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Especial: Machado de Assis: história, obra e legado
Especial: Machado de Assis: história, obra e legado
Há mais de um século, a voz de um gênio literário desafia o tempo e o espaço. Site da Novabrasil preparou especial; confira
Pode um livro de quase 150 anos, que fala sobre memórias póstumas, fazer os leitores se sentirem tão vivos? Recentemente, Courtney Novak, a estadunidense que trouxe Machado de Assis para um post viral no TikTok, acredita que sim.
“O que eu vou fazer do resto da minha vida? Por que vocês não me alertaram que este é o melhor livro que já foi escrito?”, pergunta ao ler Memórias Póstumas de Brás Cubas.
A ideia de Courtney era ler um livro de cada país do mundo em ordem alfabética e postar o que achou deles. Antes mesmo de terminar uma das obras mais celebradas de Machado de Assis, a leitora publicou o que muitos já vivenciaram: um completo choque do que um livro pode fazer na sua vida.
Ao ler Machado, a sensação é de que o livro está falando com você e que é possível ler e reler e descobrir, a cada vez, uma nova camada. Assim, o autor é reconhecido como um dos maiores escritores da literatura brasileira, um ícone que transcende fronteiras e épocas, reconhecido em todo o mundo como gênio literário por sua habilidade de explorar a complexidade da alma humana e as sutilezas – ou completa crueldade – da sociedade do século 19, com nuances que permanecem atuais.
A Vida de Machado de Assis Carioca, Joaquim Maria Machado de Assis, nasceu em 21 de junho de 1839, no morro do Livramento. Com trajetória marcada por origens humildes, era filho de um descendente de escravizados alforriados, Francisco José de Assis, e de uma lavadeira portuguesa dos Açores, Maria Leopoldina Machado da Câmara.
Com acesso limitado à educação formal, se tornou autodidata e já, aos 15 anos, publicou seu primeiro trabalho literário. Trabalhou como tipógrafo e revisor, o que o aproximou do mundo da literatura, além de ter se dedicado ao serviço público.
Seguiu os passos do pai e se casou com uma portuguesa, Carolina Augusta, uma mulher culta que apresentou a Machado diversas obras importantes, o que contribuiu para o seu amadurecimento literário.
Primeiros trabalhos como escritor Machado de Assis começou sua carreira literária publicando poesias e crônicas em jornais e, rapidamente, ganhou notoriedade. Sua primeira fase literária – Ressurreição, A Mão e a Luva, e Helena – tem referência do Romantismo, enquanto a trilogia Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba é considerada parte de suas obras realistas.
Ávido leitor de Shakespeare, especialmente das tragédias Otelo, Hamlet e Macbeth, Machado também mescla tragédia e comédia. A construção de personagens multifacetados que enfrentam dilemas morais e existenciais
demonstram pontos de convergência entre eles. Alguns estudiosos machadianos tentaram contabilizar o número de citações do escritor inglês em suas obras e chegaram a 273 referências diretas.
A própria experiência de vida de Machado, marcada por sua ascensão social e reflexões sobre a condição humana, também contribuiu para a originalidade de sua escrita. Ele buscou retratar a sociedade brasileira de forma crítica, lançando mão da ironia e da introspecção como ferramentas literárias.
Academia Brasileira de Letras Grande amigo de José Veríssimo, Machado colaborava com a Revista Brasileira, dirigida pelo escritor paraense, e foi naquela redação que Lúcio de Mendonça deu a ideia da criação da Academia Brasileira de Letras.
Entusiasmado com o projeto, Machado de Assis comparecia às reuniões preparatórias e, no dia 28 de janeiro de 1897, foi eleito presidente da instituição. Fundou a cadeira nº 23 e colocou José de Alencar como patrono, em homenagem ao amigo. Dedicou-se à ABL até o fim de sua vida.
Obras Uma das coisas que mais surpreende quem está lendo Machado é a linguagem sofisticada e estrutura narrativa digressiva, em que a história vai e volta à medida em que os personagens resgatam memórias, além de o narrador falar diretamente com o leitor, formando aquela atmosfera de conversa.
