10 canções para comemorar os 110 anos de Jorge Amado

Novabrasil
09:30 15.08.2022
Jornalismo

10 canções para comemorar os 110 anos de Jorge Amado

No último dia 10 de agosto, celebramos os 110 anos do nascimento de Jorge Amado. O baiano de Itabuna é um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Sua obra literária conta com clássicos como: Capitães de Areia; Tieta do Agreste; Dona Flor e Seus Dois Maridos; Gabriela Cravo e Canela; O País do … Continued

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- 15.08.2022 - 09:30
10 canções para comemorar os 110 anos de Jorge Amado
Imagem do livro Jorge Amado – Uma Biografia | Foto: Reprodução/Editora Todavia

No último dia 10 de agosto, celebramos os 110 anos do nascimento de Jorge Amado.

O baiano de Itabuna é um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Sua obra literária conta com clássicos como:

  • Capitães de Areia;
  • Tieta do Agreste;
  • Dona Flor e Seus Dois Maridos;
  • Gabriela Cravo e Canela;
  • O País do Carnaval;
  • Tenda dos Milagres;
  • Tocaia Grande;
  • e Tereza Batista Cansada de Guerra.

Sua obra é uma das mais significativas da moderna ficção brasileira, sendo voltada essencialmente às raízes nacionais e, principalmente, da Bahia. São temas constantes os problemas e injustiças sociais, a política, os aspectos regionalistas, as crenças, os costumes​​, as tradições e os tipos populares do povo brasileiro. Jorge Amado ensinou os brasileiros e ao mundo a conhecerem o Brasil.

Imagem do livro Jorge Amado – Uma Biografia | Foto: Reprodução/Editora Todavia

Jorge Amado, imortal

Ele foi membro da Academia Brasileira de Letras, ocupando – de 1961 a 2001, quando faleceu aos 88 anos de idade – a cadeira de número 23, que tem por patrono José de Alencar e por primeiro ocupante Machado de Assis. Foi substituído por sua esposa, a também escritora, Zélia Gattai, no ano seguinte ao seu falecimento.

Seus livros foram traduzidos para 49 idiomas (também em braile e em formato de audiolivro), e receberam inúmeras adaptações para o cinema, teatro e televisão. O baiano recebeu diversos prêmios e nomeações – nacionais e internacionais – por sua obra e relevância para a cultura brasileira.

Seu lado compositor

Mas, vocês sabiam que – além de tudo isso – Jorge Amado também era compositor? Sim, ele é autor de algumas importantíssimas canções da música popular brasileira, tendo como seu principal parceiro outro grande baiano da nossa história, seu amigo Dorival Caymmi.

Além disso, sua obra inspirou outros grandes compositores da nossa música a comporem outros grandes clássicos da MPB.

E hoje, nós trouxemos 10 dessas canções para você conhecer:

1 – É Doce Morrer No Mar (Dorival Caymmi e Jorge Amado)

Segundo Dorival Caymmi, É Doce Morrer no Mar nasceu durante uma reunião de amigos, na casa do coronel João Amado de Faria, pai de Jorge Amado. No calor da festa, Caymmi criou a canção inspirado em Mar Morto, romance de Jorge Amado publicado em 1936, cujo tema central retrata a vida dos marinheiros no cais de Salvador, com sua rica mitologia que gira em torno de Iemanjá. 

Com grande lirismo, Jorge Amado narra esse cotidiano de trabalho árduo, marcado pelo risco de vida que se apresenta a todo momento. Homens e mulheres do cais da Bahia vivem cada dia como se fosse o último. Paixão e trabalho, instinto e sobrevivência se conjugam de maneira trágica, formando um painel lírico e trágico sobre a luta diária desses trabalhadores pela sobrevivência.

O mote “Como é doce morrer no mar”, se repete ao longo do romance, e se transformou no tema da canção. No calor da festa, o cantor e compositor baiano criou os versos: “É doce morrer no mar / nas ondas verdes do mar”. Imediatamente, Jorge Amado compôs mais alguns versos, completando a canção: “Nas ondas verdes do mar, meu bem / ele foi se afogar / fez sua cama de noivo / no colo de Iemanjá…”.

Caymmi conta que chegou a haver um concurso entre versos escritos por outros convidados presentes na reunião, mas acabaram prevalecendo os versos de Jorge Amado. É Doce Morrer no Mar foi lançada por Caymmi em 1941. Depois, foi regravada por  outros grandes nomes como Clara Nunes, Inezita Barroso, Ney Matogrosso, Lenine e Nana Caymmi.

Em 2001, a novela global Porto do Milagres, inspirada em Mar Morto, conta com a canção – interpretada por Dori Caymmi, filho de Dorival – em sua trilha.

