Discos Antológicos: Gil & Jorge, Ogum, Xangô

Novabrasil
09:30 21.10.2022
Música

Discos Antológicos: Gil & Jorge, Ogum, Xangô

1975 foi um ano muito importante para a MPB. Isso porque ele marca o encontro antológico entre dois dos maiores nomes da nossa música de todos os tempos, que transformaram para sempre a história da cultura brasileira: o baiano Gilberto Gil e o carioca Jorge Ben Jor. Os dois juntos gravaram um álbum que é … Continued

Avatar Novabrasil
- 21.10.2022 - 09:30
Discos Antológicos: Gil & Jorge, Ogum, Xangô
Reprodução da capa "Gil & Jorge, Ogum, Xangô" | Foto: reprodução

1975 foi um ano muito importante para a MPB. Isso porque ele marca o encontro antológico entre dois dos maiores nomes da nossa música de todos os tempos, que transformaram para sempre a história da cultura brasileira: o baiano Gilberto Gil e o carioca Jorge Ben Jor. Os dois juntos gravaram um álbum que é considerado uma obra-prima da nossa música: Gil & Jorge: Ogum, Xangô

O disco antológico ocupa a posição 60 na lista divulgada pela revista Rolling Stone Brasil, dos melhores discos da música brasileira de todos os tempos. Famoso pelo seu experimentalismo e pelo improviso dos dois cantores, compositores e instrumentistas – que interagem entre si durante todo o disco – das nove faixas do LP, quatro têm mais de 10 minutos de duração.

Tudo começou no Phono 73

O grande encontro entre esses dois gênios da nossa música em estúdio começou a se configurar em maio de 1973, no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, quando a gravadora Phonogram (que hoje chama-se Universal) realizou um Festival com quase todo o seu elenco – um time de artistas brasileiros do primeiro escalão – chamado Phono 73

Entre esses artistas, estavam:

  • Chico Buarque;
  • Caetano Veloso;
  • Gilberto Gil;
  • Raul Seixas;
  • Elis Regina;
  • Gal Costa;
  • Maria Bethânia;
  • Wilson Simonal;
  • Jorge Ben Jor;
  • Toquinho;
  • Luiz Melodia;
  • Rita Lee;
  • e muitos outros. 

O Festival foi um evento de marketing da gravadora, que pretendia promover o catálogo de seus contratados. Aliada a essa estratégia de divulgação e estimulada pelas vendas do álbum Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo, a gravadora planejou que o evento enfatizasse musicalmente a diversidade de seus artistas, ao mesmo tempo em que reunisse novas parcerias entre eles.

Diferente dos grandes festivais de música realizados no país, este não era uma competição; o objetivo da Phonogram era que cada músico apresentasse dois sucessos antigos e outro inédito, além de formar dupla com um colega de gravadora de gênero e repertório completamente diferentes.

A produção do festival ficou a cargo de André Midani e Armando Pittigliani, respectivamente presidente e diretor de relações-públicas da Phonogram, os ingressos foram comercializados a preços populares em mais de 50 lojas de discos de São Paulo e o evento foi documentado no LP em três volumes Phono 73 – O Canto de um Povo.

Capa do LP Phono 73 – O Canto de um | Foto: Divulgação.

Muitos daqueles artistas haviam retornado de tempos de exílio na Europa

Entretanto, visto que o Brasil se encontrava nos anos mais pesados da ditadura militar e muitos daqueles artistas haviam retornado de tempos de exílio na Europa – como Chico, que se auto-exilou na Itália entre 1969 e 1970, e Caetano e Gil, que foram obrigados a viver em Londres entre 1970 e 1972 e tinham acabado de retornar ao país – o evento acabou tomado por um forte viés político. 

A mais célebre demonstração de censura foi quando Chico Buarque e Gilberto Gil tiveram  o som de seus microfones cortados pela gravadora durante sua apresentação da parceria recém-composta especialmente para a ocasião, Cálice, que já havia tido a letra vetada pelos censores da  ditadura. Após a apresentação, Chico anunciou que ia deixar a gravadora, que posteriormente divulgou um comunicado à imprensa responsabilizando dois fiscais do governo pelo corte do som.