Machado de Assis desafiou as convenções literárias de sua época, transitando do Romantismo para o Realismo, e suas obras continuam a ser estudadas e admiradas por sua relevância atemporal. Vamos às principais!
Dom Casmurro Publicado em 1899, a narrativa é centrada em Bento Santiago, conhecido como Bentinho, que revisita sua infância e juventude no Rio de Janeiro do século 19. A história começa com a promessa de sua mãe, Dona Glória, de que ele se tornaria padre, o que gera um conflito interno, já que Bentinho é apaixonado por sua amiga de infância, Capitolina ou Capitu. Após várias reviravoltas, os dois se casam, mas a relação se torna tensa quando ele começa a suspeitar de uma possível traição dela com seu melhor amigo, Escobar.
A obra é narrada em primeira pessoa, o que permite uma introspecção profunda e uma visão subjetiva dos eventos. Bentinho, como narrador-personagem, tem uma perspectiva parcial, frequentemente distorcendo a realidade para se justificar. Essa estrutura cria uma atmosfera de incerteza e ambiguidade, desafiando o leitor a interpretar a verdade por trás das palavras de Bentinho.
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Conheça os personagens
Bentinho (Bento Santiago): protagonista e um narrador em quem não se pode confiar. Evolui de um jovem introvertido a um homem amargurado e
ciumento. Sua visão distorcida dos eventos molda a narrativa, levando o leitor a questionar a veracidade de suas percepções.
· Capitu: esposa de Bentinho, descrita com olhos “oblíquos e dissimulados”. Sua complexidade e ambiguidade geram discussões sobre seu caráter e lealdade, especialmente em relação às suspeitas de traição.
· Escobar: melhor amigo de Bentinho. Sua morte trágica intensifica as inseguranças e ciúmes de Bentinho, alimentando as suspeitas sobre Capitu.
· Dona Glória: mãe de Bentinho, representa as expectativas sociais e familiares que pressionam o protagonista.
O que está por trás dessa história Dom Casmurro é uma crítica mordaz à sociedade carioca do século 19, especialmente à elite burguesa. A obra aborda temas como:
· Ciúme e desconfiança: a relação entre Bentinho e Capitu reflete as tensões de um casamento patriarcal, com a mulher frequentemente vista como objeto de posse.
· Papel da mulher: Capitu, como personagem central, questiona as normas sociais que limitam a liberdade feminina e as responsabilizam por ações que podem não ter cometido.
· Hipocrisia social: a obra expõe a hipocrisia da sociedade, em que as aparências muitas vezes ocultam verdades mais sombrias.
· Ambiguidade: a dúvida sobre a traição de Capitu é central à narrativa, levando a debates intermináveis sobre a fidelidade e a natureza humana.
· Simbolismo: a obra está repleta de simbolismos, como a famosa “cena do olhar”, que representa a complexidade das relações humanas.
Dom Casmurro vai além de um possível adultério. Por meio de sua estrutura narrativa, personagens complexos e críticas sociais, Machado de Assis oferece uma reflexão profunda sobre a condição humana, o amor, a traição e as dinâmicas sociais de sua época. A ambiguidade e a ironia presentes na obra garantem que continue sendo objeto de estudo e debate, consolidando seu lugar na literatura mundial.
Memórias Póstumas de Brás Cubas Publicado em 1881, é frequentemente considerado o marco inicial do Realismo no Brasil. A narrativa é conduzida por Brás Cubas, que, após sua morte, decide contar suas memórias. A história se desenrola em uma série de episódios que retratam sua vida, desde a infância até a vida adulta, passa por relações amorosas, frustrações e reflexões sobre a existência.
A obra é estruturada em 160 capítulos curtos, que variam em extensão e profundidade. A narrativa não é linear, com Brás Cubas alternando entre diferentes períodos de sua vida. Essa fragmentação permite uma exploração mais rica de suas memórias e reflexões. O uso de um narrador defunto é uma inovação
que desafia as convenções literárias da época, permitindo uma crítica mordaz à sociedade.