2 – Alegre Menina (Dori Caymmi e Jorge Amado)

Falando em Dori Caymmi, Jorge Amado também é parceiro de composição do filho de seu amigo Dorival. Foi Dori quem musicou os versos de Alegre Menina, com letra correspondente à epígrafe do quarto capítulo de Gabriela, Cravo e Canela, romance de Jorge Amado, publicado em 1958.

O que fizeste sultão de minha alegre menina

Só desejava campina, colher as flores do mato

Só desejava um espelho de vidro prá se mirar

Só desejava do sol calor para bem viver

Só desejava o luar de prata prá repousar

Só desejava o amor dos homens prá bem amar”

A música foi lançada na trilha sonora da novela Gabriela, da Rede Globo, em 1975, interpretada por Djavan, que estava no início de carreira, o que ajudou muito a projetar a voz do alagoano ao Brasil inteiro. 

A trama é uma adaptação do romance Gabriela, Cravo e Canela, adaptada por Walter George Durst, com direção de Walter Avancini e Gonzaga Blota e que contou com as atuações de Sônia Braga, Armando Bógus, Paulo Gracindo e José Wilker nos papéis principais.

Gabriela, Cravo e Canela narra o caso de amor entre o árabe Nacib e a sertaneja Gabriela e compõe uma crônica do período áureo do cacau na região de Ilhéus. Além do quadro de costumes, o livro descreve alterações profundas na vida social da Bahia dos anos 1920: a abertura do porto aos grandes navios leva à ascensão do exportador carioca Mundinho Falcão e ao declínio dos coronéis, como Ramiro Bastos.

É Gabriela quem personifica as transformações de uma sociedade patriarcal, arcaica e autoritária, convulsionada pelos sopros de renovação cultural, política e econômica.

Alegre Menina era a canção tema do romance entre Nacib e Gabriela. Dori Caymmi gravou a canção em 1980, e depois ela foi regravada por nomes como Frejat, Mart’nália e  Margareth Menezes.

3 – Modinha Para Gabriela (Dorival Caymmi)


Contrariando seus hábitos, Dorival Caymmi – grande amigo e parceiro de Jorge Amado – concordou em fazer por encomenda o tema de abertura da novela Gabriela, baseada no romance Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado.

A letra da música descreve a liberdade de espírito da protagonista – interpretada pela atriz Sônia Braga – e suas principais características. Gal Costa foi escolhida para interpretar a canção-tema, que se tornou um grande sucesso na carreira da cantora baiana. 

“Quando eu vim para esse mundo

Eu não atinava em nada

Hoje eu sou Gabriela

Gabriela ê meus camaradas

 

Eu nasci assim eu cresci assim

E sou mesmo assim

Vou ser sempre assim Gabriela

Sempre Gabriela

 

Eu sou sempre igual não desejo o mal

Amo o natural etc e tal

Gabriela sempre Gabriela.”

O grande sucesso produzido por Modinha para Gabriela inspirou o álbum Gal Canta Caymmi, contendo apenas composições de Caymmi e lançado no ano seguinte ao lançamento da música.

4 – Tema de Amor de Gabriela (Tom Jobim)

Ainda falando de Gabriela, Cravo e Canela, em 1983, Sonia Braga protagonizou um filme dirigido por Bruno Barreto, também baseado na história. A trilha do longa Gabriela foi composta por Tom Jobim e a música tema – Tema de Amor de Gabriela – foi mais uma vez lindamente interpretada por Gal Costa, junto com Tom:

“Chega mais perto moço bonito

Chega mais perto meu raio de sol

A minha casa é um escuro deserto

Mas com você ela é cheia de sol”

5 – Gabriela (Tom Jobim)

Depois disso, em 1987, Tom Jobim compôs outra belíssima canção baseada na personagem título do livro Gabriela Cravo e Canela, chamada apenas Gabriela, e lançada no seu disco Passarim:

“Vim do norte vim de longe

De um lugar que já nem há

Vim dormindo pela estrada

Vim parar neste lugar

Meu cheiro é de cravo

Minha cor de canela

A minha bandeira

É verde e amarela

Pimenta de cheiro

Cebola em rodela

Um beijo na boca

Feijão na panela

Gabriela

Sempre Gabriela”

6 – Tieta – Paulo Debate e José Bonifácio

Tieta do Agreste é um romance do escritor brasileiro e baiano Jorge Amado, publicado em 1977. O volume é uma das narrativas mais longas do autor e acompanha a história da protagonista num arco de três décadas. 

Seu título completo é: Tieta do Agreste, pastora de cabras, ou A volta da filha pródiga, melodramático folhetim em cinco sensacionais episódios e comovente epílogo: emoção e suspense!