Gil e Jorge Ben

Mas, uma outra apresentação em parceria chamou muita atenção: Gil e Jorge Ben Jor fizeram uma performance antológica, um momento de êxtase e brilhantismo, ao interpretarem juntos as canções Jazz Potatoes (de Jorge) e Filhos de Gandhi (de Gil).

Aquilo foi tão sublime, que – em dado momento, quando todo o elenco de artistas estava em volta de Gil e Jorge, cantando e dançando – Caetano Veloso chegou a se ajoelhar nos pés de Ben Jor e colocar a testa no chão, como em uma prece ou como numa reverência. Veja no registro:

Depois desse episódio, Jorge Ben Jor ainda lançou o icônico disco A Tábua da Esmeralda e Gilberto Gil – que tinha vindo do famoso Expresso 2222 – lançou também dois discos ao vivo, um solo e outro com Gal e Caetano: Temporada de Verão.

Gil & Jorge, Ogum, Xangô: das nove faixas do LP, quatro têm mais de 10 minutos de duração

Mas teve um último acontecimento chave, que culminou na decisão de André Midani, então presidente da gravadora – que agora já chamava Philips Record – de gravar o mais rápido possível um disco que unisse os dois gênios do violão, do swingue, da palavra, da musicalidade, do improviso, e também gênios em trazerem toda a sua ancestralidade e a ancestralidade da música afro-brasileira e a unirem com influências da música negra norte-americana em suas criações.

Foi um dia em que a gravadora recebeu o astro britânico Eric Clapton em um jantar na casa de Midani, e Gil e Jorge sentaram juntos ao violão e fizeram – novamente – um improviso musical (a chamada jam session) memorável e impressionante. 

Alguns dias depois, o baiano e o carioca entraram em estúdio para gravar o antológico Gil & Jorge: Ogum, Xangô (Ogum e Xangô são os orixás de cada um deles, respectivamente). Sem grandes ensaios, de forma orgânica e intuitiva, sem partituras, sem muita edição, acompanhados de Wagner Dias, no baixo, e Djalma Corrêa, na percussão. 

Como descreveu lindamente o jornalista Vitor Ranieri, no portal Soul Art:

“Dois dos violões mais criativos da música brasileira se comunicaram por horas, em um balé da criatividade, um resgate à essência tribal do uso dos instrumentos musicais. Juntos, inventaram de improviso um universo paralelo, sofisticado, construído pela expressão sincera de palavras, sons e sentimentos”.

As nove músicas do álbum foram gravadas em dois dias de estúdio, Gil e Jorge uniram o auge de sua criatividade, fazendo dali surgir um dos maiores discos já produzidos na história. 

Gil & Jorge, Ogum, Xangô: 4 faixas foram compostas ali, na hora

Entre as faixas, quatro são inéditas, e foram compostas ali, na hora:

Meu Glorioso São Cristóvão, composição de Jorge Ben Jor

São Cristóvão – em latim: Christophorus e, em grego,  hágios Christóforos (combinação de Christós), “Cristo”, com  féro̱, “carregar”: literalmente “aquele que carrega Cristo” ou “condutor de Cristo” – é um santo da Igreja Católica. Considerado um mártir cristão, foi morto na região da Lícia durante o reinado de Décio, imperador romano do século III.

São Cristóvão também é um bairro da cidade do Rio de Janeiro, região central, que em meados de 60 foi considerado o maior bairro industrial da América do Sul. Além disso, a Igreja de São Cristóvão é um dos centros do culto católico da capital fluminense.

