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Saúde mental no trabalho: Brasil bate recorde de afastamentos e acende alerta
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Saúde mental no trabalho: Brasil bate recorde de afastamentos e acende alerta
Licenças por ansiedade, depressão e estresse somaram 472 mil em 2024, alta de 68% em um ano. Especialistas pedem ação de empresas e governo para frear a crise

O Brasil registrou 472.328 afastamentos do trabalho por motivos de saúde mental em 2024, segundo dados do INSS e do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho. É o maior patamar em pelo menos uma década, um salto de cerca de 68% em relação a 2023. Na comparação com 2022, quando foram 201 mil, o avanço chega a 134% em apenas dois anos.
Os diagnósticos mais comuns foram ansiedade com episódios depressivos (141.414 casos), depressão (113.604) e depressão recorrente (52.627). As mulheres responderam por cerca de 64% dos afastamentos, especialmente na faixa de 35 a 49 anos.
Por que os números explodiram
Especialistas apontam que a alta não se explica apenas por mais diagnósticos. Há fatores estruturais no ambiente de trabalho que alimentam a crise:
- Pressão excessiva: metas inalcançáveis, longas jornadas e pouco controle sobre prazos.
- Desequilíbrio entre vida e trabalho, com sobrecarga especialmente para quem acumula cuidados da família.
- Estigma e medo de retaliação, que atrasam a busca por ajuda.
- Lideranças despreparadas para identificar sinais e oferecer suporte.
- Culturas que priorizam produtividade a qualquer custo, sem espaço para pausas e bem-estar.
“Entre os sinais de alerta estão fadiga constante, irritabilidade, queda de desempenho e dificuldades de concentração”, explica Isabela Dupin, médica especialista em saúde ocupacional. Para ela, a área de Medicina do Trabalho deve atuar junto à gestão, “orientando gestores, implementando programas de prevenção e garantindo apoio aos colaboradores que apresentem sinais de esgotamento”.
Há evidências de que o problema é global. A Organização Mundial da Saúde estima que 15% da força de trabalho viva com algum transtorno mental, com impacto anual de US$ 1 trilhão em produtividade. Relatórios internacionais também apontam taxas elevadas de risco de burnout; em um levantamento do BCG, 48% dos trabalhadores em oito países relataram o problema.
Mesmo em empresas com programas estruturados, a percepção de apoio ainda é desigual. Em estudo do CRESM-Einstein com líderes de RH e saúde corporativa, 60% dos profissionais disseram sentir segurança psicológica para se expressar, mas 39% afirmaram não contar com suporte adequado da gestão para lidar com estresse.
Veja também:

O impacto para empresas e a economia
- Queda de produtividade por licenças, retrabalho e desempenho abaixo do ideal.
- Alta de absenteísmo e presenteísmo (quando se trabalha sem rendimento pleno).
- Custos diretos com benefícios por incapacidade e tratamentos.
- Pressão sobre o PIB: estimativas apontam que afastamentos por saúde ocupacional podem comprometer cerca de 4% ao ano.
- Rotatividade e perda de talentos, com reflexos na imagem empregadora.
Os relatos individuais ajudam a dimensionar o cenário. O enfermeiro Lucas Bernardes, que enfrentou burnout após anos de plantões, descreve: “A sensação de ir para os plantões era de total desesperança. Estresse, insônia crônica, irritabilidade, dores musculares e cefaleia passaram a fazer parte do meu dia a dia.”
O que fazer agora
- Prevenção estrutural: incluir riscos psicossociais nas políticas de saúde e segurança, com identificação e gestão contínuas.
- Formação de líderes e RH: treinar para reconhecer sinais, acolher e encaminhar ao cuidado.
- Redes de apoio: psicoterapia, psiquiatria e intervenções de bem-estar como mindfulness e técnicas de relaxamento; alternativas regulamentadas, como o uso terapêutico da cannabis, sempre com supervisão especializada. “A cannabis medicinal apresenta um potencial significativo no auxílio ao tratamento da ansiedade, depressão e sintomas do burnout”, afirma a psicóloga Maria Klien, que ressalta a necessidade de acompanhamento médico.
- Ambiente seguro para falar: canais de escuta, grupos de apoio e políticas claras contra retaliações.
- Equilíbrio vida-trabalho: gestão de carga, pausas, respeito às folgas e fim da cultura de disponibilidade total.
- Medição constante: monitorar sintomas, afastamentos e clima organizacional para ajustar ações.
Para que as mudanças saiam do papel, o recado à liderança é direto. “A saúde mental precisa ser um pilar estratégico e não apenas um acessório, com participação ativa da alta gestão”, defende Luiz Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Bem-Estar e Saúde Mental.
Sem uma virada rápida e coordenada entre empresas, governo e serviços de saúde, especialistas alertam que os indicadores podem piorar — com custo alto para trabalhadores, organizações e para a economia do país.
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