Os 10 maiores poemas de Ferreira Gullar

Clarissa Sayumi
14:18 12.11.2024
Arte e cultura

Os 10 maiores poemas de Ferreira Gullar

Confira especial sobre um dos mais influentes poetas brasileiros, que aborda temas como identidade, solidão e as complexidades da vida

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- 12.11.2024 - 14:18
Os 10 maiores poemas de Ferreira Gullar
TV Brasil Memórias/Arquivo | Agência Brasil.

Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira, é um dos mais influentes poetas brasileiros do século 20, reconhecido por sua profunda reflexão sobre a condição humana e as realidades sociais do Brasil.

Nascido em 30 de agosto de 1930, em São Luís do Maranhão, Gullar se destacou como um dos fundadores do neoconcretismo, um movimento que buscava romper com as normas rígidas do concretismo ortodoxo. Sua carreira literária começou cedo, com a publicação de seu primeiro livro, “Um Pouco Acima do Chão”, em 1949.

Vem ler uma seleção dos 10 maiores poemas de Ferreira Gullar, um recorte de sua habilidade lírica e engajamento político.

Poema Sujo (trecho)

turvo turvo

a turva

mão do sopro

contra o muro

escuro

menos menos

menos que escuro

menos que mole e duro

menos que fosso e muro: menos que furo

escuro

mais que escuro:

claro

como água? como pluma?

claro mais que claro claro: coisa alguma

e tudo

(ou quase)

um bicho que o universo fabrica

e vem sonhando desde as entranhas

azul

era o gato

azul

era o galo

azul

o cavalo

azul

teu cu

tua gengiva igual a tua bocetinha

que parecia sorrir entre as folhas de

banana entre os cheiros de flor

e bosta de porco aberta como

uma boca do corpo

(não como a tua boca de palavras) como uma

entrada para

eu não sabia tu

não sabias

fazer girar a vida

com seu montão de estrelas e oceano

entrando-nos em ti

bela bela

mais que bela

mas como era o nome dela?

Não era Helena nem Vera

nem Nara nem Gabriela

nem Tereza nem Maria

Seu nome seu nome era…

Perdeu-se na carne fria

perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia

Considerada sua obra-prima, Poema Sujo foi escrito durante o exílio na Argentina, fala sobre a solidão e a luta pela liberdade em um Brasil sob ditadura. Com mais de dois mil versos, aborda questões identitárias e políticas, transitando do eu individual para o nós coletivo.

Homem Comum

Sou um homem comum

de carne e de memória

de osso e esquecimento.

Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião

e a vida sopra dentro de mim

pânica

feito a chama de um maçarico

e pode

subitamente

cessar.

Sou como você

feito de coisas lembradas

e esquecidas

rostos e

mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia

em Pastos-Bons,

defuntas alegrias flores passarinhos

facho de tarde luminosa

nomes que já nem sei

No poema “Homem Comum”, o sujeito poético busca sua identidade ao mapear experiências materiais e imateriais, representadas pela carne e pela memória. Ele se apresenta como resultado de suas vivências, estabelecendo uma conexão com o leitor ao afirmar que é “como você, feito de coisas lembradas e esquecidas”.

Gullar utiliza essa identificação para compartilhar experiências cotidianas e inquietações humanas, mostrando que as vivências do eu-lírico são universais e ressoam com todos nós. O poema enfatiza a simplicidade da vida e a busca por significado nas experiências comuns.

Traduzir-se

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte delira.

Uma parte de mim

almoça e janta:

outra parte

se espanta.

Uma parte de mim

é permanente:

outra parte

se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.

Traduzir uma parte

na outra parte

– que é uma questão

de vida ou morte –

será arte?

Um poema introspectivo que reflete sobre a subjetividade do artista. Gullar explora as dualidades da existência humana e a busca por autoconhecimento, questionando como traduzir diferentes partes de si mesmo.

Fagner musicou esse poema, em 1981, que virou uma das faixas do disco homônimo.

No Mundo Há Muitas Armadilhas (trecho)

No mundo há muitas armadilhas

e o que é armadilha pode ser refúgio

e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela por exemplo

aberta para o céu

e uma estrela a te dizer que o homem é nada

ou a manhã espumando na praia

a bater antes de Cabral, antes de Troia

(há quatro séculos Tomás Bequimão

tomou a cidade, criou uma milícia popular

e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas

Veja também:

e muitas bocas a te dizer

que a vida é pouca

que a vida é louca

E por que não a Bomba? te perguntam.