Veja também:

A canção vem numa crescente, como se já estivesse sendo tocada anteriormente,  como se viesse mesmo de uma oração a São Cristóvão, e – como analisa Léo Pereira, do portal Zumbido de Bamba:

“A partir daquele momento, as vozes interiorizadas podem ser escutadas. As bases rítmicas e harmônicas já estão estabelecidas e a partir daí as vozes fazem um percurso de tensividades e dinamismo, onde o presente instante da voz está se colocando. Jorge Ben inicia o canto-falado passando por toda a ‘oração’, Gil já começa a fazer contrapontos inusitados, principalmente no violão, mas que se equivalerão, posteriormente, à sua voz. E vice-versa ao longo da música. Nada está aprisionado. As vocalidades múltiplas, próprias dos cantos étnicos, começam a se entrecruzar e a melodia começa a ganhar forma”.

Jurubeba, composição de Gilberto Gil 

A Jurubeba é uma planta medicinal de gosto amargo, que possui folhas lisas e espinhos curvos no tronco, pequenos frutos amarelos e flores da cor lilás ou branca e pode ser usada para auxiliar no tratamento de doenças, na culinária ou para preparar chás, e bebidas alcoólicas como cachaça ou vinho. 

A raiz da jurubeba pode ser usada no tratamento de doenças como a anemia, artrite, doenças do fígado ou problemas digestivos, enquanto que as folhas podem ser usadas para problemas do trato gastrointestinal como excesso de gases ou sensação de queimação no estômago, além de bronquite, tosse e problemas no fígado como hepatite ou icterícia, por exemplo.

Gil contou ao jornalista Roberto Villanova que estava em Aracaju para um show e foi acometido de um sério problema intestinal, que os remédios alopatas não curavam. Já estava decidido a cancelar o show quando a camareira do hotel lhe trouxe um chá de Jurubeba. Ele criou a canção como um discurso de agradecimento à erva medicinal, por ter-lhe curado.

Filhos de Gandhi, também de Gil.

“Chegado de Londres, em 72, eu fui passar o carnaval na Bahia, e encontrei o Afoxé Filhos de Gandhi sem massa humana na avenida, reduzido a apenas uns quarenta ou cinquenta na Praça da Sé. O bloco, tão vivo na minha memória, tinha sido um dos grandes emblemas da minha infância e era o mais antigo da cidade. Começou a sair em 49, quando eu tinha sete anos; os integrantes passavam pela porta de casa no bairro de Santo Antonio, todos de branco, com turbantes e lençóis, palhas de alho trançadas e fita na cabeça, e com um toque que era diferente do samba, da marcha, do frevo, dando uma sensação de espaço sagrado (depois viemos a saber que o afoxé era mesmo um toque religioso do candomblé). 

Eu tinha veneração pelo Gandhi, e ao revê-lo numa situação de indigência, me deu uma dor seguida de um arroubo de filialidade, de amor de filho, arrimo de família; resolvi dar uma força. A primeira coisa que fiz foi me inscrever no bloco – para ‘engrossar o caldo’. Depois fiz a música, e continuei saindo – saí treze anos seguidos. As fileiras foram aumentando, e o Gandhi se recuperando. Os jovens ficaram entusiasmados com minha presença, e os velhos se sentiram mais estimulados a trabalhar; enfim, foi um estímulo geral.”, conta Gil.

E Sarro, um improviso vocal e instrumental de 1 minuto e 22 segundos, parceria entre os dois artistas, que fecha o disco.

Já a faixa Essa É Pra Tocar no Rádio, foi lançada poucos meses depois, por Gil, no disco Refazenda.

Segundo Gil contou em suas redes sociais, a canção: “foi feita para brincar com o fato de que a execução de música no rádio é demasiadamente seletiva em função de uma série de valores próprios do veículo, de sua própria cultura interna e da cultura dos mass media, principalmente nessa fase de extrema especialização dos meios de comunicação. Para fazer piada, blague, com essa ideia seletiva das ‘dez mais’, da parada de sucesso – daquilo que só toca no rádio porque é sucesso e só é sucesso porque toca no rádio, esse círculo vicioso, essa coisa fechada da comunidade dos eleitos do sucesso paradístico. Um pouco como quem diz: ‘Essa não vai tocar no rádio, então essa é pra vocês do rádio: vocês que não tocam as coisas que poderiam ser tocadas; vocês que não têm espaço, nem tempo, nem projeto para tocar tudo, e têm que tocar apenas algumas coisas; vocês que têm que viver essa exiguidade, esse confinamento, esse reducianismo necessário para o meio'”.

