– Tão pioneira quanto Chiquinha Gonzaga lá no fim de 1800, Dona Ivone Lara fez história como a primeira mulher a integrar a ala de compositores de uma escola de samba e a assinar um samba-enredo, abrindo caminho para muitas outras mulheres. Por isso, ficou conhecida como a Rainha do Samba e como a Grande Dama do Samba.

– Nascida no Rio de Janeiro, em 1921, filha de Emerentina Bento da Silva, cantora do “Rancho Flor do Abacate”, e de João da Silva Lara, mecânico de bicicletas, violonista e componente do Bloco dos Africanos.

– Aos três anos de idade, ela perdeu o pai, atropelado por um caminhão enquanto ele descarregava ferragens. A mãe também morreu cedo, quando Ivone ainda era uma adolescente.

D. Ivone Lara no Colégio Orsina da Fonseca

– Estudou no internato do Colégio Orsina da Fonseca, na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro, onde permaneceu até os 16 anos.

– Aos 12 anos, foi presenteada pelos primos – e futuros parceiros – Hélio e Fuleiro, com um pássaro Tiê-sangue. O nome do pássaro e a expressão “Oialá-oxa”, herdada da avó moçambicana, serviram de inspiração para ela compor o seu primeiro samba de partido-alto: Tiê-Tiê, parceria com os já chamados Mestre Fuleiro e Tio Hélio.

– Admirada por suas professoras de música no colégio, a pianista Lucília Villa-Lobos – esposa do maestro Villa-Lobos – e a cantora soprano Zaíra Oliveira – primeira esposa de Donga, Ivone Lara foi indicada para o coro Orfeão dos Apinacás, da Rádio Tupi, regido por Heitor Villa-Lobos.

– Zaíra foi considerada uma das maiores cantoras negras do mundo e, em 1921, ganhou um concurso do Instituto Nacional de Música que tinha como prêmio uma viagem para aprofundar seus estudos de canto lírico na Europa. Mas não foi aceita, depois que descobriram que ela era negra e disseram – pasmem! – que ela não representava o povo brasileiro.

– Saindo da escola, Ivone foi morar na casa de seu tio Dionísio, que tocava violão de sete cordas e fazia parte de grupo de músicos de choro, que reunia ninguém menos que Pixinguinha e Donga. Com o tio, Ivone aprende a tocar cavaquinho.

D. Ivone Lara na época em que trabalhava como enfermeira

– Ivone Lara se tornou enfermeira, se formando logo depois como assistente social. Se especializou em Terapia Ocupacional, se dedicando a trabalhos em hospitais psiquiátricos e chegando a trabalhar no Serviço Nacional de Doenças Mentais, com a doutora Nise da Silveira, médica alagoana, reconhecida mundialmente por sua contribuição à psiquiatria, que revolucionou o tratamento mental no Brasil.

– Ela desempenhou um papel fundamental na reforma psiquiátrica no Brasil. Durante mais de três décadas, ela atuou na Colônia Juliano Moreira, com pacientes de doenças mentais.

– Foi uma das primeiras mulheres formadas em assistência social no Brasil e uma das primeiras mulheres negras com curso superior no país.

– Em uma época em que pacientes de doenças mentais eram abandonados pela família, Ivone se deslocou para os municípios do Rio de Janeiro e de estados vizinhos, localizando parentes dos internos para apresentar uma visão diferente da maioria dos diagnósticos médicos, que desacreditavam a condição mental dessas pessoas.

– Tudo isso fazia parte de uma rotina terapêutica e de uma visão completamente nova que humanizava o tratamento da saúde mental. Além disso, Dona Ivone trouxe a terapia musical para seus pacientes no Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro. Usando seus contatos, conseguia patrocínio para os instrumentos e a criação de uma oficina de música, que passou a apoiar festas e eventos de socialização entre os pacientes, seus familiares e os funcionários do hospital. Essa oficina mais tarde deu origem ao bloco de carnaval Loucura Suburbana, que existe até hoje.

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