A palavra virando coisa: dois cadernos e tudo mais que separa Alba de Céspedes de mim

Jeovanna Vieira
17:21 11.09.2024
Autor

Jeovanna Vieira

Escritora
Arte e cultura

A palavra virando coisa: dois cadernos e tudo mais que separa Alba de Céspedes de mim

Investigação sobre o valor literário do registro de diário

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- 11.09.2024 - 17:21
A palavra virando coisa: dois cadernos e tudo mais que separa Alba de Céspedes de mim
Alba de Céspedes. Foto: Marisa Rastellini.

Na minha mudança mais recente um caderno verde-limão apareceu. Não precisei abri-lo para saber que se tratava do meu diário do puerpério. Quando meu primeiro filho nasceu, não esperei pelo resguardo e fiz com ele, pendurado num sling, o trajeto urgente até a papelaria. O que me tiraria de casa com um bebê que tinha acabado de sair de mim, que não fosse levá-lo às primeiras consultas e vacinas? Eu fiquei assustada. Se não tivesse um recém-nascido a tiracolo, o fato de estar no meio do furdunço do bairro do Catete, em frente ao Museu da República não causaria nenhum espanto, eu sempre andei muito pelo bairro, eu sempre vaguei em papelarias, eu sempre fui movida por impulsos. Quando encontrei numa gôndola o caderno verde fluorescente — escrito STILO em roxo —, entendi o que tinha me levado a esse passeio arriscado.

Eu não ia voltar para os bancos escolares, tinha computador e celular onde se quisesse, poderia anotar o que bem entendesse. Mas fui imantada pelo desejo de levar embora comigo aquela encadernação de capa dura. As folhas pautadas de Pólen 90 pareciam me aliciar, Me conta? E, não que uma coisa substituísse a outra, mas eu não estava pronta para um processo analítico, e instintivamente naif, comecei a usar o caderno de divã.

Como se num projeto literário, antecipando o meu desejo de ser escritora, fiz capa, dedicatória, e escolhi de epígrafe um trecho de Vidas Secas, “ele tinha querido que a palavra virasse coisa”. Pulei duas páginas de respiro, me demorando a tomar coragem (hoje eu entendo), e iniciei o canto superior direito: Rio de Janeiro, 17/07/2015. Ainda não sei dizer o motivo, mas enderecei a escrita de cada dia ao meu primogênito, sem nunca ter a intenção de revelar a ele o que eu ainda confesso ali.

Página um. Começa com: “Oi filho”. À medida que a gente foi ficando íntimo, os vocativos se revelaram menos genéricos em perspectiva do “Oi filho”, porque em julho eu estava só me apresentando. Cada dia era um predicado diferente, “Menininho de mamãe”, “Juju”, “Amor da minha vida”, “Luz do sol”, “Quimquiririquimquim”, “Joaquim Sapé” e daí por diante. Nove anos passados (dois puerpérios depois), eu ainda escrevo para esse filho-destinatário, contando da chegada do segundo, dizendo coisas sobre mim que eu não quero que ele saiba, renovando o pacto de fazer da minha dor, palavra escrita e transformar isso em alguma mandinga para protegê-los.

A minha história recente com diário é essa. Um caderno que guarda: dias difíceis de apojadura observação da línea negra da barriga cair o umbigo, um dente, muitos dentes terminar e retomar um casamento lançar e fechar pequenos negócios o recalque absoluto em não conseguir trabalhar nesse tal do meu elemento ( frustração por não ter uma carreira sólida onde eu me sentisse cabendo & confortável) uma lista de músicas que eu escutava enquanto eles cresciam a descrição do sorriso de cada um, incluindo um glossário para gargalhadas a descrição de uma votação no congresso que culminou no golpe contra a única mulher a ocupar a presidência no país deles o asco que senti nesse episódio uma tentativa de desenhar uma árvore genealógica algumas mudanças de casa medo de morrer e deixá-los órfãos o medo de ficar órfã

o medo de morrer sem assinar “escritora” num campo de uma ficha qualquer. Assim, anotando todos os dias alguma coisa, que na circunstância do registro não parecia ter valor literário nenhum, eu forjei um caminho ao encontro da minha escrita enquanto fazia confissões.

Veja também:

Não só o meu diário me interessa, mas o das outras pessoas. Não me entenda mal: eu não violo textos alheios, mas sou completamente obcecada por diários publicados, em especial, o de escritoras. Ano passado, recebi da Companhia das Letras o Caderno Proibido, da Alba de Céspedes. Eu não sabia do que se tratava, mas quando abri a primeira página, me reconheci na cena: “Fiz mal em comprar este caderno, muito mal. Mas agora é tarde demais para lamentar, o estrago está feito. Nem sei o que me levou a adquiri-lo, foi por acaso. Nunca pensei em manter um diário, até porque um diário deve permanecer secreto e, para isso, seria preciso escondê-lo de Michele e dos meninos”. Como se fosse uma intrusa, espreitando o que Valeria, personagem de Alba, queria esconder de “Michele e dos meninos”, acompanhei o cotidiano de uma família de classe média num pós-guerra, na Itália. O imenso estava ali, contido nas tarefas mais ordinárias de uma mãe-esposa-trabalhadora-narradora, por exemplo, o ato solitário-compulsório de dobrar todas as roupas da casa. Valeria viveria por anos — além dos 42 que tinha quando comprou o caderno —, sem se dar conta dos seus desejos de emancipação. Continuaria solitária e compulsoriamente ocupada com a vida do marido, dos pais e dos filhos, se não tivesse traduzido o que se adensava em seu inconsciente através de uma caneta e do seu caderno, transformando tudo em linguagem.

Um mundo separa Alba de mim, incluindo a cor dos nossos cadernos. O dela discreto, preto, escondido entre as peças de roupas dobradas; o meu neón, grande, chamativo, camuflado entre as pilhas de outros cadernos, que graças ao diário, se acumulam com rascunhos dos meus próximos projetos. Em comum, os cadernos têm uma vocação de bússola para as duas mães, que no ato do registro, não portavam a alcunha, mas sim, são escritoras.

Devorei os escritos de Alba, que podem ser interpretados como um romance epistolar, posto que a autora, embora escreva cartas separadas por dias, mantém o desenvolvimento e conflitos de personagens e enredo. Conectada pela mesma falta de ciência, flertando com o mesmo mostrar-e-ocultar de Alba, ou de Valeria, que seja, preferi alimentar outra hipótese para essa edição: tomada certa distância dos acontecimentos a dona do diário achou esse caderno, que guardava assuntos de uma certa época resolveu amarrar os dias em fios invisíveis que sustentam sim, uma narrativa, mas tem outro tipo de pacto com o leitor: em vez de rechaço, o convite para dentro da sua agonia.

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Jeovanna Vieira

Jeovanna Vieira nasceu em 1985, em Vila Velha, no Espírito Santo. Formada em jornalismo, é autora do livro de poemas Deserto sozinha (Pedregulho, 2023). Virgínia mordida é seu romance de estreia, lançado pela Companhia das Letras. É mãe de Joaquim e Bento e atualmente mora nos Emirados Árabes.

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