A importância de Zé Keti para a música popular brasileira

Lívia Nolla
13:45 04.10.2024
Autor

Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
Música

A importância de Zé Keti para a música popular brasileira

O legado de um compositor que uniu samba, engajamento social e resistência cultural em suas canções: hoje seria aniversário desse gigante da nossa música

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- 04.10.2024 - 13:45
A importância de Zé Keti para a música popular brasileira
Zé Keti | Foto: Marco Aurélio Olímpio

Zé KetI foi um daqueles artistas cuja obra transcende os limites da música para se tornar parte integrante da memória cultural brasileira. Compositor e intérprete singular, ele cantou a vida nos morros e o cotidiano das classes populares com uma sensibilidade e uma verdade inigualáveis. 

Seus sambas, cheios de crítica social e poesia, retrataram o Brasil com um olhar generoso e, ao mesmo tempo, contestador.

Zé Keti foi não apenas um cronista de sua época, mas um porta-voz das aspirações e desafios de toda uma geração, marcando a história da música popular brasileira com um legado que reverbera até os dias de hoje.

Por isso – no dia de hoje – preparamos uma matéria especial, que relata a importância de Zé Keti para a música popular brasileira.

Zé Keti | Foto: Arquivo Pessoal

O Nascimento de um Mestre do Samba

Nascido José Flores de Jesus, em 6 de outubro de 1921, no Rio de Janeiro, Zé Keti cresceu no bairro de Bangu, na casa do avô, o flautista e pianista João Dionísio Santana, que costumava promover reuniões musicais em sua casa, das quais participavam nomes famosos da música popular brasileira como Pixinguinha, Cândido das Neves, entre outros. 

O pai de Zé Keti era um marinheiro que tocava cavaquinho, e foi assim que o sambista cresceu: ouvindo as cantorias do avô e do pai. Dono de um temperamento tímido, seu pseudônimo veio do apelido de infância “Zé Quieto” ou “Zé Quietinho”. 

Desde cedo, foi imerso no universo musical dos morros cariocas, onde o samba era muito mais do que um estilo musical: era uma forma de expressão e resistência. Influenciado por nomes como Noel Rosa e Ismael Silva, Zé Keti começou a compor ainda na adolescência, capturando o cotidiano da vida nas favelas de forma singular e profunda.

O Samba como Voz da Comunidade

Ele começou a atuar na década de 1940, na ala dos compositores da escola de samba Portela. Entre 1940 e 1943, compôs sua primeira marcha carnavalesca: Se o Feio Doesse, e, em 1947, Tio Sam no Samba foi o primeiro samba de sua autoria gravado, pelo grupo Vocalistas Tropicais.

Mas foi com A Voz do Morro, de 1955, que ele realmente se consolidou como uma voz relevante na cena musical brasileira.

Gravada por Jorge Goulart, a canção fez enorme sucesso na trilha do filme Rio 40 graus, de Nelson Pereira dos Santos, em que Zé Keti trabalhou também como segundo assistente de câmera e ator.

A Voz do Morro tornou-se um hino do samba e expressa o orgulho de ser sambista e a importância de dar voz àqueles que viviam nas favelas e subúrbios, muitas vezes invisibilizados pela sociedade. 

Com versos como “Eu sou o samba / A voz do morro sou eu mesmo, sim senhor”, Keti reafirma o protagonismo do sambista e morador do morro como narrador de sua própria história.

No ano de 1962, Zé Keti idealizou o conjunto A Voz do Morro, do qual participou e que ainda contava com Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, José da Cruz, Oscar Bigode e Nelson Sargento. O grupo lançou três discos.a

Engajamento Político e o Teatro de Arena

Zé Kéti, Nara Leão e João do Vale no Show Opinião | Foto: Reprodução

Nos anos 1960, Zé Keti viveu um momento de transformação pessoal e artística ao integrar o Teatro de Arena. Foi convidado por Gianfrancesco Guarnieri para participar do espetáculo Opinião, ao lado de Nara Leão (que depois foi substituída por Maria Bethânia) e João do Vale

A peça, estreada em 1964, foi uma resposta cultural ao golpe militar e se tornou um símbolo de resistência e protesto. A música Opinião, escrita por Keti, sintetizava a mensagem de luta e resiliência em meio à repressão: “Podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer, que eu não mudo de opinião”. 

