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Histórias das músicas de Lô Borges

Lívia Nolla
17:27 10.01.2024
Música

Histórias das músicas de Lô Borges

O cantor, compositor e instrumentista mineiro Lô Borges completa 72 anos neste 10 de janeiro de 2024. E, para homenagear o aniversariante do dia e seguir homenageando grandes compositores da nossa música popular brasileira, nós damos continuidade à série Saudando Grandes Compositores da MPB, em que contamos a história de grandes clássicos … Continued

Lívia Nolla - 10.01.2024 - 17:27
Histórias das músicas de Lô Borges
(foto: João Diniz/divulgação)
por Lívia Nolla

O cantor, compositor e instrumentista mineiro Lô Borges completa 72 anos neste 10 de janeiro de 2024.

E, para homenagear o aniversariante do dia e seguir homenageando grandes compositores da nossa música popular brasileira, nós damos continuidade à série Saudando Grandes Compositores da MPB, em que contamos a história de grandes clássicos das carreiras desses artistas, trazendo as histórias das de O Trem Azul e Tudo Que Você Podia Ser.

Lô Borges. | Foto: Lucas Seixas / Folhapress
Lô Borges. | Foto: Lucas Seixas / Folhapress

Sobre Lô Borges

Lô Borges é considerado um dos compositores mais importantes e influentes da MPB, tendo sido gravado por outros grandes nomes como Tom Jobim, Elis Regina, Milton Nascimento, Flávio Venturini, Beto Guedes, Nenhum de Nós, Ira!, 14 Bis, Skank, Nando Reis, Elba Ramalhoentre outros.

O músico foi um dos fundadores do Clube da Esquina, um dos maiores e mais importantes movimentos da história da música popular brasileira, formado em meados dos anos 60, por Lô, Milton Nascimento, e outros artistas mineiros como seus irmãos Márcio e Telo Borges, Beto Guedes, Fernando Brant, Wagner Tiso e Flávio Venturini.

A sonoridade inovadora do Clube da Esquina trouxe a fundição das inovações propostas pela Bossa Nova com elementos do jazz, do rock (principalmente dos ingleses The Beatles), da música folclórica, da música regional mineira, erudita e hispânica. Essas influências permearam todo o trabalho musical do Clube: desde a composição, aos arranjos, às letras, processos de gravação em estúdio e shows.

O grupo tornou-se referência de qualidade na MPB, pelo alto nível de sua performance, e por disseminar suas inovações e influência nacional e internacionalmente. Foi também responsável por um dos mais icônicos discos da nossa história, o Clube da Esquina, de 1972, que já foi considerado o melhor disco brasileiro de todos os tempos. Depois dele, veio o Clube da Esquina 2, em 1978.

Antes de formarem o Clube da Esquina, Milton Nascimento – já conhecido no Brasil inteiro – gravou uma composição de Lô Borges (em parceria com seu irmão Márcio Borges e com Fernando Brant) em seu álbum Milton, de 1970: Para Lennon e McCartney.

tinha apenas 17 anos quando compôs essa canção e ela fez tanto sucesso na voz de Milton, que Bituca convidou para ir morar com ele no Rio de Janeiro, para gravarem – em parceria – o antológico álbum Clube da Esquina, considerado um dos melhores álbuns da história da nossa música.

Milton Nascimento acreditava tanto no talento de Lô Borges, que bateu o pé para que a sua gravadora da época – a Odeon – colocasse o nome dele e do amigo junto no título do álbum. Quando Clube da Esquina foi lançado, Lô Borges tinha apenas 20 anos. Mas a profundidade e beleza de suas canções era tanta, que a gravadora logo no mesmo ano quis gravar também o primeiro álbum solo de Lô: aquele conhecido como o Disco do Tênis.

Capa do álbum Lô Borges (1972), conhecido como o Disco do Tênis | Foto: Cafi
Capa do álbum Lô Borges (1972), conhecido como o Disco do Tênis | Foto: Cafi

Entre outras das principais canções de Lô Borges estão as clássicas: Tudo Que Você Podia Ser, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo e Trem de Doido (ambas parcerias com o irmão, Márcio Borges); O Trem Azul e Nuvem Cigana (parcerias com Ronaldo Bastos); Clube da Esquina nº 2 (com Milton Nascimento e Márcio Borges); e Paisagem da Janela (com Fernando Brant). Todas essas entraram para o álbum duplo Clube da Esquina.

Depois, em 1978, veio o segundo álbum do movimento: Clube da Esquina 2, no qual entraram as seguintes composições de Lô Borges – Ruas da Cidade (parceria com Márcio Borges) e Pão e Água (parceria com Márcio Borges e Roger Mota).

Além dos já citados, outros grandes sucessos de – que integram seus mais de 20 álbuns lançados em mais de 50 anos de carreira –  são: Calibre; Eu Sou Como Você É; Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor (parceria Márcio Borges); Dois Rios (com Samuel Rosa e Nando Reis); e Feira Moderna (com Beto Guedes e Fernando Brant).

E, para homenagear Lô Borges nesta data especial, em que ele completa 72 anos, vamos contar a história de dois de seus maiores sucessos: O Trem Azul e Tudo Que Você Podia Ser.

