Uma das mais belas canções da música popular brasileira de todos os tempos leva o nome do dia de hoje, 1º de Julho, e foi composta por Renato Russo especialmente para Cássia Eller, quando a cantora estava grávida de seu filho Chicão, o Chico Chico. É sobre esse clássico da MPB que nós vamos falar hoje!

 

Cássia e Renato

Cássia Eller foi uma das maiores vozes do Brasil. Um grande ícone, um furacão que passou por aqui e nos transformou para sempre. 

Dotada de um grandioso talento vocal – timbre grave e potente – de originalidade única na interpretação e de uma performance de palco marcante e avassaladora (apesar da timidez fora dos palcos) a cantora, compositora e multi-instrumentista nos deixou cedo e inesperadamente – no auge da carreira – em dezembro de 2001, aos 39 anos, vítima de um infarto do miocárdio.

Mas isso não a impediu de fazer história e marcar para sempre a música popular brasileira. Cássia estava no auge do sucesso, e tinha acabado de lançar o seu antológico Acústico MTV e de fazer uma apresentação histórica no Rock in Rio III.

Renato Russo foi um dos maiores poetas da música popular brasileira. Cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista, foi – por 14 anos – líder de uma das mais importantes bandas do cenário rock brasileiro de todos os tempos – a Legião Urbana – e fez história com suas canções, consagradas até os dias de hoje, influenciando toda uma geração para sempre. 

Renato descobriu ser HIV positivo em 1989 e faleceu em outubro de 1996, por consequências da AIDS, mas suas letras geniais – carregadas de ideais, sensibilidade e críticas sociais – e sua interpretação única, carregam até hoje uma legião de fãs pelo Brasil inteiro.  

 

O disco

Cássia Eller e Renato Russo já eram amigos – e a cantora já havia gravado com sucesso a canção Por Enquanto, de Renato, em seu álbum de estreia, de 1990 – quando o compositor escreveu a música 1º de Julho especialmente para a amiga, que a inseriu em seu terceiro disco, de 1994. 

O álbum – responsável por alavancar de vez a carreira da cantora e lançar Cássia Eller com sucesso no cenário nacional – trazia também o grande clássico na voz da artista – a canção Malandragem (de Cazuza e Frejat) – além de outros sucessos como E.C.T (de Marisa Monte, Nando Reis e Carlinhos Brown); Socorro (de Arnaldo Antunes e Alice Ruiz); Lanterna dos Afogados (de Herbert Vianna); e Música Urbana 2 (também de Renato Russo).

 

Chicão

Em 1993, Cássia estava grávida de oito meses de seu filho, Francisco (o Chicão, como ela carinhosamente o chamava), quando Renato Russo a presenteou com a canção 1º de Julho. Chicão nasceu em 28 de agosto deste mesmo ano, e não no dia 1º de julho, como muita gente pensa, e não se sabe ao certo o motivo do nome da canção, podem haver diversas interpretações para a importância da data, mas apenas os personagens realmente envolvidos na história poderiam nos revelar, e eles – infelizmente – não estão mais aqui para nos contar.

Chicão é fruto de um relacionamento casual de Cássia Eller com o amigo e baixista de sua banda, Tavinho Fialho. Tavinho sofreu um acidente de carro e faleceu dias antes do filho nascer. Nessa época, Cássia já vivia um relacionamento estável com a companheira de uma vida, Maria Eugênia, que assumiu a maternidade de Chicão junto com Cássia

Depois da morte de Cássia Eller, Maria Eugênia lutou na justiça – contra o pai da cantora – pela guarda do filho, e ganhou a causa, tornando-se o primeiro caso do tipo na justiça brasileira e abraçando uma causa importantíssima. Cássia, antes de morrer, disse em entrevista que pretendia casar com Maria Eugênia, com quem vivia há 14 anos, quando o projeto de lei de reconhecimento da união civil entre homossexuais fosse aceito no Congresso Nacional. Pena que não deu tempo, mas as duas já consideravam-se casadas. 

O nome de Chicão foi escolhido por Cássia depois que ela escutou uma canção instrumental de Milton Nascimento chamada Francisco, que traz belíssimos improvisos vocais e vocalises de Milton. Cássia se apaixonou pela canção e depois a gravou como participação especial no disco do guitarrista Nelson Faria, Ioiô, também de 1993, com vocalises tão incríveis quanto os de Bituca. Tempos depois, ela contou para Milton que tinha escolhido o nome de seu filho por conta da canção.