Conheça os personagens
· Brás Cubas: protagonista e narrador, observa a vida e a sociedade com um olhar cínico e irônico. Sua condição de “defunto autor” permite que critique a sociedade sem medo de represálias.
· Virgília: amante de Brás Cubas, casada com Lobo Neves, representa o amor frustrado e as complicações das relações sociais.
· Lobo Neves: marido de Virgília e político, simboliza a hipocrisia e as intrigas da elite.
· Marcela: uma jovem prostituta com quem Brás Cubas se envolve, representa a busca por amor e a superficialidade das relações.
· Quincas Borba: amigo de Brás Cubas, desenvolve a filosofia do “Humanitismo”, refletindo as ideias filosóficas da época.
O que está por trás dessa história
· Hipocrisia Social: a obra expõe as contradições da elite carioca, que vive em um mundo de aparências e futilidades.
· Futilidade da vida: Brás Cubas reflete sobre a falta de sentido da vida e a inevitabilidade da morte, culminando em sua famosa frase: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”
· Relações de poder: a narrativa critica a política e a moral da época, mostrando como as relações pessoais e políticas são permeadas por interesses e traições.
· Ironia e humor: a obra é marcada por um humor ácido e uma ironia que permeiam a narrativa, o que permite que o leitor questione as verdades apresentadas.
· Reflexão filosófica: a filosofia do “humanitismo” de Quincas Borba sugere que a vida é um jogo de interesses, é uma crítica à condição humana e à busca por significado.
· Estilo Sátira Menipeia: usa a sátira menipeia, composição literária, em verso ou prosa, usada para ridicularizar ou ironizar instituições e costumes, com foco na crítica a atitudes mentais e intelectuais, em vez de indivíduos específicos. Nesse caso, o narrador morto critica a sociedade, com uma reflexão mais profunda sobre a condição humana.
Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma obra que transcende o simples relato de uma vida.
Quincas Borba Publicado em 1891, a narrativa gira em torno de Pedro Rubião, um professor de Barbacena que se torna herdeiro do filósofo Quincas Borba, que lhe deixou sua fortuna sob a condição de cuidar de seu cachorro, também chamado Quincas Borba. Após pegar a herança, Rubião muda-se para o Rio de Janeiro, onde se vê.
Envolvido em uma série de relações sociais e amorosas, especialmente com Sofia e seu marido, Cristiano Palha. A busca de Rubião por status e aceitação na elite carioca o leva a uma espiral de ambição e desilusão, culminando em sua eventual loucura e ruína.
A obra é estruturada em capítulos curtos e apresenta uma narrativa não linear, mais uma vez, o autor usa a ironia como sua marca. A presença de um narrador que revela as fraquezas e contradições dos personagens é uma característica marcante. A narrativa é permeada por digressões filosóficas e reflexões sobre a condição humana, refletindo a complexidade da sociedade da época.
Conheça os personagens
· Pedro Rubião: protagonista da história, um homem simples que se transforma em um novo-rico após herdar a fortuna de Quincas Borba. Sua ambição e busca por aceitação o levam a se tornar uma vítima de sua própria ingenuidade e das manipulações de outros.
· Quincas Borba: o filósofo que dá nome à obra, cria a teoria do “Humanitismo”, central na narrativa. Ele representa uma paródia das ideias positivistas e darwinistas, sugerindo que a sobrevivência depende da capacidade de vencer os outros.
· Sofia: a mulher pela qual Rubião se apaixona, mas que o manipula junto com seu marido, Cristiano. Simboliza a traição e a superficialidade das relações sociais.
· Cristiano Palha: marido de Sofia, que se aproveita da ingenuidade de Rubião para obter vantagens financeiras. Representa a avareza.
O que há por trás dessa história
· Ambição e ascensão social: a obra explora a busca incessante por status e riqueza, mostrando como essa ambição pode levar à degradação moral e à perda da identidade.