O Clube da Esquina era formado por Milton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges, Toninho Horta, o trespontano Wagner Tiso, Márcio Borges, Tavito e o violeiro Tavinho Moura | Foto: Divulgação
O Clube da Esquina: Milton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges, Toninho Horta, Wagner Tiso, Márcio Borges, Tavito e Tavinho Moura | Foto: Divulgação

O Trem Azul – parceria com Ronaldo Bastos (1972)

O Trem Azul entrou para o antológico álbum Clube da Esquina, de 1972, interpretada pelo próprio Lô Borges, que a compôs ao violão quando era ainda um jovem saindo da adolescência e entrando na idade adulta. Ele contou – em entrevista ao canal Um Café Lá Em Casa, do músico Nelson Faria – que escreveu a música para o Tom Jobim, “nosso maestro soberano”, em suas palavras.

Já a letra, foi criada por seu parceiro letrista Ronaldo Bastos e diz que existem muitas versões para o que é esse tal de “Trem Azul”: ele e Nelson até brincaram que poderia ser qualquer coisa / objeto na cor azul, já que os mineiros usam a palavra “trem” quando querem falar sobre uma coisa ou objeto qualquer: “Pega esse trem aí pra mim”, pode dizer um mineiro para se referir a uma caneta, um celular ou um pedaço de pão!

Lô Borges também contou que até a torcida organizada do Cruzeiro, time de futebol mineiro que tem a cor azul em sua bandeira e uniforme, acha que a música foi feita pra eles e se autodenomina Trem Azul. Mas finalizou dizendo que o próprio Ronaldo Bastos falou para ele que trata-se de um trem que ele pegou em uma viagem de Amsterdam para Paris.

O que importa, é que saiu uma belíssima letra, com um jogo de palavras muito poético, sobre alguém que se volta para si mesmo e faz uma reflexão pura, com indagações profundas sobre o sentido das coisas e da sua relação com o mundo, com a natureza, e com o outro:

 

Coisas que a gente se esquece de dizer
Frases que o vento vem às vezes me lembrar
Coisas que ficaram muito tempo por dizer
Na canção do vento não se cansam de voar

Você pega o trem azul, o Sol na cabeça
O Sol pega o trem azul, você na cabeça
Um Sol na cabeça

 

O que importa mais ainda é que Tom Jobim – ídolo para quem Lô Borges compôs a canção – gravou O Trem Azul em seu álbum Cais, de 1989, e depois a regravou em 1994,  no álbum Antônio Brasileiro, em uma versão que ele mesmo escreveu para a música em inglês, e que chamou de Blue Train, tonando-se parceiro de Lô Borges e Ronaldo Bastos na composição.

Outra gigante da MPB que gravou O Trem Azul e transformou-a em clássico na sua voz foi Elis Regina, no seu álbum Elis, de 1980.

Lô Borges (foto: Arquivo EM/D.A Press)
Lô Borges (foto: Arquivo EM/D.A Press)

Tudo Que Você Podia Ser – parceria com Márcio Borges (1971)

Tudo Que Você Podia Ser também entrou para o álbum Clube da Esquina em 1972 – aliás, ela abre o disco, interpretada por Milton Nascimento. Mas ela foi gravada por Bituca um ano antes, em um compacto.

Composta por Lô Borges em parceria com seu irmão Márcio Borges, durante o regime militar – e quando tinha apenas 17 anos – a música lamenta o clima de medo instaurado no país e o fim do sonho revolucionário dos movimentos sociais da época.

Canção de protesto, a letra traz uma linguagem poética para tratar dos perseguidos pela ditadura, com o objetivo de driblar a censura da época.

No livro Os Sonhos Não Envelhecem: Histórias do Clube da Esquina, Márcio Borges comenta sobre o período do regime militar, escrevendo que havia companheiros mortos pela repressão, colegas desaparecidos, a toda hora explodiam manifestações e quebra-quebras na cidade, confrontação e repressão.

Em entrevista para a Carta Capital, em 2012, Márcio falou um pouco sobre a composição: “Eu e meu amigo Paulo Leminski costumávamos dizer que a figura de linguagem vigente era a metáfora. No Clube isso fica claro, aquela história dos ratos em Trem de Doido ou aquilo da bota e do anel de Zapata em Tudo Que Você Podia Ser. Certamente foi o modo que os músicos da nossa geração encontraram para driblar a censura.”.

No mesmo livro, Márcio Borges ainda diz que se inspirou em uma cena de um filme chamado Viva Zapata, de Elia Kazan, em que Marlon Brando morre “picotado de balas, cercado e traído na praça estreita”. A letra traz a figura de Emiliano Zapata que foi um dos líderes da revolução mexicana de 1910 contra a ditadura do Porfírio Díaz, para criticar a nossa ditadura no Brasil, que era a ditadura de Emílio Médici.

A canção termina com uma estrofe que pode ser considerada otimista: mesmo diante da repressão, a capacidade de refletir e pensar ainda existe e isso já é melhor do que nada! É o velho lema que diz que não se pode matar uma ideia. Assim, a música traz a mensagem de que é possível resistir, mesmo em tempos difíceis.

Lô Borges contou em entrevista que criou esta composição no dia em que conheceu Paulinho da Viola e que desenvolveu toda a música a partir de um único acorde de Ré menor com sétima e quinta aumentada.

 

Com sol e chuva você sonhava
Que ia ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo que você queria ser

Sei um segredo
Você tem medo
Só pensa agora em voltar
Não fala mais na bota e no anel de Zapata
Tudo que você devia ser
Sem medo

Não se lembra mais de mim
Você não quis deixar que eu falasse de tudo
Tudo que você podia ser
Na estrada

 

Gostou de saber mais sobre as histórias de grandes canções da nossa música popular brasileira? Continue acompanhando a nossa série Saudando Grandes Compositores da MPB. Hoje, homenageamos o aniversariante Lô Borges.

 

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