Oposição recolhe assinaturas para abrir CPI da privatização da Sabesp na Alesp

Maria Eduarda Grill
07:48 17.06.2026
Jornalismo

Oposição recolhe assinaturas para abrir CPI da privatização da Sabesp na Alesp

Deputado Antônio Donato (PT) afirma que o processo favoreceu interesses ligados ao Banco Master. O governo Tarcísio responde que a venda buscou resultados e classifica o debate como politização.

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- 17.06.2026 - 07:48
Oposição recolhe assinaturas para abrir CPI da privatização da Sabesp na Alesp
Na Alesp, deputados precisam de 32 assinaturas para instalar a comissão de inquérito. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Deputados da Assembleia Legislativa de São Paulo recolhem assinaturas para instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). O objetivo é investigar possíveis irregularidades na privatização da Sabesp e um suposto favorecimento ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O requerimento é de autoria do deputado Reis. Antônio Donato (PT) assinou o pedido e detalhou as suspeitas em entrevista exclusiva à NovaBrasil.

O nome de Vorcaro carrega peso na denúncia. Em novembro de 2025, o Banco Central liquidou o Banco Master e a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, no caso descrito como a maior fraude bancária da história do país. A investigação começou em 2024, a pedido do Ministério Público Federal, e prendeu o banqueiro pela primeira vez em 18 de novembro de 2025. A PF aponta Vorcaro como líder do esquema e descreve Fabiano Zettel, seu cunhado, como operador financeiro do grupo. É a partir desse pano de fundo que a oposição paulista monta seu argumento. 

Para Donato, a trama paulista começa na campanha eleitoral de Tarcísio de Freitas. O deputado afirma que o governador recebeu ali sua maior doação, R$ 2 milhões, das mãos de Fabiano Zettel. E Zettel pesa nessa conta: cunhado de Daniel Vorcaro, ele também está preso na investigação do Banco Master. 

A partir daí, o parlamentar traça uma sequência de negócios. Logo no início do governo, conta ele, veio a primeira grande privatização: a da Emae, a Empresa Metropolitana de Águas e Energia. O Fundo Phoenix venceu o processo. Donato afirma que Nelson Tanure controla esse fundo e que a Polícia Federal o aponta como sócio oculto do Banco Master.

O deputado descreve então como o negócio se fechou. O fundo se sustentava, sobretudo, em ações da Ambipar, papéis que a CVM considera inflados artificialmente em 800%. Com esse lastro, o grupo tomou um empréstimo na XP e pagou a privatização. Em seguida, porém, deixou de quitar a dívida. Por isso, a XP assumiu o controle da Emae e, na sequência, repassou a empresa à Sabesp.

A Equatorial, por sua vez, comprou a Sabesp. Donato chama atenção para um detalhe: o presidente da Equatorial era o mesmo da Ambipar, empresa que deu origem ao fundo. “É um processo complexo, mas circular”, resumiu. Para ele, isso mostra que interesses ligados ao Banco Master e a Nelson Tanure estavam na origem da privatização.

Diante desse cenário, a oposição apresentou o pedido de CPI. Donato lembra que a comissão reúne poderes próximos aos de um inquérito policial: ela pode quebrar sigilos e convocar pessoas para depor.

Conseguir as assinaturas, no entanto, não será fácil. A oposição precisa de 32 nomes e ainda não os reuniu. O governo tem maioria na Casa. Ainda assim, Donato vê uma brecha. Ele afirma que o ano eleitoral abriu fissuras na base e que deputados antes alinhados ao governo já se afastaram. “Não é simples, mas nós estamos batalhando”, disse.

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A privatização deve pesar na disputa de 2026. Tarcísio tenta a reeleição e fez da venda uma bandeira de campanha. Do outro lado, o pré-candidato do PT, Fernando Haddad, criticou o processo. Ele questionou tanto a falta de concorrência quanto a destinação das ações. “E, para piorar, depois de vender para um só dos interessados, que obviamente ofereceu o preço que lhe convinha, porque não tinha concorrente, ainda vendeu para amigos. Para pessoas escolhidas numa mesa, com critérios absolutamente opacos e sem transparência”, declarou. Tarcísio respondeu: afirmou que a privatização buscou resultados e classificou o tema como politizado.

Donato também associa a venda à piora no serviço. Ele cita dois anos de operação privada e uma sucessão de problemas. Dos 12 mil funcionários da Sabesp, afirma, 5 mil saíram por meio de plano de demissão voluntária. Além disso, o deputado relata água barrenta em diversos bairros e acidentes frequentes.

As contas também subiram, segundo ele. Além do reajuste de 6% autorizado pela Arsesp, a empresa trocou quase 3 milhões de hidrômetros na capital. Donato classifica os novos aparelhos como ultrassensíveis e explica o efeito prático: à noite, a Sabesp reduz a pressão; pela manhã, ela volta. Quando isso acontece, afirma o deputado, os hidrômetros medem ar. “A Sabesp tá vendendo vento pro povo de São Paulo”, criticou. Como resultado, ele diz que há contas triplicando, de R$ 100 para R$ 300 e de R$ 200 para R$ 600.

A oposição já levou o caso ao Ministério Público. Além disso, cobra da Arsesp, agência reguladora do setor, uma fiscalização mais rígida.

Por fim, Donato apontou números do mercado. No dia da privatização, segundo ele, as ações da Sabesp valiam R$ 82 na bolsa, mas saíram a R$ 67; hoje, passam de R$ 150. Ele acrescentou que o lucro anual da empresa saltou de R$ 3 bilhões para R$ 9 bilhões. Para o deputado, esse ganho veio às custas da piora do serviço e do aumento das tarifas.

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