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Os 10 maiores poemas de Ferreira Gullar
Os 10 maiores poemas de Ferreira Gullar
Confira especial sobre um dos mais influentes poetas brasileiros, que aborda temas como identidade, solidão e as complexidades da vida
Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira, é um dos mais influentes poetas brasileiros do século 20, reconhecido por sua profunda reflexão sobre a condição humana e as realidades sociais do Brasil.
Nascido em 30 de agosto de 1930, em São Luís do Maranhão, Gullar se destacou como um dos fundadores do neoconcretismo, um movimento que buscava romper com as normas rígidas do concretismo ortodoxo. Sua carreira literária começou cedo, com a publicação de seu primeiro livro, “Um Pouco Acima do Chão”, em 1949.
Vem ler uma seleção dos 10 maiores poemas de Ferreira Gullar, um recorte de sua habilidade lírica e engajamento político.
Poema Sujo (trecho)
turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
Considerada sua obra-prima, Poema Sujo foi escrito durante o exílio na Argentina, fala sobre a solidão e a luta pela liberdade em um Brasil sob ditadura. Com mais de dois mil versos, aborda questões identitárias e políticas, transitando do eu individual para o nós coletivo.
Homem Comum
Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.
Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.
Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons,
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei
No poema “Homem Comum”, o sujeito poético busca sua identidade ao mapear experiências materiais e imateriais, representadas pela carne e pela memória. Ele se apresenta como resultado de suas vivências, estabelecendo uma conexão com o leitor ao afirmar que é “como você, feito de coisas lembradas e esquecidas”.
Gullar utiliza essa identificação para compartilhar experiências cotidianas e inquietações humanas, mostrando que as vivências do eu-lírico são universais e ressoam com todos nós. O poema enfatiza a simplicidade da vida e a busca por significado nas experiências comuns.
Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?
Um poema introspectivo que reflete sobre a subjetividade do artista. Gullar explora as dualidades da existência humana e a busca por autoconhecimento, questionando como traduzir diferentes partes de si mesmo.
Fagner musicou esse poema, em 1981, que virou uma das faixas do disco homônimo.
No Mundo Há Muitas Armadilhas (trecho)
No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha
Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Troia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)
No mundo há muitas armadilhas
Veja também:
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já que a vida é louca?
Este poema provoca uma reflexão crítica sobre os desafios da vida contemporânea. Com imagens vívidas, Gullar instiga o leitor a questionar as armadilhas e refúgios encontrados no cotidiano.
Uma Fotografia Aérea
Eu devo ter ouvido aquela tarde
um avião passar sobre a cidade
aberta como a palma da mão
entre palmeiras
e mangues
vazando no mar o sangue de seus rios
as horas
do dia tropical
aquela tarde vazando seus esgotos seus mortos
seus jardins
eu devo ter ouvido
aquela tarde
em meu quarto?
na sala? no terraço
ao lado do quintal?
o avião passar sobre a cidade
Aqui, Gullar evoca suas origens em São Luís do Maranhão ao contemplar uma cidade vista do céu. O poema suscita questões sobre a memória e o que uma imagem pode capturar da experiência emocional.
Como Dois e Dois São Quatro
Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena
como é azul o oceano
e a lagoa, serena
como um tempo de alegria
por trás do terror me acena
e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena
– sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.
Com um tom social e político, este poema reflete sobre as dificuldades da vida sob um regime opressivo. Apesar das adversidades, Gullar mantém uma perspectiva otimista sobre a vida.
Extravio
Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.
Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
O eu-lírico busca entender sua própria identidade ao explorar suas experiências passadas. O poema expressa uma sensação de dispersão e a busca por reconexão consigo mesmo.
Maio 1964
Na leiteria a tarde se reparte
em iogurtes, coalhadas, copos
de leite
e no meu espelho meu rosto. São
quatro horas da tarde, em maio.
Tenho 33 anos e uma gastrite. Amo
a vida
que é cheia de crianças, de flores
e mulheres, a vida,
esse direito de estar no mundo,
ter dois pés e mãos, uma cara
e a fome de tudo, a esperança.
Esse direito de todos
que nenhum ato
institucional ou constitucional
pode cassar ou legar.
Mas quantos amigos presos!
quantos em cárceres escuros
onde a tarde fede a urina e terror.
Um retrato autobiográfico da repressão durante a ditadura militar brasileira. Gullar reflete sobre seus direitos como cidadão e os horrores enfrentados por aqueles que se opuseram ao regime.
Cantiga Para Não Morrer
Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
Um dos poucos poemas de amor de Gullar, o eu-lírico pede para ser levado pela amada ao partir. A obra destaca a fragilidade dos sentimentos humanos diante da inevitabilidade da separação.
A Poesia
Onde está
a poesia? indaga-se
por toda parte. E a poesia
vai à esquina comprar jornal.
Cientistas esquartejam Púchkin e Baudelaire.
Exegetas desmontam a máquina da linguagem.
A poesia ri.
Baixa-se uma portaria: é proibido
misturar o poema com Ipanema.
O poeta depõe no inquérito:
meu poema é puro, flor
sem haste, juro!
Não tem passado nem futuro.
Não sabe a fel nem sabe a mel:
é de papel.
Neste metapoema, Gullar investiga o papel da poesia na sociedade contemporânea, questionando sua relevância em meio às dificuldades enfrentadas pelo mundo.
A obra de Ferreira Gullar é marcada por um forte engajamento social e uma busca constante por significado nas complexidades da vida humana. Seus poemas refletem suas vivências pessoais e dialogam com as realidades coletivas do povo brasileiro.