Em tom romanesco, Jorge Amado faz crônica de época e de costumes, sem perder de vista a crítica social e política. Publicado ainda no período do regime militar, o enredo antecipa questões que se tornariam centrais na vida do país, como a preocupação com o meio ambiente e as críticas às relações de poder pautadas pelo favorecimento e pela corrupção. 

O livro narra a trajetória de uma jovem e livre pastoreira de cabras em Mangue Seco e seus relacionamentos com diversos amantes nas dunas da região do interior da Bahia. Sua irmã, a carola Perpétua, denuncia ao pai as aventuras de Tieta, e a liberdade da moça escandaliza a pequena Sant’Ana do Agreste. Depois de levar uma surra de cajado, Tieta é escorraçada de casa pelo pai.

Ela passa um tempo perambulando por localidades próximas, prostituindo-se para sobreviver, e então segue para São Paulo, onde torna-se cafetina. Envia dinheiro à família, mas ninguém conhece seu paradeiro. Quando a correspondência é interrompida, Perpétua conclui que a irmã está morta. Mas após mais de 25 anos da partida, Tieta regressa rica e bem sucedida, para escandalizar ainda mais os costumes da conservadora cidade.

Com sua impetuosidade e seu espírito questionador, Tieta entrou para a galeria das grandes personagens femininas do autor, ao lado de Gabriela, Dona Flor e Tereza Batista. 

O livro foi adaptado com enorme sucesso por Aguinaldo Silva para a novela de mesmo nome que foi ao ar entre 1989 e 1990 na Rede Globo e teve como protagonista Beth Faria.

Paulo Debate e José Bonifácio (sim, o Boni, pai do Boninho, importante diretor da Rede Globo) que compuseram a canção tema de abertura da trama (cujas imagens já estavam gravadas, feitas por hans Donner) e fizeram um teste com vários intérpretes para escolher quem seria a voz da canção Tieta. Luiz Caldas foi o escolhido e tornou a música um imenso sucesso, projetando ainda mais a sua carreira.

“Vem meu amor, vem com calor

No meu corpo se enroscar

Vem minha flor, vem sem pudor

Em seus braços me matar

 

Tieta do Agreste

Lua cheia de tesão

É Lua, estrela, nuvem

Carregada de paixão”

7 – A Luz de Tieta – Caetano Veloso

Veja também:

Em 1996, Tieta do Agreste ganhou também versão cinematográfica, dirigida por Cacá Diegues, e – desta vez, com Sônia Braga no papel título.

A trilha do filme é do também baiano Caetano Veloso, leitor entusiasmado da obra de Jorge Amado. Caetano compôs – entre outras – o imenso sucesso Luz de Tieta, a mais perfeita tradução do que está por trás do folhetim de Jorge Amado. 

Nessa terra a dor é grande a ambição pequena

Carnaval e futebol

Quem não finge quem não mente

Quem mais goza e pena

É que serve de farol

 

Existe alguém em nós

Em muito dentre nós esse alguém

Que brilha mais do que milhões de sóis

E que a escuridão conhece também

Existe alguém aqui

Fundo no fundo de você de mim

Que grita para quem quiser ouvir

Quando canta assim

 

Eta, eta, eta, eta

É a lua, é o sol é a luz de Tieta, eta, eta, eta” 

Com a volta de Tieta à Santana do Agreste, a luz elétrica chega à cidade, além da proteção ao meio ambiente. Tieta é a metáfora do que pode iluminar, guiar as pessoas. É quem poderia, de verdade, guiar o povo com liberdade.

Na história, com os eleitores enganados como plateia, estas autoridades inauguram a luz elétrica com uma praça à qual dão o nome de um político local, ignorando a real responsável pelo feito. Mas, na calada da noite, a placa de metal com a homenagem ao tal político foi substituída por uma de madeira onde se lia “Praça da luz de Tieta”, feita artesanalmente pelas mãos do povo.

No filme, a música Luz de Tieta é interpretada por Caetano, Gal Costa e Didá Banda Feminina. 

8 – Coração do Agreste – Aldir Blanc e Moacyr Luz

Também composta em 1989 especialmente para a trilha sonora da novela Tieta, a canção de Aldir Blanc e Moacyr Luz ganhou grande interpretação de Fafá de Belém.

Moacyr conta que ouviu boatos de que a Rede Globo estava procurando uma música inédita para a trilha sonora da nova trama, inspirada no romance de Jorge Amado, Tieta do Agreste. O compositor se inteirou do tema e, após receber a sinopse da novela, procurou seu parceiro Aldir Blanc para a empreitada. 

