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Discos Antológicos: Construção (1971), de Chico Buarque
Discos Antológicos: Construção (1971), de Chico Buarque
Em 2022, o clássico disco Construção, de Chico Buarque, completou 51 anos! Considerado um dos mais importantes da história, o disco – lançado no final de 1971 – foi classificado como o terceiro maior disco da música popular brasileira de todos os tempos, em lista elaborada pela Revista Rolling Stone Brasil, em 2007. O álbum … Continued

Em 2022, o clássico disco Construção, de Chico Buarque, completou 51 anos!
Considerado um dos mais importantes da história, o disco – lançado no final de 1971 – foi classificado como o terceiro maior disco da música popular brasileira de todos os tempos, em lista elaborada pela Revista Rolling Stone Brasil, em 2007. O álbum também está no livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer.

‘Construção’ foi o disco de retorno de Chico Buarque ao Brasil, após autoexílio
Foi o primeiro disco do artista no seu retorno ao Brasil, após 14 meses de autoexílio na Itália, em meio à ditadura militar brasileira, e traz um Chico – com apenas 27 anos, mas já consagrado – ainda mais maduro como compositor e como ser humano.
Consciente politicamente e preocupado com a realidade em que o país se encontrava naquele momento delicado, as composições do álbum falam sobre o contexto político que atravessávamos, recheadas de críticas ao regime militar vigente e às terríveis condições de vida que se encontravam no país. Também trazem mensagens de luta contra a censura imposta pelo AI-5 e a favor da liberdade de expressão.
Em ‘Construção’, as composições falam sobre o contexto político vivido durante a ditadura no Brasil
Logo que chegou de volta ao Brasil, em 1970, Chico lançou um compacto simples com duas músicas: Apesar de Você e Desalento.
O compacto foi liberado pela censura e fez enorme sucesso, até que a ditadura militar entendeu, no ano seguinte, o recado dado em Apesar de Você: uma crítica ao regime e à censura, disfarçada de uma suposta briga conjugal – e decidiu proibir a veiculação da primeira música.
Os oficiais do regime invadiram a sede da Philips e destruíram as cópias restantes do disco, que só seria liberada em 1978, entrando para o disco Chico Buarque. Diz-se que, em um interrogatório, Chico foi indagado sobre quem era o “você“ da letra da canção e respondeu:
“É uma mulher muito mandona e autoritária”.
Apesar de Você fez Chico ser implacavelmente marcado e perseguido pelos censores e suas letras passaram a sofrer as mais absurdas rejeições, chegando ao ponto do artista ter que se disfarçar sob pseudônimos para conseguir lançar algumas canções.
‘Construção’, de Chico Buarque, faixa a faixa
Do começo ao fim, vamos falar sobre cada faixa do álbum?
Deus lhe Pague
Uma crítica ao controle dos militares e à opressão sofrida no país – disfarçada de agradecimento por um humor crítico e ácido – foi vetada por “parecer um ‘recado’ com duplicidade de sentido, que tanto pode ser dirigido a alguém ou algo abstrato”. Um tempo depois, a música foi liberada sem modificações e entrou no disco.
Cotidiano
Cotidiano é outro clássico desse disco, que narra a rotina conjugal repetitiva – e quase monótona – marcada por atos envolvendo a boca: o beijo, o comer, o beber, a mordida de pavor.
Desalento
Já Desalento, parceria de Chico com Vinicius de Moraes, foi liberada direto e entrou para o álbum Construção. Outras faixas do disco enfrentaram problemas com a censura: em Cordão, os censores identificaram um “protesto contra a ordem vigente” e alegaram que o verso “Nas grades do coração” tinha “sentido dúbio”. Chico teve que substituí-lo por “As portas do coração”.
Construção
A canção que dá título ao álbum é uma das mais emblemáticas da vertente crítica de Chico Buarque: um testemunho devastador sobre as relações humilhantes, opressoras e exploradoras que envolvem capital e trabalho, com um jogo de palavras forte e genial (a complexa letra de quase sete minutos está na contracapa do LP). Construção é considerada a maior música brasileira de todos os tempos, em lista elaborada pela Revista Rolling Stone Brasil, em 2009.
Narra o último dia de vida de um trabalhador da construção civil, morto no exercício de sua profissão: desde a saída da sua casa, até o momento da queda brutal que o leva à morte. Fala da perversa relação capital/trabalho: alienadora, que nos reduz à uma condição mecânica, de máquina, de objeto, descartável e substituível.
Veja também:
Valsinha e Olha Maria
As canções Valsinha e Olha Maria trazem o lirismo já característico de Chico: a primeira é mais uma parceria do artista com Vinicius de Moraes e a segunda é da dupla com Tom Jobim, que também toca piano na faixa.
Samba de Orly
Samba de Orly é uma parceria com Toquinho, que passou um tempo visitando Chico no autoexílio da Itália e, antes de voltar para o Brasil, deixou um tema de despedida pelo tempo que passaram juntos, para que Chico colocasse a letra.
Mais tarde, Vinicius de Moraes também entrou como parceiro na composição, ao alterar um verso da canção. O poeta sugeriu que substituíssem a frase “Peço perdão pela duração desta temporada”, que achou muito leve para retratar o que Chico tinha passado no exílio, por “Peço perdão pela omissão um tanto forçada”. A frase não passou pela censura, mas Vinicius continuou assinando a composição. Toquinho participa da faixa, tocando seu característico violão.
Minha História e Acalanto
Fechando o álbum, uma versão de Chico para a canção Minha História – dos italianos Lucio Dalla e Paola Pallotino – seguida por Acalanto, feita para a sua filha, Helena.
‘Construção’ quase não existiu por conta de uma falha técnica
O álbum também conta, em algumas faixas, com a participação do quarteto de vozes MPB-4 – grandes parceiros de Chico desde a clássica apresentação de Roda Viva no III Festival de Música Brasileira – e do Trio Mocotó, na percussão e Samba de Orly.
Uma curiosidade muito interessante sobre Construção é que – gravado em uma época em que muitos equipamentos importados super tecnológicos chegavam aos estúdios brasileiros – o disco quase não existiu, por conta de uma falha técnica.
Uma orquestra com 60 músicos foi reunida para o disco. Em um descuido técnico, a gravação foi deletada
Tudo aconteceu assim: a intenção de Roberto Menescal, diretor da gravadora PolyGram na época e produtor do álbum, era fazer um disco que, para além do sucesso que Chico já alcançava entre os críticos musicais e admiradores da MPB, pudesse também ser um sucesso de vendas.
Por isso, quando o maestro Rogério Duprat, pediu que Menescal reunisse uma orquestra com cerca de 60 músicos para o disco, o diretor artístico logo atendeu.
A gravação ocorreu sem grandes problemas, mas, na hora da mixagem – quando são reunidos os áudios captados pelos diferentes canais: a orquestra, a voz de Chico, os instrumentos – algum técnico do estúdio apertou um botão errado (de uma mesa nova, que os técnicos ainda não dominavam 100%) e deletou toda a gravação da orquestra.
A orquestra teve que regravar tudo do zero
Sem chances de recuperar o conteúdo perdido e sem verba para contratar a orquestra para regravar tudo, Menescal tirou um pouco da verba destinada a trabalhos de outros artistas, que estavam sob a sua responsabilidade na gravadora, e chamou a orquestra para gravar tudo do zero.
No fim, deu tudo muito certo: Construção vendeu mais de 140 mil cópias nas primeiras quatro semanas e transformou-se em um dos maiores sucessos da carreira de Chico Buarque, que comemora mais de cinco décadas do seu lançamento .