Veja também:
· Hipocrisia da elite: a elite carioca é retratada como superficial e interesseira, onde as relações são baseadas em manipulações e aproveitamentos.
· Humanitismo: a filosofia de Quincas Borba, que sugere que a sobrevivência depende da capacidade de “vencer” os outros, é uma crítica ao darwinismo social e ao positivismo, questionando a ética por trás das relações sociais.
· Sátira ao positivismo: a obra parodia as teorias científicas da época, propondo uma reflexão sobre a desumanização e a “coisificação” do ser humano.
· O cão Quincas Borba: o cachorro, que representa a única companhia fiel de Rubião, simboliza a continuidade das ideias do filósofo e a ironia da situação de Rubião, que acaba se tornando um “imperador” de sua própria loucura.
· Reflexões sobre a loucura: o processo de degradação mental de Rubião é um reflexo das pressões sociais e da ambição desmedida, culminando em sua identificação com Napoleão, o que sugere uma crítica à busca por poder e status.
Em Quincas Borba, Machado de Assis oferece uma reflexão profunda sobre a condição humana e as dinâmicas sociais do Brasil do século 19.
A Cartomante Um conto publicado em 1884, explora temas como o destino, a traição e a moralidade, utilizando uma narrativa rica em ironia e complexidade psicológica. A história gira em torno de um triângulo amoroso entre Rita, Vilela e Camilo. Vilela, um homem ciumento e possessivo, é casado com Rita, que se envolve em um caso com Camilo, seu melhor amigo. Após receber uma carta anônima que sugere a traição, Camilo decide se afastar de Rita. Desesperada, ela consulta uma cartomante, que prevê um futuro promissor com Camilo. No entanto, a revelação da traição acaba desencadeando uma série de eventos trágicos, culminando em um desfecho violento.
A narrativa é contada em terceira pessoa, permitindo ao leitor uma visão ampla dos pensamentos e ações dos personagens. A prosa é marcada por ironia e um estilo direto, com um ritmo que mantém o leitor envolvido. O conto não tem divisões explícitas em capítulos, mas pode ser estruturado em partes que refletem a evolução da trama e das relações entre os personagens.
Conheça os personagens
· Rita: a esposa de Vilela, que se vê dividida entre o amor por Camilo e as obrigações de seu casamento. Sua busca por segurança emocional a leva a consultar a cartomante, refletindo sua insegurança.
· Vilela: marido possessivo de Rita, que se torna um anti-herói ao promover a tragédia que se desenrola. Sua desconfiança e ciúmes o levam a ações drásticas.
· Camilo: melhor amigo de Vilela e amante de Rita. Inicialmente cético em relação à cartomante, acaba se envolvendo nas consequências de suas ações.
· A Cartomante: figura enigmática que representa a busca por respostas e segurança. Sua previsão é um catalisador para os eventos trágicos da história.
O que há por trás dessa história
· Hipocrisia e moralidade: o adultério é tratado com ambivalência e as consequências são trágicas. A moralidade dos personagens é questionada, revelando as contradições da sociedade burguesa.
· Destinos e escolhas: a busca por certezas através da cartomante reflete a fragilidade da condição humana e a impotência diante do destino. A obra sugere que, apesar das tentativas de controlar o futuro, as consequências das ações são muitas vezes imprevisíveis.
· Intertextualidade: o conto inicia com uma citação de Hamlet, que estabelece um tom filosófico e reflexivo sobre a vida e a incerteza do destino.
· Ambiguidade dos personagens: os personagens são complexos e não se encaixando em categorias simples de herói ou vilão. Essa ambiguidade enriquece a narrativa e provoca reflexões sobre a natureza humana.
· Presença da cidade: a ambientação no Rio de Janeiro do século 19 é rica em detalhes, com referências a ruas e locais que ajudam a situar o leitor no tempo e no espaço, refletindo a vida urbana da época.
A Cartomante é uma obra que combina uma trama envolvente com uma análise crítica da sociedade e da natureza humana. Machado de Assis explora temas universais como amor, traição e destino, garantindo que o conto permaneça relevante e instigante para leitores contemporâneos.
