Reino Unido: turbulência no governo de Keir Starmer?

Camilo Mota
08:31 27.05.2026
Jornalismo

Reino Unido: turbulência no governo de Keir Starmer?

Britânicos vivem insatisfação e ausência de perspectivas enquanto a guerra no Irã e o "Brexit" impulsionam o aumento no custo de vida

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- 27.05.2026 - 08:31
Reino Unido: turbulência no governo de Keir Starmer?
Keir Starmer enfrenta turbulência após partido perder maioria nas eleições locais. Foto de Simon Dawson / No 10 Downing Street

O Reino Unido passa por uma crise intensa. A sensação é de que tudo subiu: luz, gás, comida, custo de vida no geral, revela a britânica Gillian East. O sentimento é o mesmo de tantos outros milhões de pessoas em meio à instabilidade do governo de Keir Starmer, que pode até cair.

Gillian é massoterapeuta e se mudou com o marido do centro da capital para os arredores de Londres. Ela também viu a filha se mudar com o companheiro e as netas para a Austrália em busca de mais “estabilidade e segurança” para as crianças.

Por um lado, jovens têm tido dificuldade para terem suas casas em Londres, onde “os preços estão nas alturas“. Por outro lado, a “queda de empresos devido à IA” e a “guerra” também “não têm ajudado“, revela Gil.

Já a brasileira Jessica Cardoso concorda que “há certo clima tenso nas opniões políticas“, mas que é uma situação “politicamente natural, não fervorosa“.

Ela se mudou para Londres há dois anos a partir da admiração pelo idioma e a cultura, que a atraíram para deixar o Brasil. Jessica trabalha com limpeza privada e conta que o fato de ser brasileira não dificulta no dia a dia por lá.

No seu círculo social, a preocupação não é necessariamente sobre o aumento do custo de vida, que ela concorda sentir desde quando se mudou, mas a situação legal no país. “Quem não está legalizado tem uma preocupação a mais“.

Mas há uma tensão. Essa crise no Reino Unido se resume numa crise de “várias crises juntas“, avalia o professor de Relações Internacionais da ESPM, Demetrius Pereira. Uma mistura de instabilidade política e econômica onde “uma alimenta a outra“. E ainda há o peso da falta de credibilidade ou firmeza por parte de Starmer, que não atende aos anseios da população.

Nas eleições locais, por exemplo, que preenchem as vagas de vereadores e prefeitos, o Partido Trabalhista de Starmer perdeu 1.496 cadeiras nos quatro países que integram o Reino Unido. O que é mais de 50% do que a legenda dispunha. Em contrapartida, a extrema-direita ganhou terreno. A situação levou à renúncia do secretário de saúde britânico, que foi apontado como possível candidato direto contra o atual premiê.

Mas por quê?

Há que se lembrar que há exatos 10 anos, o Reino Unido optou por se retirar da União Europeia, o bloco comercial e político dos países europeus. A decisão pelo “Brexit(saída do Reino Unido, em inglês) foi inédita, mas atravessada por desinformação e desconfiança.

“A partir daí, começa uma instabilidade muito grande na política britânica”, define Pereira. Desde então, o Estado britânico passou a enfrentar escassez de mão de obra e encarecimento do custo de vida, já que a nação deixou de ter acesso livre – de mercadoria e pessoas – ao restante da Europa.

Dali em diante, o movimento arriscado do Reino Unido resultou numa sucessão de primeiros-ministros. Foram seis num período de 10 anos, o que em condições normais durariam pelo menos 5 anos cada no governo. A queda mais rápida foi a de Liz Truss, que ficou no cargo por apenas 44 dias.

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Além disso, há uma série de fatores e posições dos primeiros-ministros que “não necessariamente estão atendendo a população ou as demandas da população e conseguindo acompanhar os conflitos externos que também influenciam o Reino Unido no geral“, explica o professor.

Instabilidade na Europa

E ainda há a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã.

Gillian relata que os britânicos não estão felizes com o conflito. “Vivemos um dia de cada vez e tentamos não pensar na destruição que está em curso“. A posição reflete parte do posicionamento de Keir Starmer, que se recusou a participar dos ataques contra o Irã assim como outros líderes europeus, mas que ainda defende o fim do programa nuclear iraniano.

Devido ao conflito, o secretário britânico de Energia, Ed Miliband, afirmou, no dia 26 de maio, que a escalada no Oriente Médio elevou os custos para as famílias. A partir de julho, os britânicos pagarão 13% mais caro pela energia dentro do Reino Unido.

O aumento também ocorre em demais países do continente, que decidiram não apoiar os norte-americano justamente devido às consequência da guerra e da imprevisibilidade de Trump, que já se mostrou intolerante mesmo com aliados históricos.

Na Europa, o estado de bem-estar social não tem satisfeito a população local, que teme a insegurança dos conflitos em curso, mas também do envelhecimento, do desemprego e do alto custo de vida. É o que teóricos têm definido como “ansiedade de declínio” e “backlash cultural“.

Esses são o combustível para “essa ascensão de partidos especialmente da extrema-direita – assim como no Reino Unido – em vários países europeus“, conclui o especialista.

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