A canção, com melodia de Moacyr e letra de Aldir, ficou pronta em um final de semana. A princípio, o pessoal da Globo gostou da letra, mas achou que a melodia deveria ser mais vibrante. Moacyr pediu um dia para resolver essa questão e, depois de reler os versos de Aldir algumas vezes, Coração do Agreste ficou pronta e transformou-se em um sucesso retumbante, ganhando o Prêmio Sharp de melhor canção popular de 1989.

“E eu voltei no curso

Revi o meu percurso

Me perdi no leste

E a alma renasceu

Com flores de algodão

No coração do agreste

Quando eu morava aqui

Olhava o mar azul

No afã de ir e vir

Ah! Fiz de uma saudade

A felicidade pra voltar aqui

9 – Milagres do Povo – Caetano Veloso

Caetano também compôs outra canção, baseada em outro livro de Jorge Amado: a música Milagres do Povo, lançada em 1975, foi inspirada no romance Tenda dos Milagres, de 1969, livro preferido do autor.

Tenda dos Milagres conta a trajetória do intelectual negro Pedro Archanjo, personificando a formação étnica e cultural brasileira e se confundindo com a luta do povo baiano para preservar suas tradições populares. 

Archanjo defende a miscigenação, combate o racismo e valoriza o caráter mestiço de sua cultura. Essa mescla aparece também na linguagem do romance, que incorpora termos e ritmos afro-brasileiros.

Jorge Amado conta em seu livro de memórias Navegação de Cabotagem que construiu o personagem Pedro Archanjo a partir de muitas personalidades, como o escritor Manuel Quirino, o obá Miguel Aré, o compositor Dorival Caymmi e Jorge Amado ele próprio. “De todos eles, Archanjo incorpora um traço, uma singularidade, a preferência, o tom de voz, o gosto da comida, o trato das mulheres, a malícia”, diz o escritor. 

Na juventude, Archanjo conheceu Lídio Corró, um “riscador de milagres”, que virou parceiro na luta contra o preconceito racial e religioso. A Tenda dos Milagres, no Pelourinho, lugar onde os amigos trabalhavam, era também palco de candomblé e capoeira de Angola. E os folhetos de literatura popular e os livros de Archanjo impressos na tipografia da Tenda transformaram-na em uma espécie de universidade livre da cultura popular.

Tenda dos Milagres concentra alguns dos temas mais importantes da literatura do autor, como a oposição entre mestiçagem e racismo, cultura erudita e popular, atuação política e crônica de costumes. 

Em 1985, Tenda dos Milagres virou minissérie da Rede Globo, em adaptação de Aguinaldo Silva e Regina Braga. Caetano Veloso compôs o tema de abertura da série, inspirado em uma entrevista que Jorge Amado deu ao jornal O Pasquim, na década de 70. 

Na ocasião, Caetano foi convidado para entrevistar o escritor baiano, mas não pôde estar presente e mandou as perguntas por escrito. Em uma delas perguntou que significado propriamente religioso tinha o candomblé em sua vida, já que ele era Obá de Xangô. E Jorge Amado respondeu: 

“Não sei feliz ou infelizmente, ao contrário de Caymmi, eu não tenho nenhuma fé. Sou ateu materialista convicto. Mas vi muitos milagres do candomblé. Milagres do povo”.

Quando pediram que Caetano fizesse uma música para a versão televisiva de Tenda dos Milagres, o cantor e compositor baiano citeu essa frase logo na abertura da música.

“Quem é ateu e viu milagres como eu 

Sabe que os deuses sem Deus 

Não cessam de brotar, nem cansam de esperar 

E o coração que é soberano e que é senhor

Não cabe na escravidão, não cabe no seu não 

Não cabe em si de tanto sim 

É pura dança e sexo e glória, e paira para além da história 

Ojuobá ia lá e via 

Ojuobahia”

10 – Feito Jorge Ser Amado Moraes Moreira e Fred Góes

E, para terminar, uma bela homenagem que o também baiano Moraes Moreira, em parceria com Fred Góes, fez à toda a obra de Jorge Amado, em seu disco A Revolta dos Ritmos, de 2012: Feito Jorge Ser Amado

“Jorge Amado, onde se lê

Dorival, onde se ouve

Carybé, onde se vê

Love menininha, love

Dance como quem se move

Pelos olhos de Verger

Do tempero, sendo escravo

Gabriela, Mário Cravo

Tem canela e tem dendê

Dona Flor e seus gemidos

Dona Flor e seus maridos

Dona Flor e seu prazer

O caminho de Vadinho

Canta Bahia folia

Feito Jorge ser amado

Quem é que não gostaria?

Canta Quincas Berro d’Água

Que até na morte bebia

Feito Jorge ser amado

Quem é que não gostaria?”

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