Esaú e Jacó Publicado em 1904, é um dos últimos romances de Machado de Assis e reflete a transição política e social do Brasil no final do século 19 e início do século 20. A obra é rica em simbolismo e crítica social, explorando temas como rivalidade, identidade e a complexidade das relações humanas.
A narrativa gira em torno dos gêmeos Pedro e Paulo, que, apesar de serem idênticos em aparência, são opostos em suas personalidades e ideologias. Pedro é monarquista, cauteloso e dissimulado, enquanto Paulo é republicano, arrojado e impulsivo. Ambos se apaixonam por Flora, uma mulher indecisa que se torna o centro de um conflito que reflete a rivalidade entre os irmãos. A história se desenrola em um contexto de agitação política, especialmente em relação à Proclamação da República, e culmina em morte.
A obra é estruturada em capítulos curtos e apresenta uma narrativa que oscila entre a primeira e a terceira pessoa, criando uma ambiguidade que enriquece a leitura. O Conselheiro Aires, como narrador, proporciona uma perspectiva reflexiva e crítica sobre os eventos, permitindo que o leitor compreenda as complexidades das relações entre os personagens.
Conheça os personagens
· Pedro: o gêmeo monarquista, caracterizado pela dissimulação e cautela. Sua natureza mais conservadora o leva a agir de maneira estratégica em suas relações.
· Paulo: o gêmeo republicano, que se destaca por sua ousadia e impulsividade. Sua postura mais liberal contrasta com a de Pedro, intensificando a rivalidade entre eles.
· Flora: a mulher amada por ambos os irmãos, que representa a indecisão e a fragilidade das relações.
· Conselheiro Aires: o narrador e personagem que observa e reflete sobre as ações dos gêmeos e serve como uma figura de mediação.
O que está por trás dessa história
· Rivalidade e identidade: a obra explora a rivalidade fraternal como uma metáfora para a divisão política entre monarquia e república, questionando a verdadeira essência da identidade nacional.
· Ambiguidade política: a dualidade entre os irmãos reflete a instabilidade política do Brasil, sugerindo que tanto a monarquia quanto a república são sistemas falhos, dependentes de interesses pessoais e de grupos.
· Condição da mulher: Flora, como personagem central, simboliza a fragilidade da posição feminina em uma sociedade patriarcal. Sua indecisão e eventos trágicos refletem as limitações impostas às mulheres na época.
· Referências bíblicas: O título da obra remete à história de Esaú e Jacó da Bíblia, que também aborda rivalidade e conflito entre irmãos, estabelecendo um paralelo entre as narrativas.
· Tom melancólico e irônico: a obra é permeada por um tom melancólico que reflete a desilusão com as promessas políticas e sociais da nova república, ao mesmo tempo em que utiliza a ironia para criticar a hipocrisia da elite.
· Intertextualidade: a presença do Conselheiro Aires, que também aparece em Memorial de Aires, cria uma ligação entre as obras e sugere uma continuidade nas reflexões sobre a condição humana e a sociedade.
Esaú e Jacó é uma obra rica em simbolismo e crítica social, que explora a complexidade das relações humanas e a rivalidade política no Brasil do século 19. Através de personagens e uma narrativa ambígua, Machado de Assis oferece uma reflexão profunda sobre identidade, ambição e a fragilidade das relações.
O estilo de Machado de Assis Sutileza e complexidade como tons. Ironia e humor como ferramentas. Essa é a marca de Machado de Assis. Desigualdade social, hipocrisia e relações de poder permeiam suas obras que lançam holofote às contradições da elite brasileira do século 19.
Com personagens complexos e narrativas que frequentemente desafiam as convenções, Machado expõe a fragilidade das relações humanas e a superficialidade das aparências. A ironia é o mecanismo de desmascaramento que permite que o leitor veja além das convenções sociais e compreenda a verdadeira natureza dos personagens e suas interações.
