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5 livros para conhecer Ariano Suassuna
5 livros para conhecer Ariano Suassuna
“Auto da Compadecida”, “Os Homens de Barro” e “A Pena da Lei” são alguns dos livros que compõe a extensa obra de Ariano Suassuna, importantíssima para a história do nosso país

Se não tivesse nos deixado em julho de 2014, aos 87 anos, o paraibano Ariano Suassuna completaria 99 anos nesta semana!
Intelectual, escritor, teórico da arte, dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta, artista plástico, professor, advogado e palestrante, Suassuna nasceu em 16 de junho de 1927, em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa, na Paraíba.
Um dos maiores pensadores da nossa história e com uma importância e relevância imensa para a cultura do nosso país, o escritor foi criado em uma família de intelectuais e – desde cedo – foi influenciado pelas artes e pela cultura popular do Nordeste do Brasil.
Seu pai, João Suassuna, foi governador do estado da Paraíba e seu avô, João Ribeiro de Suassuna, foi um importante escritor e político. O pai de Suassuna morreu assassinado quando o autor tinha apenas três anos de idade, por conta de uma briga política/familiar. Toda a produção literária de Ariano, de formas variadas, retoma a morte ou homenageia o pai.
Mais tarde, Ariano Suassuna estudou Direito na Universidade Federal de Pernambuco, onde passou a viver a partir de 1942, e também se envolveu com movimentos artísticos e culturais.
Em 1947, escreveu sua primeira peça: “Uma Mulher Vestida de Sol”, e – em 1955 – o mundo conheceu a peça mais importante de sua extensa obra: o “Auto da Compadecida”, considerada pelo teatrólogo Sábato Magaldi “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”.
A partir daí, Suassuna consolidou sua carreira como escritor e dramaturgo, produzindo diversas peças teatrais, romances, ensaios e poemas. Suas obras frequentemente abordam temas ligados à cultura nordestina, à religiosidade popular e à crítica social.
Ao lado de Hermilo Borba Filho, fundou também o Teatro do Estudante de Pernambuco, em 1959.1970, iniciou o Movimento Armorial, que buscava valorizar e difundir as manifestações culturais tradicionais do Nordeste brasileiro, como a literatura de cordel, a música de viola e a xilogravura.

Ariano Suassuna recebeu diversos prêmios e honrarias ao longo de sua carreira, sendo um dos escritores mais importantes e respeitados do Brasil. Ele foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1989, ocupando a cadeira número 32. Além de sua carreira literária, também foi professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, onde lecionou por muitos anos.
Também é membro da Academia Paraibana de Letras e Doutor Honoris Causa da Faculdade Federal do Rio Grande do Norte (2000).
A sua produção literária, que engloba poesia, teatro e romances, bem como sua atividade na área da cultura em geral, estão fundamentalmente ligadas aos cenários nordestinos e à cultura popular da região, e foi um grande divulgador dessa cultura para o restante do Brasil, chamando a atenção para a literatura de cordel, os trovadores e repentistas, as artes visuais, o artesanato e a música.
Sua atuação como educador e sua paixão por disseminar a cultura nordestina influenciaram gerações de estudantes e artistas, tendo deixado um legado significativo para a literatura e para a cultura brasileira como um todo. Sua obra continua sendo estudada e apreciada, mantendo-se como referência na valorização da cultura popular e no fortalecimento da identidade nordestina.
5 livros essenciais de Ariano Suassuna
1 – Auto da Compadecida (1955)

“Auto da Compadecida” é uma peça teatral em forma de auto, em três atos, escrita em 1955 e que acompanha as aventuras de João Grilo e Chicó, dois sertanejos pobres que usam a esperteza para sobreviver à fome e à miséria no Nordeste.
Sua primeira encenação aconteceu em 1956, no Recife, em Pernambuco, e em outubro de 1957 a peça foi publicada em forma de livro pela editora Agir, no Rio de Janeiro.
A peça – que mistura elementos da literatura de cordel, do gênero comédia e traços do barroco católico brasileiro, com a marcante mistura da cultura popular e da tradição religiosa do Nordeste do Brasil – também foi encenada em 1974, com direção de João Cândido.
O “Auto da Compadecida” se tornou um grande sucesso e projetou Suassuna em todo o país e foi considerada por Sábato Magaldi, em 1962, “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”. A peça foi adaptada para o cinema pela primeira vez em 1969, com o filme “A Compadecida”, dirigido por George Jonas.
A segunda adaptação veio em 1987, com o filme “Os Trapalhões no Auto da Compadecida”, dirigido por Roberto Faria. Em 1999, foi apresentada como uma minissérie pela Rede Globo, que inclusive foi a responsável pela inclusão do artigo “O” antes do nome original.
A adaptação de maior sucesso, foi editada em 2000 para exibição nos cinemas, contando com alguns personagens, como o Cabo Setenta, Rosinha e Vicentão, que não fazem parte da peça original. Esses personagens adicionais fazem parte da obra “Torturas de um Coração”, além de elementos de “O Santo e a Porca”, ambas de autoria de Ariano Suassuna.
O longa é dirigido por Guel Arraes, com roteiro dele junto com Adriana Falcão e João Falcão e é estrelado por Matheus Nachtergaele e Selton Mello. Cultuadíssimo, o filme ganhou uma sequência agora em 2024.
2 – Os Homens de Barro (1948)

