que ele escrevia para o jornal Última Hora, sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. Foi neste artigo que Haroldo Costa inventou que um grupo apareceu na boate que Elizeth se apresentava em São Paulo, com uma faixa onde se lia “Elizeth, a Divina”. A invenção pegou e o apelido também!

A Divina também se dedicou a interpretar os sambas tradicionais de morro, consagrando-se como uma das principais cantoras de sua geração, responsável por influenciar diversas vozes que surgiram posteriormente. Elizeth faleceu em 1990, pouco antes de completar 70 anos.

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Lívia Nolla

Lívia Nolla é cantora, apresentadora e pesquisadora musical

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