A morte aparece de maneira recorrente em suas obras, não apenas como um evento final, mas como um elemento que permeia a vida dos personagens e molda suas experiências. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo, o narrador, um defunto que relata suas memórias, reflete sobre a futilidade da existência e a inevitabilidade da morte, questionando o legado e a importância das ações humanas. A morte daria sentido à vida?
A identidade é outro tema central na obra de Machado de Assis, que frequentemente explora a dualidade e a fragmentação do eu. Esaú e Jacó é um
exemplo. A rivalidade entre os gêmeos simboliza a luta interna entre diferentes ideologias e valores e reflete a complexidade da identidade nacional e individual em um Brasil em transformação. A busca por uma identidade autêntica é frequentemente frustrada pelas convenções sociais e pela hipocrisia, levando os personagens a uma crise existencial.
Assim, o sentido da vida é uma questão. Seus personagens sempre estão em busca de propósito em um mundo marcado pela incerteza. Em Quincas Borba, a filosofia do “humanitismo” sugere que a vida é um jogo de interesses, em que a sobrevivência depende da capacidade de vencer os outros. Essa visão cínica da existência é uma provocação sobre a moralidade e as motivações humanas, questionando se há um sentido maior por trás das ações individuais.
As obras de Machado de Assis são profundamente existenciais, explorando a morte como uma constante na vida, a identidade como um campo de conflito e a busca pelo sentido da vida em um mundo repleto de incertezas. A fragilidade é uma condição humana.
O Legado de Machado de Assis
A obra de Machado de Assis é considerada um dos pilares da literatura brasileira, exerce uma influência duradoura sobre escritores posteriores e molda a identidade literária do país.
Sua trilogia – Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro – redefiniu o Realismo no Brasil, além de ter introduzido profundidade psicológica e ironia como marcas registradas da literatura brasileira. Escritores como Graciliano Ramos, Jorge Amado e Clarice Lispector reconheceram a influência de Machado em suas obras, refletindo sua capacidade de explorar a condição humana e as nuances da sociedade.
Relevância contemporânea Continuamos lendo Machado de Assis em 2024, porque suas temáticas seguem mais vivas que nunca. A rivalidade política representada em Esaú e Jacó é uma rica metáfora que pode ser comparada ao cenário político contemporâneo.
Os gêmeos Pedro e Paulo que representam, respectivamente, a monarquia e a república, refletem a polarização política que caracterizava o Brasil na época da Proclamação da República. Diferenças ideológicas e ambições pessoais ecoam os conflitos atuais entre grupos políticos que, apesar de suas divergências, muitas vezes compartilham interesses e práticas semelhantes.
O caráter ambíguo da narrativa, em que não se pode afirmar categoricamente se Pedro e Paulo são iguais ou diferentes, sugere que as divisões políticas contemporâneas podem ser mais superficiais do que aparentam, revelando uma luta pelo poder que transcende ideologias.
Assim como na obra de Machado, a rivalidade é alimentada por interesses pessoais e manipulações, e o cenário político é permeado por disputas que
muitas vezes priorizam a ambição individual em detrimento do bem comum. As motivações humanas fundamentais permanecem constantes ao longo do tempo.
A crítica à superficialidade das aparências, em Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, pode fazer paralelo às redes sociais e à cultura da imagem. A construção de identidades muitas vezes se baseia em representações distorcidas e na busca por validação externa.
Para finalizar, a exploração da desigualdade social em Quincas Borba, com sua filosofia do “humanitismo”, continua ressoando com as discussões contemporâneas sobre desigualdade econômica e a luta por justiça.
Por isso ainda lemos Machado de Assim, por sua capacidade de capturar a essência da condição humana e suas complexidades, o que faz de sua obra uma fonte contínua de reflexão sobre a fragilidade das relações humanas, a luta pelo poder e a desconfiança mútua entre grupos opostos que continuam a moldar a dinâmica social. Assim, a capacidade de Machado de Assis de capturar a essência da condição humana e suas complexidades faz de sua obra uma fonte de reflexão e com relevância no contexto contemporâneo.