Passada no conjunto de lajedos da Pedra do Reino, em “Os Homens de Barro” Ariano Suassuna conta a história de um grupo de homens que decidem esculpir um anjo, após sua suposta aparição para um deles.
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Para tanto, organizam-se de forma comunitária, provocando a desconfiança e hostilidade dos fazendeiros locais. Mais uma vez de forma magistral, Suassuna usa sua arte para abordar importantes questões sociais e trazer elementos importantes da cultura nordestina.
Marcados pelo desamparo e pelo desamor, os personagens da trama se abrigam no fanatismo religioso, elemento estruturante da peça. Trata-se de uma tragédia de viés moderno, na qual o sofrimento dos personagens não é resultado de imponderáveis armadilhas do destino ou inescapáveis desígnios dos deuses, como era comum nas tragédias gregas.
A dor e a morte resultam de uma intrincada sobreposição de fatores psicológicos e de fatores socioeconômicos. Sem abdicar do caráter transcendental predominante nas tragédias, Suassuna traz à cena, ainda que em segundo plano, uma crítica incisiva às injustiças sociais, tão evidentes no sertão nordestino, mostrando como os poderosos agem para desarticular movimentações coletivas potencialmente ameaçadoras ao poder estabelecido.
3 – A Pena e a Lei (1959)

“A Pena e a Lei” é uma peça teatral de 1959 repleta de críticas sociais e com muitos momentos cômicos. Retrata grandes questões como o trabalho nas usinas, reivindicações trabalhistas, companhias estrangeiras, fome e prostituição, de forma que dividiu o país em um “Brasil oficial” – dedicado às elites – em detrimento dos povos pobre do “Brasil real”.
Na peça que virou livro, Ariano Suassuna traz elementos do cordel e teatro de bonecos e vai do profano ao sagrado, do trágico ao cômico, misturando temas e linguagens. Como boa farsa, expõe verdades dolorosas incitando o riso, ao passo que estimula a reflexão sobre a imperfeita justiça dos homens frente à infalível justiça divina.
Dez anos depois de lançada, “A Pena e a Lei” foi premiada no Festival Latino-Americano de Teatro.
4 – O Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-volta (1971)

Romance publicado em 1971, inspirado em um episódio ocorrido no século XIX, no município sertanejo de São José do Belmonte, a 470 quilômetros do Recife, onde uma seita, em 1836, tentou fazer ressurgir o rei Dom Sebastião, transformado em lenda em Portugal depois de desaparecer na África, durante a Batalha de Alcácer-Quibir.
Sob domínio espanhol, os portugueses sonhavam com a volta do rei que restituiria a nação tomada à força. O sentimento sebastianista ainda hoje é lembrado em Pernambuco, durante a Cavalgada da Pedra do Reino, por manifestação popular que acontece anualmente no local, onde inocentes foram sacrificados pela volta do rei.
Suassuna iniciou o Romance em 1958, para concluí-lo somente uma década depois, quando percebeu o que o levou a escrever o romance: a morte do pai, quando tinha apenas três anos de idade, tragédia pessoal presente na literatura de Suassuna.
A história é baseada na cultura popular nordestina e inspirada na literatura de cordel, nos repentes e nas emboladas, e dedicada – além de ao seu pai – a mais doze “cavaleiros”, entre eles Euclides da Cunha, Antônio Conselheiro e José Lins do Rego.
O poeta Carlos Drummond de Andrade definiu “O Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-volta” como um “romance-memorial-poema-folhetim”, narrado pelo seu protagonista, Dom Pedro Dinis Ferreira Quaderna, que constrói um monumento literário à cultura caboclo-sertaneja nordestina, marcada pelas tradições do mundo ibérico (Portugal e Espanha), trazidas pelos primeiros colonizadores europeus e transfeitas ao longo dos séculos.
Na história, Quaderna é preso em Taperoá por subversão, faz sua própria defesa perante o corregedor e, para tanto, relata a história de sua família, escrita na prisão. Declara-se descendente de legítimos reis brasileiros, castanhos e “cabras” da Pedra do Reino – sem relação com os “imperadores estrangeiros e falsificados da Casa de Bragança” – e conta o seu envolvimento com as lutas e as desavenças políticas, literárias e filosóficas no seu reino.
Na época do seu lançamento, o livro foi considerado um marco da literatura nordestina, após o ciclo do romance regional de 1930. A obra foi adaptada para o cinema, o teatro e a televisão. Na TV, em 2007, foi exibida pela Rede Globo numa minissérie em 5 capítulos, a “A Pedra do Reino”, com direção e roteiro de Luiz Fernando Carvalho e colaboração de Luis Alberto de Abreu e Bráulio Tavares, em homenagem aos 80 anos de Suassuna.
5 – A História do Amor de Fernando e Isaura (1956)

“A História do Amor de Fernando e Isaura” é uma espécie de versão brasileira da clássica lenda de “Tristão e Isolda”, história imortalizada pela obra de Joseph Bédier, e conta sobre uma paixão proibida. Um amor tão verdadeiro e intenso que, impedido de ser vivenciado em toda a sua plenitude, encaminha-se para um trágico desfecho.
Ambientado em Alagoas e cheio de referências do Romanceiro Popular Nordestino, é a primeira empreitada de Ariano Suassuna no campo da prosa de ficção e foi escrito como uma espécie de exercício para a posterior criação do “Romance da Pedra do Reino”, escrito entre 1958 e 1970 e publicado em 1971.