Gil & Jorge, Ogum, Xangô: As outras 5 faixas são regravações

E as outras quatro faixas são regravações:

Nêga (Photograph Blues), de Gilberto Gil.

Lançada pelo baiano em 1971, no álbum Gilberto Gil, gravado e lançado enquanto ele estava no exílio em Londres – com músicas em inglês e influências do rock e do blues absorvidas pelo artista na sua vivência na capital da Inglaterra. A canção é uma declaração de amor, toda em inglês, exceto pela palavra “Nêga”.

Quem Mandou (Pé na Estrada)

Um “samba esquema novo” cheio de suingue, bem ao estilo Jorge Ben Jor de compor, que foi lançado por Wilson Simonal em 1973, no disco Olhaí, Balândro… É Bufo No Birrolho Grinza!

Taj Mahal, de Jorge Ben Jor

Lançada no disco Ben, de 1971, essa primeira versão era quase totalmente instrumental, com a letra contendo apenas as palavras Taj Mahal, Karma, Krishna e Te Te Teteretê. Era uma mistura de música indiana e brasilidade psicodélica. 

Em 1973, Ben Jor regravou a música no disco Jorge Ben 10 anos depois, inserindo o restante da letra e a batida que até hoje são sucesso em qualquer lugar. Inspirada no maior cartão postal da Índia, o mausoléu Taj Mahal, a música fala sobre a história de amor de Shah Jahan pela esposa Arjumand Bano Begum, também conhecida como Mumtaz Mahal

Jahan, que era da Dinastia Mughal, governou a Índia de 1628 a 1658. Foi patrono das artes e grande incentivador da pintura e arquitetura com temas persas e hindus. Desenvolveu e transformou a velha cidade de Déli na capital do país. Quando sua esposa Mumtaz Mahal faleceu em 1631, durante o parto de seu 14º filho, Shah Jahan decidiu construir um mausoléu em sua homenagem, que representasse o paraíso na terra. 

Shah Jahan convidou os maiores artistas e arquitetos dos impérios persa e mongol, mandou comprar os melhores mármores, encomendou rubis e jades para decorar o mais belo túmulo que alguém poderia ter. O Taj Mahal demorou 22 anos para ser construído e ficou pronto em 1654.

Feito em mármore branco, incrustado com pedras preciosas e fios de ouro, o Taj Mahal tem uma perfeita simetria de largura e altura (55 metros) e foi classificado pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade. Quando o príncipe morreu, também foi enterrado no Taj Mahal, ao lado do seu amor.

Morre o Burro, Fica o Homem, de Jorge Ben Jor.

Lançada no mesmo disco Ben, de 1971, a canção é um conselho para alguém que foi abandonado por um amor. Para que a pessoa use isso para amadurecer, olhar as margaridas na janela e partir para outra. Até porque, “neste mundo maravilhoso, vive mal quem não vive de amor”

Gil & Jorge, Ogum, Xangô, um disco antológico da música brasileira!

Siga a Novabrasil nas redes

Google News

Tags relacionadas

Especiais Gil & Jorge Gilberto Gil Jorge Ben Jor MPB mpb antiga mpb antigo mpb as melhores nostalgia mpb o melhor da mpb Ogum saudade Xangô
< Notícia Anterior

Músicas que voltaram a ser sucesso após regravação

20.10.2022 15:00
Músicas que voltaram a ser sucesso após regravação
Próxima Notícia >

Anna Ratto no Mesa Pra Dois!

21.10.2022 10:30
Anna Ratto no Mesa Pra Dois!