Há três anos, no dia 6 de julho de 2019, nos despedíamos do grande gênio e Pai da Bossa Nova: João Gilberto

No dia 10 do mês passado, quando João completaria 91 anos, nós preparamos uma matéria super especial para homenagear o artista. Também já fizemos aqui uma super retrospectiva do movimento que o baiano de Juazeiro ajudou a fundar e consolidar no Rio de Janeiro, durante a década de 60: a Bossa Nova

E hoje, quando completamos 03 anos de sua despedida, preparamos uma relação com 03 discos essenciais para entender a obra desse grande gênio da música popular brasileira! 

Vamos lá?

João Gilberto é considerado pai da Bossa Nova | Foto: Arquivo/AE / Agência Estado via AP Images

1 – Chega de Saudade – 1959

Em meados dos anos 50, durante seus intensos estudos de violão, João Gilberto percebeu que, se cantasse mais baixo e sem vibrato, poderia adiantar ou atrasar o canto em relação ao ritmo, desde que a batida fosse constante, criando assim seu próprio tempo. Compôs a canção Bim Bom, confiante de que havia encontrado a batida que queria.  

Em 1957, com 26 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, para mostrar sua nova técnica aos músicos de lá e – quem sabe – conseguir gravá-la. Ali, foi o pontapé inicial para a sua consagração como artista e, depois, como um dos maiores gênios da música brasileira. 

Foi quando apresentou a sua música a Roberto Menescal, que o levou para participar dos encontros que ele e alguns outros jovens músicos de classe média do Rio de Janeiro – como Ronaldo Bôscoli, Nara Leão, Sérgio Ricardo e Carlos Lyra – faziam em apartamentos da zona sul carioca, entre eles, o apartamento de Nara, em Copacabana.

Todos esses músicos acabaram influenciadíssimos pela técnica de João e iniciaram o movimento da Bossa Nova que, depois, expandiu-se para as universidades e para os bares cariocas, conquistou o Brasil e o mundo. 

Logo, João conheceu Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que lhes apresentaram a canção Chega de Saudade, guardada já há um ano. A canção, inicialmente, era um chorinho e João a transformou num samba enxuto, com o violão deixando de ser mero acompanhamento e dividindo o primeiro plano com a voz, trazendo fluidez rítmica e melódica à música. 

O marco inicial da bossa nova foi quando João Gilberto – primeiro gravou o violão da canção para uma gravação de Elizeth Cardoso, em 1958 – e depois, lançou um disco (o primeiro de sua carreira) com a canção e o título Chega de Saudade, em 1959.

Disco “Chega de Saudade” (1959) de João Gilberto | Foto: Divulgação.

João inovou na gravação do disco, ao pedir aos técnicos dois microfones: um para a voz e outro para o violão. Desse modo, a harmonia passou a ser mais claramente ouvida. Até então, gravava-se apenas com um microfone, com destaque para a voz em detrimento do violão.    

O disco também contém a canção Bim Bom, que trouxe João ao Rio de Janeiro, além de Desafinado, de Newton Mendonça e Tom Jobim; Rosa Morena, de Dorival Caymmi  (João também transformava canções antigas em novas, segundo sua concepção) e Lobo Lobo, de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli.

A recepção do álbum foi um sucesso e lançou João Gilberto ao estrelato. A partir daí, ele não parou mais.  

Em 2007, Chega de Saudade foi eleito em uma lista da versão brasileira da revista Rolling Stone como o quarto melhor disco brasileiro de todos os tempos.

Em 2001, foi induzido ao Grammy Hall of Fame, premiação especial do Grammy, estabelecida em 1973 para honrar gravações (singles e álbuns) de todos os gêneros que tenham no mínimo 25 anos e, que possuam contribuição qualitativa ou histórica, desde a virada do século XX até à atualidade.

 

2 –  Getz/Gilberto de João Gilberto – 1964

Depois do sucesso de Chega de Saudade, João Gilberto gravou – em 1960 – o seu segundo LP, O Amor, o Sorriso e a Flor, que – em 1962 – chegou aos EUA e iniciou a exportação da música brasileira. 

Os artistas de jazz ficaram impactados com a forma de João Gilberto fazer música, considerando-o um fenômeno. João começa então a fazer apresentações no exterior, sendo muito aclamado pelo público, pela crítica e pelos músicos internacionais.  

Em 1962 lança seu terceiro disco – João Gilberto – e faz uma apresentação histórica, ao lado de Tom Jobim, Sérgio Mendes e outros artistas brasileiros, no Carnegie Hall, em Nova York. Em 1963, passa a viver em NY e a difundir cada vez mais a música brasileira mundo afora. 

Em 1964, lança aquele que é considerado o disco que popularizou a bossa nova em todo o mundo: Getz/Gilberto, com o saxofonista de jazz norte-americano Stan Getz.

Disco “Getz/Gilberto” (1964) de João Gilberto | Foto: Divulgação.

Outro aclamado sucesso, que ganhou quatro Grammy Awards: Melhor Álbum do Ano, Melhor Gravação do Ano (Astrud Gilberto e Stan Getz, em The Girl From Ipanema), Melhor Solista de Jazz (Getz) e Melhor Engenheiro de Som (Phil Ramone). 

Tom Jobim também participou da gravação do disco, que consagrou a esposa de João na época, Astrud Gilberto, como uma das cantoras mais importantes da música brasileira e única mulher do país a disputar as principais categorias da principal premiação da indústria da música mundial, com a interpretação da canção Garota de Ipanema, em inglês. Esta, depois, tornou-se a música brasileira mais conhecida e regravada no mundo. 

Gerações de jazzistas – como Miles Davis, Stan Getz, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Tony Bennett – foram e ainda são influenciadas por este disco, um clássico mundial da história da música. Entre as canções, além de Garota de Ipanema, Desafinado, Só Danço o Samba (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e Corcovado (Tom Jobim). 

O disco ocupa a posição 70 na lista do 100 maiores discos da música popular brasileira de todos os tempos, elaborada pela revista Rolling Stone Brasil.

 

3 – João Voz e Violão – 2000

Em 2000, João Gilberto lançou o disco João Voz e Violão. Ao ouvir o resultado, chegou a dizer que teve a alma gravada ali. O álbum clássico, apresenta novas harmonias para Desafinado e Chega de Saudade, entre resgates de antigos sambas e composições recentes de Caetano Veloso (Desde Que O Samba É Samba e Coração Vagabundo) e Gilberto Gil (Eu Vim da Bahia), num clima intimista de voz e violão

Disco “João Voz e Violão”(2000)  de João Gilberto | Foto: Divulgação.

Em sua eterna busca pela perfeição, João Gilberto mostrou-se em plena forma, no auge de seus 68 anos, com ainda muito a ensinar sobre exploração da célula rítmica da música, técnica vocal, controle de respiração e interpretação. A crítica americana declarou esse disco como uma joia, o que rendeu a João – em 2001 – seu segundo Grammy Awards, na categoria Melhor Álbum de World Music.