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Cíntia Ribeiro: “Quem quer dinheiro?”
Cíntia Ribeiro: “Quem quer dinheiro?”
O trem da vida do Seu Silvio também “é de sonho e de pó”
Acabo de voltar de um enterro.
No final de semana em que nos deixou o Silvio Santos, partiu também o Seu Alfeu, pai de uma amiga querida. Também morreu o Seu Geraldo, aqui da minha cidade. E talvez várias outras pessoas anônimas que de patrão não tinham nada. Só carisma. Ou câncer. A doença que levou o Professor Gil, meu pai, há pouco mais de oito anos.
No velório do Seu Alfeu, a família reverentemente se despediu de seu querido ao som de “Romaria”, canção composta por Renato Teixeira que explodiu na voz de Elis Regina, em 1977. Nunca tinha ouvido essa música em um contexto tão triste. E tão bonito.
A letra faz referências ao caipira e ao romeiro que vai a Aparecida em devoção à Nossa Senhora, padroeira do Brasil. “Romaria” se tornou popular não apenas por sua beleza harmônica, mas também por trazer essas expressões do inconsciente coletivo do povo brasileiro.
Mesmo povo que, no último final de semana, lotou a internet de tributos e homenagens ao camelô que se tornou uma lenda da televisão mundial. Que se divertia com Maísa, uma menina de cinco anos que puxava sua peruca em rede nacional.
Aplaudimos jornadas de heróis, mas queremos histórias de carne e osso.
O trem da vida do Seu Silvio também “é de sonho e de pó”.
E isso nos dá uma estranha tranquilidade. Uma identificação plácida. Um alívio estapafúrdio. A morte de Silvio Santos – e do Seu Alfeu, e do Seu Geraldo, e de tantos anônimos, e do Professor Gil, meu pai – são lembretes da nossa humanidade.
Hoje? Hoje minha alma canta a urgência do presente.
Quando a efemeridade bate à nossa porta, não há chuva de aviõezinhos de cem reais que comprem nossas horas não vividas. Amores que não priorizamos. Prazeres que negligenciamos. Desculpas que nunca entregamos. Presença que desperdiçamos deslizando o dedo sobre telas e admirando feeds irreais.
A gente não quer só dinheiro, Silvio. A gente quer dinheiro e felicidade.
Não que a gente não queira dinheiro, veja bem. Mas só se estivermos inteiros. Não pela metade.
Faço referência à “Comida”, canção de protesto composta em 1987 pelos Titãs (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sergio Brito), num contexto de redemocratização pós-ditadura militar, porque o povo brasileiro, aquele da “Romaria”, ainda hoje tem fomes diversas.
E com fome de democracia, de cultura, de diversão, de arte, de respeito, de inclusão, de justiça, de equidade… como ser inteiro e não pela metade?
Se há uma fórmula “eu não sei, nunca vi”. Talvez nos reste viver o agora possível.
Ao chegar do enterro, finalmente em casa, queria escrever este texto. Mas precisava, antes, cuidar dos meus filhos. Pensar no jantar. Ver se as mochilas estavam em ordem. Atender trezentos chamados de “mãe, olha o que eu sei fazer!”. A tal maternidade real. Conhece?
Então pensei em Silvio. Em Alfeu. Em Geraldo. E tantos anônimos. No meu pai.
E, ao colocar meus pequenos na cama, lembrei de sorrir e cantar.
Minha alma canta:
“Romaria”, do Renato Teixeira
É de sonho e de pó
O destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó
De gibeira, o jiló
Dessa vida
Cumprida a Sol
Sou caipira, Pirapora Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida
Sou caipira, Pirapora Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida
O meu pai foi peão
Minha mãe, solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
À custa de aventuras
Descasei, joguei
Investi, desisti
Se há sorte, eu não sei
Nunca vi
Sou caipira, Pirapora Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida
Sou caipira, Pirapora Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida
Me disseram, porém
Que eu viesse aqui
Pra pedir em romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar
Sou caipira, Pirapora Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
Veja também:
O trem da minha vida
Sou caipira, Pirapora Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida
“Comida”, do Titãs (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sergio Brito)
Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte
A gente não quer só comida
A gente quer bebida, diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida como a vida quer
Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comer
A gente quer comer e quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer pra aliviar a dor
A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente não quer só dinheiro
A gente quer inteiro e não pela metade
Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê? (De quê?)
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte
A gente não quer só comida
A gente quer bebida, diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida como a vida quer
A gente não quer só comer
A gente quer comer e quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer pra aliviar a dor
A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente não quer só dinheiro
A gente quer inteiro e não pela metade
Diversão e arte
Para qualquer parte
Diversão, balé
Como a vida quer
Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, é
Necessidade, vontade, é
Necessidade