Por que não a Bomba para acabar com tudo, já que a vida é louca?

Este poema provoca uma reflexão crítica sobre os desafios da vida contemporânea. Com imagens vívidas, Gullar instiga o leitor a questionar as armadilhas e refúgios encontrados no cotidiano.

Uma Fotografia Aérea

Eu devo ter ouvido aquela tarde

um avião passar sobre a cidade

aberta como a palma da mão

entre palmeiras

e mangues

vazando no mar o sangue de seus rios

as horas

do dia tropical

aquela tarde vazando seus esgotos seus mortos

seus jardins

eu devo ter ouvido

aquela tarde

em meu quarto?

na sala? no terraço

ao lado do quintal?

o avião passar sobre a cidade

Aqui, Gullar evoca suas origens em São Luís do Maranhão ao contemplar uma cidade vista do céu. O poema suscita questões sobre a memória e o que uma imagem pode capturar da experiência emocional.


Como Dois e Dois São Quatro

Como dois e dois são quatro

sei que a vida vale a pena

embora o pão seja caro

e a liberdade pequena

Como teus olhos são claros

e a tua pele, morena

como é azul o oceano

e a lagoa, serena

como um tempo de alegria

por trás do terror me acena

e a noite carrega o dia

no seu colo de açucena

– sei que dois e dois são quatro

sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro

e a liberdade, pequena.

Com um tom social e político, este poema reflete sobre as dificuldades da vida sob um regime opressivo. Apesar das adversidades, Gullar mantém uma perspectiva otimista sobre a vida.

Extravio

Onde começo, onde acabo,

se o que está fora está dentro

como num círculo cuja

periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,

nas pessoas, nas gavetas:

de repente encontro ali

partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:

vejo do alto a cidade

e em cada esquina um menino,

que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.

Onde estarão meus pedaços?

O eu-lírico busca entender sua própria identidade ao explorar suas experiências passadas. O poema expressa uma sensação de dispersão e a busca por reconexão consigo mesmo.

Maio 1964

Na leiteria a tarde se reparte

em iogurtes, coalhadas, copos

de leite

e no meu espelho meu rosto. São

quatro horas da tarde, em maio.

Tenho 33 anos e uma gastrite. Amo

a vida

que é cheia de crianças, de flores

e mulheres, a vida,

esse direito de estar no mundo,

ter dois pés e mãos, uma cara

e a fome de tudo, a esperança.

Esse direito de todos

que nenhum ato

institucional ou constitucional

pode cassar ou legar.

Mas quantos amigos presos!

quantos em cárceres escuros

onde a tarde fede a urina e terror.

Um retrato autobiográfico da repressão durante a ditadura militar brasileira. Gullar reflete sobre seus direitos como cidadão e os horrores enfrentados por aqueles que se opuseram ao regime.

Cantiga Para Não Morrer

Quando você for se embora,

moça branca como a neve,

me leve.

Se acaso você não possa

me carregar pela mão,

menina branca de neve,

me leve no coração.

Se no coração não possa

por acaso me levar,

moça de sonho e de neve,

me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa

por tanta coisa que leve

já viva em seu pensamento,

menina branca de neve,

me leve no esquecimento.

Um dos poucos poemas de amor de Gullar, o eu-lírico pede para ser levado pela amada ao partir. A obra destaca a fragilidade dos sentimentos humanos diante da inevitabilidade da separação.

A Poesia

Onde está

a poesia? indaga-se

por toda parte. E a poesia

vai à esquina comprar jornal.

Cientistas esquartejam Púchkin e Baudelaire.

Exegetas desmontam a máquina da linguagem.

A poesia ri.

Baixa-se uma portaria: é proibido

misturar o poema com Ipanema.

O poeta depõe no inquérito:

meu poema é puro, flor

sem haste, juro!

Não tem passado nem futuro.

Não sabe a fel nem sabe a mel:

é de papel.

Neste metapoema, Gullar investiga o papel da poesia na sociedade contemporânea, questionando sua relevância em meio às dificuldades enfrentadas pelo mundo.

A obra de Ferreira Gullar é marcada por um forte engajamento social e uma busca constante por significado nas complexidades da vida humana. Seus poemas refletem suas vivências pessoais e dialogam com as realidades coletivas do povo brasileiro.

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