A canção se tornou um dos maiores hinos contra a ditadura e marcou a trajetória do compositor como um artista engajado, que usava sua arte como arma contra a opressão.

Outra composição importante de Zé Keti desta fase é Diz que Fui por Aí

Veja também:

Retratos do Cotidiano Carioca e a Máscara Negra no Carnaval

Além de suas composições de protesto, Zé Keti foi um cronista dos costumes e da vida nos morros cariocas. Em Acender as Velas, o compositor trata com lirismo e sensibilidade as dificuldades enfrentadas pela população pobre, retratando as despedidas e velórios improvisados nas comunidades. A música carrega uma crítica social sutil, ao mesmo tempo em que exalta a dignidade do povo em meio às adversidades.

Outra obra-prima do compositor é Diz Que Fui por Aí, em parceria com Hortêncio Rocha, que ficou eternizada na voz de Nara Leão. A canção, que fala sobre a liberdade de um boêmio que vaga pelas ruas do Rio, revela a capacidade de Keti de transformar o simples em poético.

Em 1966, Zé Keti alcançou o auge de sua popularidade com o samba Máscara Negra, em parceria com Hildebrando Pereira Matos. A composição, gravada por Dalva de Oliveira, é até hoje um dos maiores sucessos do carnaval brasileiro. 

Com uma melodia contagiante e uma letra que mistura alegria e nostalgia, a música tornou-se um clássico das marchinhas, lembrando o clima dos antigos carnavais de rua. A letra, que começa com o icônico “Tanto riso, oh quanta alegria / Mais de mil palhaços no salão”, é uma celebração à fantasia e à brincadeira, mas também um lembrete de que, sob as máscaras, há emoções e histórias verdadeiras.

O Legado e a Continuidade

Zé Keti | Foto: Gabriel de Paiva

Nos anos seguintes,  Zé Kéti viveu um período de esquecimento na música do Brasil. Durante a década de 1980, morou em São Paulo e, em 1987, teve o primeiro derrame cerebral. 

Em 1995, voltou a morar no Rio, continuou compondo, cantando e lançou um disco. No ano seguinte, lançou o álbum 75 Anos de Samba, com quatro músicas inéditas e vários sucessos antigos ecom participação de Zeca Pagodinho, Monarco, Wilson Moreira e Cristina Buarque.

Em 1997, Zé Keti recebeu da Portela um troféu em reconhecimento pelo seu trabalho e, no ano seguinte, ganhou o Prêmio Shell pelo conjunto de sua obra: mais de 200 músicas. 

Zé Keti faleceu em 1999, mas seu legado permanece vivo. Suas canções continuam sendo interpretadas por novos e consagrados artistas, e sua influência é reconhecida em diversos gêneros da música brasileira.

Em uma época de intensa censura e repressão, Zé Keti manteve sua integridade artística e pessoal, utilizando o samba como veículo para questionar a ordem estabelecida e dar voz aos marginalizados. Suas composições que transcendem o tempo, são um testemunho poderoso do potencial da música como expressão cultural e instrumento de transformação social.

Zé Keti não apenas fez parte da história do samba, ele escreveu, com suas letras, melodias e atitude, capítulos fundamentais da história da música brasileira. Suas canções são mais do que obras de arte: são documentos vivos de uma época, reflexões sobre a condição humana e, acima de tudo, um legado de esperança e resistência para as futuras gerações.

Viva, Zé Keti!

por Lívia Nolla

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Lívia Nolla é cantora, apresentadora e pesquisadora musical

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