Foto: Cassia Eller, Chicão e Maria Eugênia juntos.

Chicão – que acompanhou a mãe em muitos shows e palcos quando criança – hoje tornou-se um cantor, músico e compositor brilhante: o Chico Chico

Ainda criança, ele aprendeu a tocar percussão e também pandeiro (com a percussionista da banda de sua mãe, a Lan Lan), e em 2001 – então com 7 anos – participou da apresentação histórica de Cássia no Rock In Rio III, para um público de cerca de 200 mil pessoas, com um show que mostrou toda a sua versatilidade e atitude, ao misturar rock’n roll com samba, baião e MPB. 

Cássia atendeu a um pedido do filho para que ela incluísse a canção Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, no repertório do show do festival. Chicão tocou percussão na música e ganhou seu primeiro cachê de 20 reais, dados pela mãe. 

Depois disso, Chicão estudou outros instrumentos e passou a compor e cantar em bandas cariocas. Em 2015, lançou seu primeiro álbum com músicas autorais com a banda 2×0 Vargem Alta. Fez participações em discos e shows de outros artistas e, em 2020, lançou o álbum “Onde?”, em parceria com Francisco Gil, neto de Gilberto Gil. No início de 2021, lançou um álbum em parceria com João Mantuano, em que a faixa A Cidade foi indicada ao Grammy Latino de Melhor Canção em Língua Portuguesa.

Seu primeiro álbum solo, Pomares, foi lançado no final do mesmo ano. O álbum conta com um dueto de Chico Chico com a mãe Maria Eugênia na faixa Mãe, uma homenagem do cantor às suas duas mães. 

Ouvir Chico Chico nos dá um afago no coração: sua voz, seu timbre e seu jeito de cantar são muito parecidos com os de Cássia, claro, “é o mesmo DNA”, como ele mesmo diz. Mas, ao mesmo tempo, Chico Chico nos mostra o artista completo que é, dono de uma personalidade única, uma identidade formada pelos encontros musicais que teve ao longo da vida e uma sensibilidade artística que impressiona.

 

A canção

1º de Julho fala sobre maternidade, a relação futura de Cássia com o filho e também com o pai biológico de Chicão, mas também é um grande manifesto a favor do empoderamento feminino, sobre a força, a potência e a pluralidade da mulher.

Cássia adicionava a frase “meu amor, meu Chicão” ao final da canção quando a cantava ao vivo. Em 1996, a Legião Urbana incluiu 1º de Julho no álbum A Tempestade. Depois Cássia gravou mais alguns clássicos de Renato: Eu Sei e Geração Coca-Cola.

Agora, nós deixamos vocês com esta obra-prima que é 1º de Julho:

1º de Julho – Cássia Eller (Renato Russo)

Eu vejo que aprendi

O quanto te ensinei

E nos teus braços que ele vai saber

Não há por que voltar

Não penso em te seguir

Não quero mais a tua insensatez

O que fazes sem pensar aprendeste do olhar

E das palavras que eu guardei pra ti

 

Não penso em me vingar

Não sou assim

A tua insegurança era por mim

Não basta o compromisso

Vale mais o coração

Já que não me entendes, não me julgues

Não me tentes

O que sabes fazer agora

Veio tudo de nossas horas

Eu não minto, eu não sou assim

 

Ninguém sabia e ninguém viu

Que eu estava a teu lado então

Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher

Sou minha mãe e minha filha

Minha irmã, minha menina

Mas sou minha, só minha e não de quem quiser

Sou Deus, tua deusa, meu amor

Alguma coisa aconteceu

Do ventre nasce um novo coração

 

Não penso em me vingar

Não sou assim

A tua insegurança era por mim

Não basta o compromisso

Vale mais o coração

Ninguém sabia, ninguém viu

Que eu estava ao teu lado então

Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher

Sou minha mãe e minha filha

Minha irmã, minha menina

Mas sou minha, só minha e não de quem quiser

Sou Deus, tua deusa, meu amor

 

Baby, baby, baby

 

O que fazes por sonhar

É o mundo que virá pra ti e para mim

Vamos descobrir o mundo juntos baby

Quero aprender com o teu pequeno grande coração

Meu amor, meu Chicão

 

Leia o Foras de Série, série em texto sobre Cassia Eller:

#1 ForasDeSérie | CÁSSIA ELLER: A história de uma das maiores vozes brasileiras dos anos 90